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- Author, Ana Faguy,
- Role, Washington,
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Procuradores federais dos Estados Unidos abriram uma investigação criminal contra o presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), Jerome Powell.
Em um vídeo no domingo (11/01) anunciando a investigação, Powell disse que o Departamento de Justiça dos EUA entregou intimações ao Fed e ameaçou apresentar uma acusação criminal por causa do seu depoimento a uma comissão do Senado sobre as reformas nos prédios do Banco Central americano.
Ele classificou a investigação como “sem precedentes” e afirmou acreditar que ela foi aberta porque contrariou o presidente americano, Donald Trump, ao se recusar a reduzir taxas de juros, apesar das repetidas pressões públicas do presidente.
Powell é o mais recente exemplo a entrar em conflito com Trump e, em seguida, enfrentar investigação criminal pelo Departamento de Justiça dos EUA.
A BBC entrou em contato com o Departamento de Justiça e com a Casa Branca para obter comentários.
“Isso diz respeito a se o Fed poderá continuar a definir taxas de juros com base em evidências e condições econômicas ou se, em vez disso, a política monetária será direcionada por pressão política ou intimidação”, disse Powell.
“Tenho profundo respeito pelo Estado de direito e pela prestação de contas em nossa democracia. Ninguém, certamente nem o presidente do Fed, está acima da lei, mas essa ação sem precedentes deve ser vista no contexto mais amplo das ameaças da administração e da pressão contínua do governo”, acrescentou.
Trump afirmou em entrevista ao canal americano NBC News, divulgada no domingo (11/01), que não tinha conhecimento da investigação do Departamento de Justiça sobre o Banco Central americano.
“Não sei nada sobre isso, mas ele certamente não é muito bom no Fed, e também não é bom em construir prédios”, disse o presidente, referindo-se a Powell.
A investigação, que ainda não foi confirmada oficialmente pelo governo americano, indicaria uma nova escalada na disputa de Trump com Powell, que foi indicado pelo próprio Trump para o cargo de presidente do Banco Central americano em 2017.

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Trump ameaçou repetidamente demitir Powell, a quem criticou por não ter reduzido os juros tão rapidamente quanto o presidente desejava. No segundo semestre de 2025, o Banco Central americano reduziu a taxa de juros três vezes.
Trump responsabilizou consistentemente seu antecessor, Joe Biden, e os juros pela inflação e pelos custos nos EUA.
Críticos alertam que a pressão de Trump para tirar o presidente do Banco Central americano poderia comprometer a autoridade da instituição de definir juros de forma independente em relação aos presidentes.
O senador Thom Tillis, da Carolina do Norte (EUA), republicano e membro do Comitê Bancário do Senado, afirmou que se oporia à indicação do substituto de Powell por Trump, assim como a qualquer outro nomeado para o Conselho do Fed, “até que essa questão legal seja totalmente resolvida”.
“Se ainda havia alguma dúvida sobre se os conselheiros do governo Trump estão ativamente tentando acabar com a independência do Fed, agora não deve haver nenhuma”, disse Tillis em um comunicado.
“Agora quem está sob questão é a independência e a credibilidade do Departamento de Justiça [dos EUA]”, acrescentou o senador.
A senadora democrata Elizabeth Warren, afirmou acreditar que o plano de Trump é afastar Powell do Conselho do Fed de forma definitiva e “instalar outro fantoche para concluir sua tomada de controle corrupta do banco central americano”.
“Este comitê e o Senado não deveriam avançar com qualquer indicado de Trump para o Fed, inclusive o presidente do Fed”, disse ela.
A investigação sobre Powell será conduzida pelo Escritório do Procurador dos EUA para o Distrito de Columbia, segundo reportagem do jornal americano The New York Times, que divulgou a apuração em primeira mão.
April Larusse, chefe de especialistas em investimentos da Insight Investment, disse ao programa Today, da BBC, que “não é verdade que o Fed não tenha feito nada sobre juros, então isso parece ser uma pressão que não é realmente justificada”.
Larusse acrescentou que Trump quer juros mais baixos porque “ele está definitivamente tentando garantir que todas as partes da economia se beneficiem”.
“Para pessoas na faixa mais baixa de renda, as coisas têm sido difíceis — a inflação estava muito alta, os salários não acompanhavam a inflação — e, portanto, há uma grande parte da população dos EUA que ainda sofre com a crise do custo de vida.”
A investigação criminal sobre Powell, junto com notícias sobre os distúrbios contínuos no Irã, provocou alta no preço dos metais preciosos.
O preço do ouro — frequentemente considerado um ativo mais seguro em períodos de incerteza — subiu 1,4%, a US$ 4.572,36 (cerca de R$ 24.640) por onça, na segunda-feira (12/01), após ter atingido um recorde de US$ 4.600,33 (aproximadamente R$ 24.800) por onça.
A prata também bateu recorde, a US$ 84,58 (em torno de R$ 456) por onça, antes de recuar para US$ 83,26 (cerca de R$ 449) por onça, alta de 5,4% no dia.

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Anteriormente, Trump mirou Lisa Cook, governadora do Banco Central americano, que ele tentou demitir por suposta fraude hipotecária.
O caso foi bloqueado por um tribunal federal dos EUA e será analisado pela Suprema Corte ainda neste mês.
As acusações criminais movidas pelo Departamento de Justiça de Trump contra adversários políticos, como a procuradora-geral de Nova York, Letitia James, que abriu um processo civil por fraude contra Trump em 2024, e o ex-chefe do Departamento Federal de Investigação (FBI, na sigla em inglês) James Comey, também foram rejeitadas por um tribunal.
Comey foi acusado de prestar declarações falsas e obstruir a justiça. Ele foi demitido por Trump durante seu primeiro mandato, após conduzir uma investigação sobre a interferência da Rússia na eleição presidencial dos EUA de 2016, vencida pelo republicano Trump sobre a candidata democrata Hillary Clinton.
Tanto Comey quanto James mantêm sua inocência e afirmam que as acusações tinham motivação política.
Fonte.:BBC NEWS BRASIL


