9:51 AM
23 de janeiro de 2026

Como transformei minha condição em uma jornada pela inclusão

Como transformei minha condição em uma jornada pela inclusão

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Nascido na periferia, em uma família simples e amorosa, sempre carreguei dentro de mim um sonho gigante: tornar-me artista. Quando comecei no teatro, aos onze anos, eu ainda não sabia para onde minha jornada me levaria, mas tinha certeza de que precisava dar voz aos sentimentos – com o corpo, com o olhar e, sobretudo, com a arte.

Na minha primeira experiência profissional, como atendente de telemarketing para custear os estudos nas artes cênicas, veio um susto que mudaria tudo. Ao realizar o exame de saúde ocupacional periódico da empresa, não fui aprovado.

Encaminhado a um otorrinolaringologista, descobri uma perda severa de audição no ouvido direito. A partir dali um novo mundo se revelou. Comecei a enxergar pessoas até então distantes da minha realidade: a comunidade surda.

Segui estudando arte e, por acaso do destino, assisti a um espetáculo dos meus professores, integrantes da Companhia Muda de Teatro. Foi aí que um pensamento me inquietou: por que não existir uma Companhia Surda de Teatro?

Impulsionado pelo diagnóstico, comecei a estudar a linguagem de sinais e a ensiná-la aos colegas de curso. Sonhávamos em unir teatro, inclusão e acessibilidade, levando mais voz — através das mãos.

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Era 2006 e o reconhecimento da Língua Brasileira de Sinais (Libras) como linguagem ainda germinava. Haviam se passado quatro anos desde a regularização do sistema por meio da Lei nº 10.436/2002, mas ela ainda estava distante do cotidiano da maioria das pessoas.

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Nesse percurso, encantei-me com sua força poética: uma língua visual e artística, que dialogava profundamente com os meus ideais. O projeto transformou-se em missão de vida.

Após minha primeira graduação, ingressei no Terceiro Setor como educador social, atuando com crianças e adolescentes surdos e ouvintes. A arte nunca me deixou, mas foi na educação onde encontrei um caminho para ensinar empatia, justiça social e o direito de existir com dignidade.

Em 2024, após o meu terceiro livro publicado, lancei mais duas obras com a Libras como tema central pela Editora Ciranda na Escola: Quando as mãos podem falar (compre aqui) e Família da Libras (compre aqui). São livros que fizeram barulho de forma silenciosa e gentil.

Trilhando caminhos para a inclusão

Segundo o Censo de 2022, cerca de 10 milhões de brasileiros têm algum grau de deficiência auditiva, o que mostra a urgência da representação em todas as esferas, inclusive na literatura.

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A ausência de sinais físicos óbvios frequentemente leva ao julgamento e à incompreensão.

Muitas vezes, ao pedir uma adaptação ou não reagir a um estímulo sonoro, o surdo é rotulado como “desatento” ou “rude”, evidenciando um desconhecimento generalizado sobre a diversidade da audição, que abrange desde usuários de Libras até usuários de tecnologias como o Implante Coclear.

Essa invisibilidade resulta em uma exclusão silenciosa nos espaços públicos, hospitais e empresas, onde a falta de sinalização visual e de preparo das equipes ignora o direito básico à comunicação e à autonomia.

Para reverter esse cenário, pequenas mudanças de atitude no cotidiano são necessárias.

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Aprender a comunicação básica em Libras, estabelecer contato visual antes de falar, não gritar (o que distorce a leitura labial) e certificar-se da iluminação correta do ambiente, transformam a dinâmica de interação.

Além disso, promover a cultura da legenda em vídeos e respeitar o tempo de processamento da informação são passos cruciais para o surdo deixar de ser um espectador passivo e passar a ocupar espaços de liderança. 

Quando a sociedade substitui o capacitismo pela escuta atenta, seja ela visual ou auditiva, o foco deixa de ser a deficiência e passa a ser a competência do indivíduo.

Como passarinho que sou, sigo sonhando com a Libras presente em todas as escolas. Hoje, levo comigo poucos recursos materiais, mas acredito que minhas asas carregam o essencial: poesia, leveza e amor para tornar o Brasil um pouco mais inclusivo.

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*Filipe Macedo, “o Passarinho”, é professor e autor de Quando as mãos podem falar e Família da Libras

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Fonte.:Saúde Abril

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