
Eu nunca imaginei que, aos 65 anos, viveria uma jornada tão longa pela minha saúde. Em 2018, um exame de rotina, sem qualquer sintoma, revelou um câncer de próstata. Receber aquele diagnóstico perto do Natal foi um baque enorme. Em 2019, passei pela prostatectomia radical, a retirada total da próstata, e achei que dali em diante tudo voltaria ao normal. Mas a história estava só começando.
Quatro meses depois da cirurgia, tive uma rejeição na sutura [ou “ponto”] que liga a uretra à bexiga. Depois, se formou uma estenose [estreitamento da uretra] que simplesmente não me deixava urinar. Em uma viagem ao Pantanal, onde eu costumava pescar e descansar, precisei voltar correndo porque o fluxo urinário bloqueou completamente.
Vieram infecções, tentativas de cateterismo que não funcionavam e, no fim, uma punção na bexiga para drenagem. Passei a usar uma sonda suprapúbica, um cateter externo inserido na bexiga, por muito tempo. Cada correção da estenose parecia ter apenas efeito temporário. Entrei em um ciclo de hospital, dor e incerteza.
Fui encaminhado para a equipe de urologia reconstrutora do Instituto de Assistência Médica ao Servidor Público Estadual (Iamspe). Além das 36 ou 37 sessões de radioterapia, passei por cerca de 13 cirurgias, incluindo uma reconstrução da uretra com tecido da minha bochecha. Quando achei que os problemas tinham acabado, veio a consequência que mais impactou meu dia a dia: a incontinência urinária severa.
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Eu, que sempre fui ativo, me vi preso em casa. Usava seis ou sete fraldas por dia, e mesmo assim ainda tinha vazamentos. Dormia de barriga para cima para tentar evitar acidentes. Deixei de ir à praia, de pescar, de nadar. Evitava convites, reuniões, encontros. Perdi minha vida social, minha autonomia e até um pouco de quem eu era. Cheguei a dizer que estava vivendo um “padrão zero de vida”.
Foi então que conheci a possibilidade do Esfíncter Urinário Artificial (AMS800). Em março de 2024, passei pelo implante do dispositivo. A ativação veio alguns dias depois, e posso dizer que esse foi o momento da virada. A mudança foi imediata e profunda: voltei a sair de casa sem medo, a dormir bem, a fazer planos. Recuperei a liberdade que estava presa à incontinência.
Hoje, como aposentado após 33 anos de serviço público, me sinto extremamente grato a todos os profissionais que estiveram comigo nessa jornada. Quem nunca passou por isso talvez não imagine, mas a qualidade de vida de quem depende de fraldas é péssima. Eu já tinha me conformado com a ideia de viver assim para sempre, e agora posso dizer que retomei minha dignidade.
Depois de tudo que enfrentei, aprendi que não existe vergonha em pedir ajuda e buscar tratamento. O câncer foi assustador; a incontinência, devastadora. Mas eu estou aqui, inteiro de novo, com esperança e com vontade de viver tudo que ainda tenho pela frente.
Sou imensamente grato à equipe médica do Iamspe, em especial ao médico Wagner França e ao seu assistente, Magnun Pereira, por todo o profissionalismo, o cuidado atento, o respeito ao próximo e a enorme paciência que demonstram no dia a dia. Muito obrigado.
*Jorge Pasti, 65 anos, paciente que desenvolveu incontinência urinária após cirurgia da próstata
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Fonte.:Saúde Abril


