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29 de agosto de 2025

Zuccardi: família fala sobre produção de vinho argentino – 28/08/2025 – Comida

Zuccardi: família fala sobre produção de vinho argentino – 28/08/2025 – Comida

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Os Zuccardi chegaram à terceira geração como uma das famílias mais importantes da produção de vinho no mundo.

A história de 62 anos começou com um engenheiro, Alberto, que queria mostrar o funcionamento de um sistema de irrigação no pé da cordilheira dos Andes, em Mendoza, na Argentina —e só por isso plantou um vinhedo.

A uva tomou conta da família. José Alberto, seu filho, assumiu o negócio, agora tocado por três netos do fundador: Sebastián, à frente da produção de vinhos, Miguel, que incorporou o negócio de azeite, e Júlia, que cuida da parte turística da vinícola —eleita três vezes a melhor do mundo para visitar.

Eles continuam se definindo como uma família de agricultores, só que agora com mais de mil hectares de vinhedos e mais de 300 hectares de oliveiras para cuidar, com 1.300 pessoas trabalhando. Exportam metade da produção, para 70 países. O Brasil é o terceiro maior destino, atrás de Estados Unidos e Inglaterra.

“O vinho para nós é uma forma de viver que contém um negócio”, disse José Alberto, 71, em entrevista à Folha ao lado de Sebastián, 45, na primeira vez que pai e filho viajaram juntos ao Brasil, neste mês.

Seus vinhos receberam algumas das classificações mais altas do mundo. Como veem a evolução do vinho argentino?

Sebastián Zuccardi O potencial é enorme. Vou falar do Vale do Uco, onde cultivamos. O que determina a identidade do nosso vinho é a montanha, com um clima muito continental, sem influência do oceano, com uma raridade que é um clima frio com luz, e terras de origem aluvial, gerando combinações que não se encontram em outros lugares do mundo, como granito e carbonato de cálcio.

José Alberto Zuccardi Há um fator importante para os argentinos: o vinho é parte da cultura e da alimentação. Gostamos de dizer que a Argentina é o antigo mundo no Novo Mundo. Quando se fala de Novo Mundo, se fala de países que não são grandes consumidores de vinho. Não é o caso. O fato de ter um mercado interno importante ajuda no desenvolvimento dos nossos estilos.


Além da malbec, que outras uvas podem ter importância para o vinho argentino?

SZ A malbec, falando de variedades tintas, é o melhor veículo para expressar nossos lugares. Não foi um plano de marketing, mas algo que aconteceu através de gerações de viticultores, melhorando-a, selecionando-a e replantando-a. Gosto de dizer que a malbec no Vale do Uco é como a pinot noir na Borgonha, a nebbiolo em Barolo, a sangiovese em Montalcino. É parte do lugar.

Mas, se queremos ampliar a visão, o cabernet franc é uma variedade que tem uma boa adaptação. Claro que sua história dentro da Argentina é muito mais curta, mas é uma variedade que gosta da luz e com a qual se pode fazer vinhos muito interessantes. A bonarda, também parte dessa história de viticultores, ocupa um lugar.

E dentro das variedades brancas, há três importantes. A torrontés, porque é nativa, não tem torrontés em nenhum outro lugar do mundo. A sémillon, por sua história. E a chardonnay, variedade muito transparente para os lugares de climas mais frios e solos mais calcáreos.


Vocês são defensores dos tonéis de concreto em relação ao carvalho e ao metal. Podem explicar um pouco a lógica?

SZ É possível fazer um grande vinho em concreto e um vinho ruim em concreto. A qualidade do vinho está ligada, primeiro, ao lugar onde cultivamos, a como trabalhamos na viticultura, e depois, na cave, é uma definição da interpretação que queremos. Fomos nos convencendo a trabalhar com concreto por algumas coisas. A primeira, buscamos que nossos vinhos mostrem, com a maior transparência, a origem.

O concreto não aporta nenhum aroma e sabor aos vinhos. Segundo, vivemos em um lugar com muita luz e trabalhamos com a malbec. Sentimos que não precisamos, nos vinhos, continuar abrindo-os; precisamos fechar toda essa energia.

O concreto é um material que tem muito menos micro-oxigenação do que uma barrica de madeira. O terceiro é que vivemos em um lugar com muita amplitude térmica. A parede de uma barrica de concreto é de 14 centímetros, nos ajuda a regular a temperatura.

E o quarto é que é um material natural; areia, pedra, água e cimento, e nossos recipientes em particular estão construídos com materiais do Vale do Uco.

Notam alguma mudança de gosto no Brasil para vinhos menos potentes, mais elegantes?

