Enquanto as autoridades iranianas impõem um bloqueio quase total das comunicações em um país convulsionado por protestos em massa, vídeos e relatos de testemunhas que estão surgindo lentamente sugerem que o regime está realizando uma das repressões mais violentas às manifestações em mais de uma década.
Testemunhas oculares afirmam que as forças do regime começaram a abrir fogo, aparentemente com armas automáticas e, às vezes, de forma indiscriminada, contra manifestantes desarmados. Funcionários de hospitais afirmam que os manifestantes chegaram com ferimentos causados por balas de borracha, mas agora chegam com ferimentos a bala e fraturas no crânio. Um médico chamou o cenário de “situação de vítimas em massa”.
Apesar do bloqueio das comunicações, uma imagem recorrente saiu do Irã: fileiras e mais fileiras de sacos para cadáveres.
Em vídeos postados por ativistas da oposição nas redes sociais, é possível ver famílias chorando enquanto se amontoam em torno desses cadáveres ensanguentados em sacos abertos. E em imagens transmitidas pela televisão estatal iraniana, um funcionário do necrotério, vestido com uma bata azul, está em pé entre sacos cuidadosamente dispostos no chão de uma sala branca, sob luzes fluorescentes ofuscantes.
A emissora estatal disse que as imagens mostram o perigo que os protestos representam para a sociedade iraniana: “Há indivíduos nessas reuniões que querem levar pessoas comuns —pessoas que não têm nada a ver com esses eventos— e suas famílias para essa situação. Para que elas também sejam arrastadas para o caos”, diz o repórter na narração. “Nunca vi imagens como essas em toda a minha vida.”
Aqueles que ainda apoiam a teocracia do Irã e aqueles que estão nas ruas pedindo sua queda concordam: estes são dias de brutalidade como nunca se viu antes.
O número de mortos e feridos em todo o país não é claro. Grupos de direitos humanos estão lutando para entrar em contato com suas fontes dentro do Irã e seguir a metodologia que normalmente usam para verificar informações, mas dizem ter contado mais de 500 mortos.
Várias autoridades americanas afirmam que as agências de inteligência dos EUA estimaram conservadoramente que mais de 600 manifestantes foram mortos até agora. As agências observaram que tanto os protestos atuais quanto a repressão são muito mais violentos do que os de 2022 ou outros levantes recentes contra o regime.
Um alto funcionário do Ministério da Saúde iraniano, falando sob condição de anonimato, disse que cerca de 3.000 pessoas foram mortas em todo o país, mas tentou transferir a culpa para os “terroristas” que fomentam a agitação. O número inclui centenas de agentes de segurança, disse ele.
Outro funcionário, também falando sob condição de anonimato, disse ter visto um relatório interno que mencionava pelo menos 3.000 mortos e acrescentou que o número pode aumentar. Se confirmado, o número de mortos estaria entre os piores da história recente do Irã.
Lá Fora
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Testemunhas relataram ter visto atiradores posicionados nos telhados do centro de Teerã atirando contra a multidão; protestos pacíficos se transformando abruptamente em cenas de carnificina e pânico, com balas perfurando a cabeça e o torso das pessoas, derrubando corpos no chão; e uma sala de emergência atendendo 19 pacientes com ferimentos a bala em uma única hora.
“O regime está em uma onda de assassinatos”, disse uma manifestante, Yasi. Ela, como outros iranianos entrevistados pelo jornal The New York Times, pediu que seu nome completo não fosse divulgado por segurança.
Vídeos postados nas redes sociais na noite de segunda-feira (12) e verificados pelo jornal mostraram uma grande multidão de manifestantes em Teerã. O som de tiros podia ser ouvido, e o grito: “Morte ao ditador!”
Nos últimos cinco dias, as autoridades iranianas bloquearam a internet, as linhas telefônicas internacionais e, às vezes, até mesmo as conexões de telefonia móvel domésticas. Isso deixou grupos de direitos humanos, jornalistas e famílias lutando para entender a dimensão do que aconteceu.
Apesar disso, os vídeos que saem do país e as mensagens de alguns iranianos que ocasionalmente conseguem conexões de internet via satélite oferecem um quadro devastador de derramamento de sangue.
