
Crédito, Reuters
- Author, Jessica Murphy
- Role, Da BBC News em Toronto (Canadá)
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Para o primeiro-ministro canadense Mark Carney, a decisão de suspender, na sexta-feira (21/08), as negociações comerciais com o presidente americano Donald Trump e retaliar, em vez de aceitar um acordo que parecia próximo, será um importante teste político.
Ele é um dos primeiros líderes mundiais a abandonar a mesa de negociações com a Casa Branca — e o resultado será acompanhado de perto por outros governos.
Ambos os lados atribuíram o fracasso do acordo provisório a mudanças de última hora, com Carney afirmando que os EUA “pediram demais” e “ofereceram muito pouco”.
Trump afirmou que o Canadá quer “os benefícios de ser um Estado [americano], sem sê-lo”, após o colapso das negociações comerciais entre os dois países.
Ao comentar a interrupção das negociações — que desencadeou novas tarifas americanas de 50% sobre uma série de produtos canadenses —, Trump disse que os agricultores americanos vinham pagando “quantias enormes em tarifas” há anos.
Carney classificou as novas tarifas americanas como um “erro de cálculo” destinado a “nos prejudicar e nos dividir”.
Ele confirmou que aplicaria tarifas equivalentes às de Trump, “dólar por dólar”, a partir de 8 de setembro, incluindo taxas sobre aço, laticínios, eletrodomésticos e eletrônicos.
Os EUA e o Canadá estão agora em uma “guerra” comercial, afirmou ele.
A decisão de Carney vai testar a disposição dos canadenses em aceitar um certo nível de sofrimento econômico, enquanto Ottawa pressiona por mais concessões dos EUA.
Após rejeitar as táticas de alta pressão de Trump e optar por retaliar contra as novas tarifas, Carney precisará convencer os canadenses de que o prejuízo econômico compensa o custo de enfrentar o governo Trump em busca de um acordo melhor a longo prazo.
O Canadá enfrenta, assim como o Brasil, um dilema sobre como agir diante de tarifaços impostos pelo governo Trump.
‘Fomos atacados’
No sábado (23/08), Carney afirmou: “Tomamos esta medida com a certeza de que é no interesse do Canadá” e acusou os EUA de uma “jogada de poder” ao buscarem mudanças de última hora.
Questionado por um repórter se os EUA e o Canadá estavam em guerra comercial, ele respondeu: “Você está em guerra quando é atacado — e nós fomos atacados.”
Falando em francês, ele disse que a escalada da disputa comercial “não foi uma escolha nossa”, acrescentando: “O Canadá é forte, o Canadá está preparado, o Canadá está unido.”
Isso causará transtornos para ambos os lados da fronteira, com as empresas enfrentando maior pressão das tarifas alfandegárias americanas e das tarifas canadenses de retaliação.
O Canadá envia cerca de 70% de suas exportações para os EUA, e o país é o principal parceiro comercial de vários Estados americanos, sendo Michigan, Kentucky, Indiana e Ohio alguns dos mais afetados.
Carney foi eleito com a promessa de agir com firmeza contra um governo Trump que tenta usar pressão econômica para promover os interesses americanos.
Muitos canadenses disseram aos pesquisadores que estão dispostos a lutar.
Uma pesquisa recente da Abacus Data sugeriu que cerca de 36% dos canadenses apoiariam a retaliação às tarifas americanas, enquanto uma pesquisa da Leger indicou que 56% dos canadenses querem que o governo federal adote uma postura firme e não faça mais concessões.
Os canadenses, frustrados com as tarifas americanas, já optaram por evitar viajar para lá. O boicote representou uma perda de cerca de US$ 2,35 bilhões em receita de viagens para os EUA no ano passado.
A decisão da maioria das províncias de retirar bebidas alcoólicas americanas das prateleiras das lojas prejudicou bastante esse setor.
Com base em dados comerciais do governo dos EUA, as exportações de vinho americano para o Canadá caíram 78% em relação ao ano anterior, uma perda de US$ 357 milhões em valor de exportação. A associação de destiladores dos EUA relatou números semelhantes, afirmando que as proibições provinciais causaram uma queda de mais de 70% nas exportações de bebidas destiladas americanas.
A proibição rapidamente se tornou um ponto de frustração para o governo Trump.
O primeiro-ministro do Canadá também precisará convencer as províncias, que até agora foram menos afetadas pela disputa comercial com os EUA, de que se retirar das negociações é um risco que vale a pena correr.
Ele os informou no sábado sobre a situação atual e, por enquanto, eles estão demonstrando união.
O primeiro-ministro da Columbia Britânica, David Eby, disse estar comprometido com o “projeto nacional em que estamos trabalhando”, enquanto o primeiro-ministro de Ontário, Doug Ford, afirmou: “Não começamos essa luta, mas posso garantir que vamos vencê-la”.
O que deu errado?
Ao longo da última semana, parecia que um acordo entre os governos de Washington e Ottawa estava próximo.
Ainda não está claro exatamente como as negociações fracassaram, mas, ao que tudo indica, foi uma questão de tempo.
Carney afirmou que os termos propostos pelos EUA em cima da hora “eram injustos, antieconômicos e colocavam em dúvida a confiabilidade de qualquer acordo”.
Ele acrescentou no sábado que esses termos incluíam exigências para o setor automobilístico e restrições “inaceitáveis” a acordos comerciais com outros países.
Em uma frase mordaz, ele disse sobre o governo Trump: “Reconhecemos que, às vezes, sua assinatura é escrita a lápis.”
O representante comercial dos EUA, Jamieson Greer, por sua vez, apontou para “novas exigências e recuos de outros compromissos por parte do Canadá”.
Em um comunicado divulgado na sexta-feira, o Conselho de Bebidas Destiladas dos EUA sugeriu que “a recusa contínua das províncias canadenses em recolocar produtos destilados americanos nas prateleiras das lojas levou a esse resultado”.
Houve também relatos na mídia canadense de que o secretário de Comércio dos EUA, Howard Lutnick, estava insatisfeito com o acordo. A BBC entrou em contato com seu gabinete para obter um comentário.
E à medida que os detalhes sobre um acordo comercial provisório com os EUA foram sendo divulgados ao longo da última semana, alguns líderes provinciais, grupos industriais e opositores políticos manifestaram preocupação com o fato de o primeiro-ministro não ter cumprido a promessa de combater as medidas americanas — embora Carney tenha negado que isso tenha influenciado sua decisão.
O primeiro-ministro de Ontário, Doug Ford — geralmente um dos políticos canadenses mais ativos em relação às tarifas americanas — manteve-se em silêncio sobre o acordo provisório durante toda a semana. Mas, em uma carta enviada a Carney, ele expressou preocupação de que um acordo sob pressão “encorajaria os EUA a buscar uma concessão após a outra”.
A província, que possui um grande setor industrial e automotivo, está entre as regiões mais afetadas por essa disputa comercial.
O líder da oposição conservadora, Pierre Poilievre, afirmou que qualquer acordo que incluísse tarifas “unilaterais” sobre a indústria canadense seria “um mau negócio”.
No sábado, ele apoiou a decisão de Carney de se afastar por enquanto, dizendo: “O Canadá não pode aceitar tarifas unilaterais que irão desindustrializar nosso país.”
O colapso deste acordo coloca em dúvida o futuro de negociações semelhantes, incluindo a revisão do pacto de livre comércio entre os EUA, o México e o Canadá.
Agora Carney – e o Canadá – precisam esperar para ver como Trump responderá.
Fonte.:BBC NEWS BRASIL


