O que acontece com uma aliança diplomática de 80 anos quando sua principal potência ameaça uma invasão militar contra um de seus membros, trava uma guerra econômica contra os demais e promete fomentar resistência política e cultural contra seus governos?
A aliança está condenada?
Essa é a pergunta feita em capitais de toda a Europa, enquanto líderes correm para responder à campanha rapidamente escalonada do presidente Donald Trump para adquirir a Groenlândia, apesar da oposição das pessoas que vivem no território. A questão mais urgente é se resistir às ambições territoriais de Trump pode colocar em risco, de forma irreversível, a relação da Europa com os Estados Unidos.
Alguns líderes —como o presidente da França, Emmanuel Macron, e o ministro das Finanças da Alemanha, Lars Klingbeil— parecem dispostos a correr esse risco, instando países europeus a considerar o uso de uma “bazuca” econômica em resposta às últimas ameaças tarifárias de Trump.
Líderes de toda a Europa devem se reunir em Bruxelas na quinta-feira (22) para apresentar uma resposta unificada às provocações de Trump. Observadores veteranos da política europeia afirmam que a aliança entre a Europa e os Estados Unidos, formada no pós-Segunda Guerra Mundial, já foi fundamentalmente alterada.
Segundo eles, não se trata mais de uma aliança projetada principalmente para promover os interesses de democracias com valores semelhantes. Em vez disso, é uma relação definida exclusivamente nos termos de Trump —na qual ele usa a vantagem do poder americano para forçar os europeus a atenderem a seus caprichos.
“Usar o que é essencialmente uma guerra econômica contra aliados dessa forma é algo sem precedentes”, disse Ian Lesser, diretor do escritório em Bruxelas do German Marshall Fund, um centro de pesquisa.
Há um consenso em grande parte da Europa de que o continente precisa desenvolver novas capacidades econômicas e militares para reduzir sua dependência dos Estados Unidos. Mas isso levará anos, se não décadas. Enquanto isso, empresas e mercados financeiros europeus continuarão entrelaçados ao poder de consumo dos americanos, e a Ucrânia ainda precisará de armas dos Estados Unidos para se defender da Rússia.
De fato, meses de esforços diplomáticos para negociar um cessar-fogo na guerra da Ucrânia apenas reforçaram que a Otan, criada para defender a Europa, não consegue conter a agressão russa sem garantias de segurança dos Estados Unidos.
“Seria tolice, em um momento de guerra na Europa, abrir mão de todos os benefícios estratégicos e operacionais que vêm com a aliança”, afirmou Lesser. “Mas, se os Estados Unidos não forem mais um parceiro confiável nessa aliança, então a Europa precisa fazer outra coisa.”
Esse esforço já está em andamento, ainda que lentamente.
No mesmo dia em que Trump anunciou sua mais recente ameaça tarifária nas redes sociais, Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, e António Costa, presidente do Conselho Europeu, estavam no Paraguai para assinar um grande acordo comercial com o Mercosul —um acordo que levou 25 anos para ser concluído.
Até agora, Trump tem se mostrado satisfeito em receber recursos europeus para a compra de armas fabricadas nos Estados Unidos para a Ucrânia e outros países do Leste Europeu. E ele gosta de surpreender seus chamados aliados, como demonstrou no sábado, quando anunciou tarifas contra um grupo de países europeus, incluindo o Reino Unido, caso a Groenlândia não seja vendida aos Estados Unidos.
Isso eleva a tensão das decisões que a Europa precisa tomar nos próximos dias. O continente terá de escolher o quão agressivamente confrontar Trump sem saber o que o presidente, sempre imprevisível, fará em seguida.
Trump já deixou claro que vê os aliados europeus dos Estados Unidos com desprezo.
Em sua Estratégia de Segurança Nacional anual, divulgada no mês passado, autoridades de seu governo questionaram se alguns países europeus continuariam sendo “aliados confiáveis” no futuro.
O documento admitiu que a Europa era “estratégica e culturalmente vital” para os Estados Unidos. Mas disse que o Continente enfrentava a “perspectiva sombria de apagamento civilizacional” a menos que os Estados Unidos ajudassem “partidos europeus patrióticos” com ideias semelhantes —uma frase que foi amplamente entendida como referência à extrema direita— a conquistar o poder.
Para os europeus que recebem esse tipo de declaração, as ameaças do presidente de adquirir a Groenlândia “da maneira fácil” ou “da maneira difícil” corroeram ainda mais a confiança que foi central para a aliança com os Estados Unidos por décadas.
“Voltar ao nível de confiança que existia antes exigiria, acredito, uma mudança geracional”, disse Rosa Balfour, diretora do Carnegie Europe, um centro de estudos políticos. “O ataque à Europa não vem apenas de um indivíduo —ele foi transformado em uma ideologia.”
Desde as mais recentes ameaças envolvendo a Groenlândia, mais vozes passaram a defender uma postura mais firme.
Em um comunicado divulgado no fim de semana, Macron prometeu que “nenhuma intimidação ou ameaça nos influenciará —nem na Ucrânia, nem na Groenlândia, nem em qualquer outro lugar do mundo”.
Ele classificou as ameaças tarifárias de Trump como “inaceitáveis” e declarou: “Os europeus responderão de forma unida e coordenada, caso sejam confirmadas. Garantiremos que a soberania europeia seja respeitada”.
Outros, como o primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer, defenderam uma solução diplomática e alertaram contra discursos grandiosos. “Esse é um instinto compreensível, mas não é eficaz”, disse o premiê a jornalistas na manhã de segunda-feira. “Nunca foi. Pode fazer políticos se sentirem bem, mas não faz nada pelas pessoas trabalhadoras, cujos empregos, meios de subsistência e segurança dependem das relações que construímos ao redor do mundo.”
Ainda assim, Balfour afirmou que mais líderes estão começando a perceber que ceder às exigências de Trump nem sempre atende aos interesses da Europa. Na verdade, muitas vezes isso leva Trump a exigir ainda mais concessões.
Se for assim, isso pode ter implicações para a aliança com os Estados Unidos e para sua sobrevivência no futuro.
“A realidade, acho, está começando a se impor na mentalidade daqueles que defendiam cautela, diálogo e ‘vamos ouvir o que Trump tem a dizer’”, afirmou Balfour. “Dá para sentir esse tipo de mudança.”
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Fonte.:Folha de S.Paulo


