
Ao olharmos para trás, para as páginas digitais que escrevemos juntos nesta coluna ao longo dos últimos 12 meses, é impossível não sentir um misto de emoção e profundo otimismo. Se a medicina é uma jornada contínua, 2025 não foi apenas mais um passo; foi um salto.
Foi o ano em que deixamos definitivamente de olhar para o diabetes e a obesidade apenas como números de glicose ou quilos na balança, e passamos a enxergar — e tratar — a vida em sua plenitude.
Ao fazer esta retrospectiva, percebo que vivemos uma verdadeira revolução nos consultórios. A ciência, finalmente, entregou ferramentas que devolvem não apenas saúde, mas dignidade e longevidade aos pacientes.
Novas indicações, novos horizontes no tratamento
Talvez o maior impacto deste ano tenha vindo do aval das das agências regulatórias, especialmente da nossa Anvisa e das diretrizes internacionais, que expandiram drasticamente o que nossos medicamentos podem fazer.
O exemplo mais emblemático dessa transformação tocou o fígado de milhões de brasileiros. Recentemente, noticiamos com entusiasmo a aprovação da Anvisa para o uso do Wegovy (semaglutida) no tratamento da esteatose hepática e fibrose.
Isso é monumental. Por anos, vimos a gordura no fígado avançar silenciosamente para cirrose em pacientes que não ingerem álcool, sem termos uma arma farmacológica específica. Agora, temos uma esperança real documentada.
Mas a revolução não parou por aí. O Mounjaro (tirzepatida), que já brilhava no controle glicêmico e de peso, ganhou um novo e surpreendente capítulo: foi aprovada para o tratamento da apneia do sono em pessoas com obesidade. Imaginem o impacto disso: noites de sono restauradas e a redução de riscos respiratórios graves, tratando a causa raiz metabólica, e não apenas o sintoma.
E, falando em quebra de paradigmas, até a velha e boa metformina teve seu papel reescrito. Em dezembro, novas diretrizes americanas indicaram que ela pode deixar de ser o “primeiro ato” obrigatório no tratamento do diabetes tipo 2, abrindo espaço para terapias mais modernas e protetoras desde o início.
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O coração no centro do palco
O pedido que fiz a mim mesmo ao escrever esta coluna durante o ano foi: “priorize o coração“. E a ciência respondeu. 2025 consolidou o conceito de que tratar diabetes e obesidade é, antes de tudo, proteger o sistema cardiovascular.
No entanto, aprendemos lições valiosas sobre persistência. Um estudo crucial mostrou que interromper o uso de medicamentos como o Wegovy e Mounjaro pode “deletar” o benefício cardíaco conquistado. Isso reforça uma mensagem que repito com carinho e firmeza: a obesidade e o diabetes são doenças crônicas. O tratamento contínuo não é uma condenação, é um seguro de vida para o seu coração.
No campo do colesterol, a esperança ganhou formas futuristas. Vimos a realidade de uma injeção semestral, a inclisirana, para controlar o colesterol alto chegar aos convênios, e fomos apresentados a novos comprimidos que atuam de maneira diferente das estatinas, como o ácido bempedoico, que prometem blindar nossas artérias.
Até o nosso cafezinho de cada dia foi mais uma vez absolvido e exaltado: estudos mostraram que, com moderação, ele ajuda o coração a bater no ritmo certo, reduzindo arritmias.
A revolução continua: o que vem por aí
Se 2025 foi grandioso, o horizonte é ainda mais brilhante. Acompanhamos a aprovação da “pílula oral de Wegovy” nos EUA, prometendo a potência da caneta em um comprimido, e vimos os resultados impressionantes da retatrutida, uma injeção que, em estudos, reduziu quase 30% do peso corporal e aliviou dores nos joelhos.
Estamos falando de tratamentos que se aproximam dos resultados de uma cirurgia bariátrica, mas sem o bisturi.
Para aqueles com diabetes tipo 1, a esperança também floresceu. A finerenona mostrou-se promissora para proteger os rins, reduzindo a perda de proteínas na urina. A tecnologia avançou com a chegada da menor bomba de insulina do mundo ao Brasil e sensores de glicose com inteligência artificial que preveem o futuro, antecipando hipoglicemias antes que elas aconteçam.
E como não se emocionar com o Nobel de Medicina de 2025, que abriu caminhos para reeducar o sistema imunológico, reacendendo o sonho da cura biológica?
Um alerta de cuidado
Como médico, meu dever também é proteger. Em meio a tanta esperança, vimos o crescimento perigoso do comércio ilegal e da manipulação indevida de medicamentos como a tirzepatida e a retatrutida. A saúde não aceita atalhos. A segurança de vocês vale mais do que qualquer promessa de resultado rápido fora das normas sanitárias.
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Uma mensagem final de esperança
Encerro esta retrospectiva com o coração aquecido. 2025 provou que não estamos mais lutando sozinhos contra doenças invisíveis. Temos ciência de ponta, temos novas indicações em bula que nos protegem por inteiro e, acima de tudo, temos a certeza de que o amanhã será ainda melhor.
O diabetes e o cardiometabolismo deixaram de ser sentenças de limitações para se tornarem condições gerenciáveis, permitindo que a vida seja vivida com qualidade, alegria e segurança. Que venha 2026. Estaremos aqui, juntos, acompanhando cada nova vitória da ciência a favor da sua vida.
Um pedido surge para 2026: que as novidades noticiadas aqui nesta coluna venham acompanhadas de direito ao acesso àqueles menos abastados. Que a política nacional de saúde coletiva seja mais igualitária e acessível.
Um abraço fraterno e um ano novo repleto de saúde!
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Fonte.:Saúde Abril