SZ O consumidor brasileiro vai se dando conta de que há uma diversidade muito grande de produtores. O vinho é diversidade, por definição. O mesmo produtor em três vinhedos diferentes são três vinhos diferentes. E três produtores diferentes exatamente no mesmo vinhedo são três vinhos.

Creio que há um movimento em direção a vinhos que expressem mais o lugar. E também acho que haverá um movimento para vinhos brancos, por questão climática.


Como é o processo criativo para construir um novo vinho, em total?

SZ Gosto da palavra que você traz, construir. Acho que os vinhos se constroem, e primeiro a partir do lugar. O que baseia todo o nosso primeiro trabalho é onde cultivamos. Uma vez que escolhemos os lugares, aprender como plantamos. Depois começa um processo onde temos que aprender, desde o momento de colheita, como vinificar até que chegue um ponto em que o vinho levanta a mão e nos diz: “Estou pronto para ser engarrafado”.

Há uma piada que diz que a melhor forma de fazer uma pequena fortuna com vinho é começar com uma grande fortuna. Como não perder dinheiro?

JZ Quando a gente vê o vinho simplesmente como um negócio, talvez haja negócios melhores. Mas quando a pessoa vê o vinho como uma forma de viver e, claro, que existe um negócio que lhe dá sustentabilidade no tempo, é diferente. O vinho exige um envolvimento, uma paixão que se transmita de quem o produz para quem o consome.

Diferente das bebidas industriais, que são uma fórmula, e a comunicação é simplesmente o produto do marketing, no vinho, a autenticidade é um valor muito importante. Essa é a diferença. Quando [o vinho] é visto por pessoas que vivem de outra atividade, que não vivem a paixão pelo vinho, acontece isso: a forma de fazer uma pequena fortuna é começar com uma grande.


A mudança climática afetou a produção do vinho em vocês e como veem o futuro para a produção do vinho no mundo?

SZ
A mudança climática parece evidente, mas é mais evidente em algumas regiões do que em outras. Aparentemente, no hemisfério norte, por haver mais terra do que oceano, os efeitos estão sendo muito mais claros de aumento de temperatura do que no hemisfério sul.

O que vemos em nossa região é que parece que não é tão rápido o aumento de temperatura, porque temos mais oceano no hemisfério sul e porque a zona próxima à cordilheira parece que não está se aquecendo tão rápido. O que sim se pode ver: nos últimos 11 anos, 9 tiveram nevadas na cordilheira abaixo da média histórica. Então pode ser que, na nossa região, o efeito da mudança climática vejamos mais na disponibilidade de água que no aumento de temperatura.

Dito isso, acho que temos condições para enfrentar a mudança climática de uma boa forma. Primeiro, pela variação de alturas que temos em curta distância, isso faz com que climaticamente subindo possamos ir a zonas mais frias. E segundo pela irrigação.

A pandemia mudou o consumo de vinho?

JZ
A pandemia mostrou que o âmbito do consumo de vinho é a mesa familiar, o momento em que se come. Foi muito interessante ver que, quando a gente tem tempo, cozinha e desfruta. Não há melhor bebida para compartilhar com uma comida do que um vinho. Vinho é isso, também: um meio de comunicação entre as pessoas.


As tarifas de Trump têm tido algum impacto no mercado do vinho?

SZ Nunca é bom que o vinho seja caro. E essas tarifas vão ter efeito no preço do vinho. Vemos isso no Brasil. Um dos grandes problemas para o vinho no Brasil é o valor do vinho. Porque o vinho, em algum ponto, para que cresça, precisa de algum grau de acessibilidade.

JZ Precisamos que se baixem os impostos no Brasil, porque não só os vinhos importados, os vinhos nacionais, todos têm uma carga impositiva muito alta. O mesmo vinho que, saindo ao mesmo preço da região, nos EUA tem um preço e no Brasil tem o dobro desse preço —ou mais. Isso é uma carga impositiva muito grande. Tem que ser revista, consumo de vinho é qualidade de vida. O vinho é parte da alimentação, parte da cultura

Raio-X

José Alberto Zuccardi, 71, começou a trabalhar na vinícola da família aos 22 anos. Assumiu o comando da Zuccardi em 1985 e é hoje o diretor da empresa. Enólogo, foi responsável pelo plantio de uvas de melhor qualidade nos vinhedos da família

Sebastián Zuccardi, 45, terceira geração da empresa, é engenheiro agrônomo formado pela Universidade Nacional de Cuyo, em Mendoza. Criou a área de pesquisa e desenvolvimento da Zuccardi, dedicada ao estudo dos terroirs do Valle de Uco



Fonte.:Folha de São Paulo

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