À primeira vista, York parece personificar a Idade Média. Mas um olhar mais atento revela que a cidade no norte da Inglaterra é na verdade uma bonita colcha, cujos retalhos deixados por romanos, vikings, normandos, tudors e vitorianos foram costurados pelo tempo de forma surpreendentemente harmônica.
Ao mesmo tempo que continua preservada, a capital do condado de Yorkshire não parou no tempo. Seu apelo está sempre sendo renovado, seja pela inegável semelhança de Shambles com o Beco Diagonal de Harry Potter ou pela popularização mundial do chocolate KitKat, que foi criado em York.

As principais atrações estão concentradas no centro histórico, delimitado por uma muralha de cerca de 3,4 km de extensão. Um dia inteiro costuma ser suficiente para conhecer o essencial de York, mas quem se propõe a ficar mais um dia aproveita melhor o aconchego da cidade, que tem pubs, ótimas bakeries e pousadas charmosas.
Se puder, evite os finais de semana, quando as ruas ficam apinhadas de turistas locais — York está relativamente próxima das quatro grandes cidades do norte da Inglaterra, Leeds, Sheffield, Manchester e Liverpool. Para os forasteiros, vale combinar York com Manchester e/ou Liverpool, mas a viagem a partir de Londres não deixa de ser uma opção: o trem da LNER conecta a capital inglesa a York em cerca de duas horas.

5 COISAS PARA FAZER EM YORK
1. MURALHAS
Foram os romanos os responsáveis por construir uma muralha para defender York, por volta de 71 d.C. Ao longo do tempo, a estrutura e o traçado dos muros passaram por diversas mudanças e o que se vê hoje data, em sua maioria, da Idade Média, mais exatamente dos séculos 13 e 14. O conjunto continua a impressionar: York possui mais quilômetros de muralha do que qualquer outra cidade da Inglaterra. O acesso é gratuito e uma volta completa pelos seus 3,4 km leva cerca de duas horas, mas como existem várias entradas e saídas, é possível optar por um passeio mais curto.

Chamados em inglês de bars, quatro portões originais permitem atravessar a muralha e adentrar o atual centro histórico de York. São eles Monk Bar, Bootham Bar, Walmgate Bar e Micklegate Bar. Assim como eu, a maior parte dos visitantes chega pelo Micklegate Bar, simplesmente por ele ser o mais próximo da estação de trem, a menos de dez minutos de caminhada. Mas, no passado, seu uso não tinha nada de casual: aquele era o portão cerimonial tradicional, por onde os reis entravam na cidade.

Caso chegue pelo Micklegate Bar, vale resistir à tentação de subir na muralha imediatamente. A não ser que você tenha intenção de dar a volta completa por cima dos muros, minha sugestão é seguir o seu passeio cruzando o centro histórico e deixar para subir na muralha nas imediações do Monk Bar, que é o portão mais alto e elaborado dos quatro.
Eis o motivo pelo qual vale a pena deixar para visitar a muralha aqui: caminhando em direção ao oeste, você estará no pedaço com a vista mais bonita, incluindo um fotogênico enquadramento do pátio do Grays Court Hotel com a Catedral de York ao fundo. Outra dica é descer no Bootham Bar, que fica bem perto das ruínas dos Museum Gardens, que complementam a experiência (saiba mais no tópico a seguir).

2. MUSEUM GARDENS
Um dos poucos vestígios da muralha romana original que são visíveis acima do solo fica dentro de uma área verde de quatro hectares chamada Museum Gardens, de entrada gratuita. Dentre essas estruturas romanas, o que mais chama atenção são os 5,8 metros de altura da Multangular Tower, assim denominada por ter dez lados.
Essa é, porém, só uma das surpresas guardadas dentro dos Museum Gardens. Os vestígios romanos convivem com as ruínas do que foi uma das abadias mais prósperas da Inglaterra durante a Idade Média. Fundada em 1088, a St Mary’s Abbey foi gravemente danificada por um incêndio em 1137 e, mesmo assim, continua embelezando os jardins com arcos e colunas bem preservados.

3. CATEDRAL DE YORK
250 anos foram dedicados à construção da monumental Catedral de York, consagrada em 1472. Com 148 metros de comprimento e três torres de 60 metros de altura, é sem dúvidas uma das estruturas góticas mais bonitas do mundo, magnífica tanto na fachada quanto em seu interior.
Ao adentrar a igreja, foi impossível não direcionar o meu olhar para cima. Os arcos e colunas imponentes guiam a atenção em direção ao teto ornamentado e, principalmente, para os belíssimos vitrais coloridos. Alguns remontam ao século 12 e todos já passaram por poucas e boas: na Primeira e na Segunda Guerra Mundial, grande parte dos vidros teve que ser retirada e depois remontada para sobreviver aos bombardeios.

Dê uma boa olhada na Grande Janela Oriental, que com 23 metros de altura é o maior exemplo de vitral medieval do mundo, e na Janela da Rosa, que alterna desenhos de rosas brancas e vermelhas – trata-se de uma alusão ao fim da Guerra das Rosas e a união das casas Lancaster (rosa vermelha) e York (rosa branca), que deu origem à Casa Tudor.
O coro da Catedral de York, que só é superado em altura na Inglaterra pelo coro da Abadia de Westminster, me inspirou a voltar mais tarde para assistir à uma missa. O coral da igreja, somado ao som do órgão centenário, me provocou arrepios.

