A decisão do Conselho Deliberativo do São Paulo Futebol Clube de enviar aos sócios o pedido de impeachment de Júlio Casares não é apenas um fato político interno. É o retrato de um modelo de gestão que perdeu o eixo —e de um clube que, ao longo dos últimos anos, viu a promessa de profissionalismo ceder espaço à instabilidade, às denúncias e à desconfiança.
Quando candidato, Casares apresentou um discurso moderno: austeridade financeira, reordenação da dívida, profissionalização das áreas estratégicas, gestão “do mercado” e aproximação com o torcedor. Prometeu método, previsibilidade e responsabilidade. O balanço do período, porém, sugere outra realidade: aumento expressivo da dívida, déficits recorrentes e soluções financeiras de curto prazo que não substituem a disciplina orçamentária nem uma governança sólida.
O agravamento da crise institucional —com denúncias a serem apuradas envolvendo a comercialização de camarotes em shows, investigações policiais e inquéritos ministeriais— ampliou o desgaste. É fundamental afirmar, com clareza jurídica, que investigação não é condenação. Mas também é inegável que a erosão da confiança ocorre antes de qualquer sentença. Clubes não quebram apenas por falta de dinheiro; quebram quando perdem credibilidade, controle interno e capacidade de decisão.
A crítica recorrente de que o São Paulo “parou no tempo” não se refere apenas ao futebol em campo. Ela aponta para um clube que, tendo sido referência administrativa, passou a operar sob lógicas defensivas, disputas internas e baixa capacidade de execução. A política deixou de viabilizar o projeto e passou a bloqueá-lo.
As reformas estatutárias propostas para ampliar poder, aumentar o mandato de Conselheiros e permitir a reeleição do próprio presidente eleito —que, em campanha, defendeu a não reeleição— só serviram para distanciar o clube da realidade e da democracia. É urgente uma nova reforma do Estatuto, com atualização para os novos tempos, maior democracia e reestruturação dos poderes, como o Conselho Consultivo, Fiscal e de Ética, que, em vez de servirem à Instituição, servem aos interesses do poder eleito.
O próximo passo precisa ser menos retórico e mais técnico. O clube necessita de um plano financeiro e orçamentário rigoroso, com redução real de gastos, análise transparente da dívida, escolha criteriosa de parceiros comerciais e valorização de colaboradores comprometidos com o interesse institucional. Quem ama cuida; quem não ama, explora. Quem ama tem paciência na reconstrução, baseada na confiança do torcedor comum, do mercado e da mídia. Os valores ensinados por nossos fundadores e antecessores, que até há algum tempo nos mostravam os caminhos, não podem ser esquecidos.
O São Paulo tem uma vantagem rara: entre seus apaixonados torcedores estão profissionais altamente qualificados em finanças, gestão, marketing, tecnologia e governança. Para aproveitar esse capital humano, o clube precisa ser mais democrático —abrir seu quadro de eleitores ao sócio-torcedor, acolher o jovem, o novo e o moderno, aproximar grandes são-paulinos do mundo corporativo real e do torcedor comum espalhado pelo Brasil.
A reconstrução é possível. Mas ela depende de coragem: tanto para renunciar a benefícios pessoais e abandonar zonas de conforto quanto para reduzir feudos e conduzir o clube de forma profissional, transparente e respeitosa. Política, sozinha, não salva. Esterilização não garante retomada. O que recupera o São Paulo é a capacidade de executar bons planos — com técnica, ética e compromisso com sua maior razão de existir: o futebol.
Fonte.:Folha de S.Paulo


