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14 de janeiro de 2026

Entre tombos e silêncios na neve de Paris – 14/01/2026 – Zeca Camargo

Entre tombos e silêncios na neve de Paris – 14/01/2026 – Zeca Camargo

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Eu não sei se deveria escrever sobre alguma coisa que me jogou no chão. No entanto, nem depois da terceira queda, a que me fez torcer levemente o tornozelo, eu não consigo olhar para a neve em Paris sem admirar o que vejo.

Para quem está lendo isso neste verão tórrido no Brasil, tais palavras podem soar como provocação. Mas eu tenho que registrar a nevasca que vi semana passada nesta minha recente temporada parisiense.

Eu nunca tinha acordado aqui, mesmo no inverno, com uma paisagem dessas. As ruas pintadas de branco. Algumas vezes, desembarcando no auge do inverno, eu via a neve cobrindo toda a região do aeroporto Charles de Gaulle. Mas, à medida que eu me aproximava do centro, a neve ia desparecendo. Na semana passada foi diferente. Ela caiu forte e ficou.

Antes das escorregadas, a beleza da neve já me pegou de surpresa. Eu conferia a exposição sobre arte minimalista na Bourse de Commerce (Coleção Pinault) e de repente vi todo mundo se virando para as janelas.

Por alguns minutos, as obras de arte passaram para segundo plano. Tiveram sua beleza sequestrada pela neve que caía. O parque Les Halles mudando de cor era uma visão incomum e estupenda demais para desperdiçar.

Corri também à janela e entrei no que imaginei ser uma sincronia com todos ali, uma espécie de “memória de neve”. Algo raro para nós brasileiros, exceto em invernos excepcionais no sul do país, mas que colegas viajantes certamente já experimentaram.

Minha primeira foi em Bariloche —onde mais? Na minha lembrança, era menos um cartão-postal que um desafio: eu imediatamente queria deslizar naquelas pistas geladas.

Fiz isso algumas vezes. Chamonix (França), Vale Nevado (Chile), Cortina (Itália). E a repetição me fez perceber que minha relação com a neve não era de adrenalina, mas de deslumbramento.

Tive certeza disso em Paro (Butão), quando olhei pela janela do quarto na minha primeira manhã lá. E depois em Vals (Suíça), menos pela paisagem e mais pelo contraste entre ela e o estupendo spa desenhado por Peter Zumthor.

Ainda no Chile, mais duas vivências marcantes: presenciar a mistura do gelo com os vapores dos gêiseres de Tatio, Atacama; as casinhas coloridas de Sewell, encrustadas numa montanha nevada.

Aí tem a experiência urbana. Quando morei em Nova York, décadas atrás, acordar com neve era sinônimo de encarar primeiro um encantamento, depois uma maldição. Não só ela dificultava a circulação pelas ruas, de carros e pessoas, como logo se tornava suja e feia.

Nem uma neve manchada de cinza seria capaz de enfeiar Paris, é claro. Só que eu não escapei da outra consequência pós-nevasca: as calçadas cobertas de gelo viram pistas de patinação. E foi assim que eu caí uma, duas, três vezes. No mesmo dia.

Felizmente essa não vai ser a memória que ficará desses dias nevados aqui em Paris. Mais forte, aliás, não é um registro visual, mas auditivo.

Com a cidade envolta num manto branco, um estranho silêncio se instalou nas ruas. Os ruídos de sempre estavam lá, mas era como se abafados, talvez pelo esplendor de tudo em volta.

E assim, como se tivesse algodões nos ouvidos, me levantei da terceira queda e segui pelo Jardim das Tulherias, tão branco quanto o céu que, se não me protegia, ao menos que acompanhava.


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Fonte.:Folha de S.Paulo

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