Transformado no Undercroft Museum, o subsolo da igreja revela diversas camadas da história de York: ali estão resquícios de um quartel romano, de um cemitério anglo-saxão e os alicerces de uma catedral normanda. As ruínas dividem espaço com uma exposição de tesouros que pertencem à igreja, incluindo manuscritos da Idade Média.
O passeio fica completo subindo os 275 degraus da torre principal da catedral, que é o ponto mais alto da cidade e tem a melhor vista para o centro histórico.
Imperdível, a visita à Catedral de York custa £ 20 (é possível comprar o ingresso com antecedência pelo site), que já incluem acesso ao museu subterrâneo, subida à torre e tours guiados. Esses dois últimos acontecem em horários específicos a cada dia, então vale consultar o site para não perder a experiência de seu interesse.
4. SHAMBLES
O lugar mais mágico e com certeza o mais movimentado de York é Shambles, uma das mais bem preservadas ruas medievais de toda a Europa. Estive por lá em um sábado e chegava a ser difícil caminhar pela via, que é propositalmente estreita. No passado, as construções de beirais salientes eram ocupadas por açougues, e a proximidade entre elas servia para manter a carne longe da luz solar direta. Repare que alguns dos edifícios ainda preservam na fachada ganchos que serviam para pendurar a carne, assim como prateleiras de madeira onde os produtos eram expostos.

Se em 1885 trinta e um açougues ainda ocupavam a rua, agora não resta nenhum. As construções históricas, algumas datando do século 14, são hoje restaurantes e lojas. Dentre elas, não passa despercebido um número notável de estabelecimentos dedicados a vender artigos relacionados ao universo de Harry Potter. A The Shop That Must Not Be Named, por exemplo, chega a acumular longas filas na porta aos finais de semana. Tudo porque Shambles realmente lembra o Beco Diagonal dos filmes da franquia – ainda que a autora dos livros, J.K. Rowling, tenha negado que a rua serviu de inspiração para ela, ao contrário do que muitos afirmam erroneamente.

Muito mais antiga é a relação de York com o sobrenatural. A cidade é tida como uma das mais assombradas da Europa e coleciona lendas urbanas sobre espíritos que vagam por suas vielas, em especial Shambles. Isso explica porque outra loja incrivelmente popular da rua é a The York Ghost Merchant, que vende pequenas esculturas de fantasmas feitas à mão, todas diferentes umas das outras. É fácil identificá-la pela fila, que não raro chega a 90 minutos de espera.
Ainda em Shambles, vale conferir a Monk Bar Chocolatiers, chocolateria artesanal mais antiga da cidade; a The Shambles Sausage & Pie Company, que vende tortas em tamanho individual; e a Shambles Kitchen, popular loja de sanduíches de carne defumada que é o mais próximo que a rua tem hoje de um açougue.
Para mais opções de almoço, basta seguir para o adjacente Shambles Market. Depois de me perder entre o colorido das barracas de peixe, carne, vegetais, flores, antiguidades, artesanatos e souvenires, cheguei em uma agradável praça de alimentação com mesas compartilhadas rodeadas por foodtrucks, que vendem comidas de todos os cantos do mundo.

Ghost ToursPara conhecer a fundo as histórias fantasmagóricas de York, vale embarcar em um “ghost tour”. Os passeios focam em edifícios notáveis que têm registros de atividades misteriosas e nos fantasmas mais famosos, como a “Grey Lady” do York Theatre Royal. Muitos deles acontecem à noite, para deixar tudo ainda mais arrepiante. |
5. YORK’S CHOCOLATE STORY
É hora de se debruçar sobre um capítulo mais recente da história de York. A cidade se tornou um polo chocolateiro a partir do século 18, quando a família Rowntree deu início ao que viria a se tornar uma das maiores fábricas de chocolate do mundo: dali saíram criações como o Aero, a primeira barra de chocolate aerado, e o famoso KitKat.
Outro nome importante foi o da família Terry, que inventou um chocolate com laranja no formato da fruta, com gomos que se separam. Muito popular no Reino Unido, mas inexistente no Brasil, o Terry’s Chocolate Orange é delicioso e rende uma ótima lembrança de viagem.
As fábricas da Rowntree e da Terry já não existem e suas receitas foram incorporadas a outras grandes marcas, mas ainda há uma forte indústria chocolateira na cidade: até quatro milhões de barras de KitKat são produzidas por dia na fábrica da Nestlé em York.
Toda essa trajetória é contada durante a visita guiada do York’s Chocolate Story, a poucos passos de Shambles. A exposição interativa é ótima para quem viaja com crianças e, para minha alegria, a todo momento há pequenas degustações de chocolate.

A experiência termina com um workshop, em que eu e os demais visitantes assistimos como são feitas as trufas e pudemos criar a nossa própria barra de chocolate para levar para casa. Ao final da visita, há uma loja que vende chocolates artesanais produzidos ali mesmo, além de chocolates industrializados que foram inventados na cidade.

