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16 de janeiro de 2026

A história do diretor de teatro Vagner Nacarato – 04/01/2026 – Cotidiano

A história do diretor de teatro Vagner Nacarato – 04/01/2026 – Cotidiano

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Viajar a Paris ia além de uma extravagância. Lá pulsava mais forte seu sangue cultural. Fechar os olhos no Jardim de Luxemburgo era transportar a coreografa da bailarina norte-americana Isadora Duncan (1877-1927), o retrato na sala de casa, para o grande parque parisiense, onde ela costumava dançar (e ele também).

Vagner Nacarato foi um dos mais talentosos diretores teatrais do interior paulista dos últimos anos.

Criança, ganhou um teatrinho de madeira do avô. Deu vida aos fantoches, assim como fez a vida inteira com atores e atrizes lapidados por ele.

Adolescente, convenceu professoras a usarem técnicas teatrais em suas aulas nas escolas públicas que frequentou em Jundiaí (SP), onde nasceu.

Aos 17 anos, ganhou um prêmio no colégio por um monólogo feito em homenagem à mãe, que havia morrido naquele ano.

Em 1982, escreveu e dirigiu “Jerusalém”, peça que referendava o povo judeu, origem de sua família.

Passou no vestibular de jornalismo, mas não foi além do primeiro ano, para ser aprovado em seguida no curso de letras na USP (Universidade de São Paulo). Mas seu destino era o palco.

Recém-formado na faculdade, foi estudar com Antunes Filho, diretor do tradicional CPT (Centro de Pesquisas Teatrais), na capital paulista, onde ficou por dois anos.

No fim da década de 1980, voltou para sua cidade e levou junto outros atores formados com ele para fundar o Núcleo de Artes Cênicas.

“Ele começou com produções independentes, ministrou aulas de teatro e formou muita gente”, diz a irmã Débora Nacarato Castelo Branco, 58.

Uniu-se a um coral de sua cidade para criar o musical “Os Miseráveis”, em 1994. A peça estourou, viajaram pelo estado inteiro.

Durante 35 anos lecionou no tradicional colégio católico Divina Providência, que há dois anos batizou seu teatro com o nome de Vagner Nacarato, numa homenagem em vida do longevo professor da escola.

Também foi diretor do Teatro Polytheama —estava sempre com a arquiteta Lina Bo Bardi, responsável pelo projeto de restauro nos anos 1990.

“Ali, ele criou grupos de dança e música, pois dizia que todo teatro precisava ter seu próprio corpo de baile e de sinfônica”, conta a irmã.

Durante anos, tratou de um câncer renal, doença que se complicou em 2024. Há dois anos publicou um livro, “A Semente que Dorme”, para falar de sua luta contra a doença.

Numa das consultas, em abril do ano passado, o médico disse que se ele queria voltar à França mais uma vez, teria de ser naquele momento, pois não haveria mais tempo. Convenceu a irmã a levá-lo. Dançou no Jardim de Luxemburgo.

Vagner Nacarato morreu em 25 de novembro, aos 64 anos. Deixou de herança uma gravura de Isadora Dancan pendurada na sala. Foi para ela que fez um musical, considerado um de seus grandes trabalhos.

coluna.obituario@grupofolha.com.br

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Fonte.:Folha de S.Paulo

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