“Consegui me conectar por alguns minutos apenas para dizer que é um banho de sangue aqui”, disse Saeed, um empresário em Teerã, ao New York Times. Ele disse que estava usando uma conexão de internet Starlink no domingo à noite.
Quando os protestos contra a terrível situação econômica iraniana eclodiram no mercado de Teerã, em 28 de dezembro, Saeed foi às ruas para se juntar a eles. Ele fez o mesmo durante o movimento de protesto em 2022 e nos anteriores, disse ele.
Mas, à medida que o Irã mergulha em um isolamento cada vez mais profundo, fica cada vez mais claro, segundo ele, que essa repressão é “diferente de todos os protestos anteriores”.
“Eu vi pessoalmente um jovem levar um tiro na cabeça”, disse ele. “Eu testemunhei alguém levar um tiro no joelho. A pessoa caiu no chão inconsciente e, em seguida, as forças de segurança se reuniram ao redor dela.”
Há duas semanas, quando uma forte desvalorização da moeda levou os manifestantes às ruas, as autoridades reconheceram suas queixas como legítimas, embora tenham alertado os manifestantes para não se deixarem influenciar por “desordeiros”.
Mas, na semana passada, as pequenas manifestações nos mercados e universidades da cidade se transformaram em um movimento popular mais amplo, com multidões de manifestantes ocupando as principais praças das cidades e centros rurais. Agora, as autoridades iranianas começaram a dizer que eles foram dominados por “terroristas” e agentes estrangeiros leais aos seus inimigos, os Estados Unidos e Israel.
Em um sinal da magnitude da repressão, o regime tomou a medida incomum de reconhecer que houve um grande número de vítimas, mas procurou retratar os mortos como vítimas de manifestantes violentos e membros das forças de segurança.
“Tomem medidas firmes e eficazes para vingar os mártires e os mortos”, disse o procurador-geral do Irã, Gholam-Hossein Mohseni-Ejei, em uma reunião do Conselho Judicial Supremo na segunda-feira, de acordo com uma agência de notícias local.
Um morador de Teerã que foi a Sattarkhan com sua esposa no sábado à noite disse ter testemunhado as forças de segurança abrirem fogo com metralhadoras contra uma multidão de jovens homens e mulheres. Eles caíram no chão uns em cima dos outros, disse ele.
EUA x Venezuela
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No Hospital Nikan, no norte de Teerã, uma enfermeira disse que os profissionais de saúde ficaram sobrecarregados quando 19 vítimas de tiros chegaram quase ao mesmo tempo. No Hospital Shohada, no bairro de Tajrish, em Teerã, um médico disse que muitos manifestantes levados para lá foram declarados mortos ao chegar ao hospital e que muitos haviam sido baleados à queima-roupa na cabeça, pescoço, pulmões e coração.
O Centro de Direitos Humanos no Irã, com sede em Nova York, divulgou na segunda-feira o depoimento de um médico que tem tratado pacientes em Teerã e Isfahan desde o início da repressão. O grupo não divulgou seu nome por motivos de segurança.
No início dos protestos, disse o médico, os manifestantes estavam sendo tratados por exposição a gás lacrimogêneo e ferimentos causados por armas de pressão. Então, na quinta-feira, disse o médico, ele começou a ouvir tiros de metralhadora vindos do hospital.
“Era uma situação de vítimas em massa”, disse em seu relato. “Nossas instalações, espaço e pessoal estavam muito aquém do número de feridos que chegavam. Os casos de trauma que vi eram brutais, tiros para matar.”
O diretor executivo do Centro de Direitos Humanos no Irã, Hadi Ghaemi, disse que sua equipe reuniu relatos de Karaj, mais ao centro do país, e Kermanshah, no oeste, indicando que hospitais e clínicas foram ocupados por forças de segurança que procuravam manifestantes feridos e coletavam suas informações pessoais. Saeed descreveu uma experiência semelhante na capital.
“Eles levam os manifestantes feridos para o hospital e, se eles se recuperam, os prendem”, disse ele. “Se suas famílias chegam primeiro, eles tentam ajudá-los a escapar de alguma forma. As famílias que vêm receber os corpos dos mortos são forçadas a fazer confissões humilhantes: elas têm que dizer que os ‘terroristas’ os mataram.”
Fonte.:Folha de S.Paulo