ONDE COMER EM YORK: BAKERIES, PUBS E SUNDAY ROAST
As construções medievais e os dias frequentemente cinzentos poderiam dar um ar um tanto soturno a York, mas a cidade é na realidade bastante acolhedora e até romântica. Faz parte da experiência de visitá-la se aconchegar em um lugar charmoso para tomar um chá da tarde, e York é célebre por suas bakeries, que se dedicam tanto aos pães de fermentação natural quanto às delícias típicas de Yorkshire, como os puddings (um pão de massa leve) e as curd tarts (tortinhas recheadas com um creme à base de leite).
Aberto desde 1937, o Betty’s é uma instituição local. Reserve com antecedência o chá da tarde ou chegue cedo para experimentar a famosa batata rösti com queijo gruyère e chutney de maçã e o fat rascal, um bolinho recheado com groselha.
A Heppni Bakeri é mais recente – foi inaugurada em 2024 –, mas já se tornou um ícone. A padaria artesanal de inspiração francesa e escandinava serve croissants, pains au chocolat e outros folhados para acompanhar os cafés especiais. Outras opções no centro histórico incluem a Bluebird Bakery e a Brew & Brownie.
Além das bakeries, também são numerosos os pubs – dizem que há um para cada dia do ano em York. Para uma viagem ao passado, vá ao House of the Trembling Madness, que tem partes do prédio datando do final do século 12, e ao pequenino The Blue Bell, onde a decoração eduardiana é a mesma desde 1903.
Ou então ao Guy Fawkes Inn, instalado na mesma casa onde ele nasceu em 1570. Para quem não se lembra das aulas de história, Guy Fawkes foi um dos conspiradores católicos que tentou explodir o Parlamento Britânico durante a Conspiração da Pólvora. Já o Golden Fleece se orgulha de ser o pub mais assombrado de York e casa de 15 fantasmas diferentes.
Entre os restaurantes, merece destaque o The Whippet Inn, escondido em um prédio de tijolinhos de 1896 em uma das ruas menos fotogênicas e, portanto, menos movimentadas do centro de York. A especialidade ali são as porções generosas de carne, que chegam acompanhadas de legumes da região.
Em frente aos Museum Gardens, o York Roots conquistou uma estrela no Guia Michelin pelas mãos de Tommy Banks. Seu menu degustação muda de acordo com a sazonalidade dos ingredientes, que vêm de fornecedores locais e da fazenda dos pais do próprio chef. Aos domingos, por um preço mais acessível que o menu degustação tradicional, o restaurante serve sua interpretação do sunday roast, tradicional almoço britânico servido aos domingos composto por carne assada, batatas, legumes, Yorkshire pudding e muito molho gravy.
ONDE SE HOSPEDAR EM YORK
Quem se hospeda dentro da muralha ou próximo dela consegue conhecer o essencial de York a pé.
Me hospedei no Elmbank York, uma joia art nouveau a dez minutos de caminhada do Micklegate Bar. Instalado em uma mansão do século 19, o hotel combina ambientes aconchegantes com um serviço atencioso para fazer você se sentir em casa – efeito reforçado pela presença de alguns hóspedes de quatro patas (o Elmbank se orgulha de ser totalmente pet friendly).
Nos quartos, cores vibrantes entram na medida para criar um efeito mais contemporâneo.
Acredita-se que a casa continuamente habitada mais antiga da cidade seja o Grays Court Hotel, hoje uma hospedagem boutique de apenas 12 quartos aos pés da Catedral de York. A decoração interna complementa a idade e o estilo do casarão e, na parte externa, há um bonito jardim.
Do lado de fora dos muros, mas ainda a uma curta caminhada da Catedral de York, o The Churchill soube dosar bem o antigo e o moderno em sua ambientação: os quartos se dividem entre a mansão de 1827 e um novo anexo.
No Middletons, a sensação é a de estar em uma casa de fazenda é tão grande que você pode até acabar se esquecendo que está no centro. O hotel consiste em um conjunto de seis edifícios históricos, cercados por um jardim que garante a tranquilidade.
Para quem prefere um design totalmente contemporâneo, o Hotel Indigo York by IHG fica em uma parte mais sossegada do centro e faz referências ao chocolate na decór. Outra opção é o moderninho e mais econômico Roomzzz, a cerca de dez minutos a pé da muralha.
Perto da estação de trem de York, são clássicos o The Grand York, com quartos de design moderno, e o The Milner, que possui piscina e acomodações em tons neutros.
COMO CHEGAR
O Transpennine Express liga Manchester e Liverpool a York em menos de duas horas. Esse é o mesmo tempo da viagem de trem da LNER entre Londres e York.
Bate e voltaA partir de York, vale a pena fazer um passeio de bate e volta até Castle Howard, que fica 24 quilômetros ao norte. Situada em um parque de quase 250 hectares, o imponente palácio construído entre 1699 e 1712 já foi usado como locação de Bridgerton e do clipe de Four Out of Five da banda Arctic Monkeys. |
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Fonte.:Viagen


