
O Partido dos Trabalhadores (PT) começou a consolidar nas últimas semanas a estratégia de transformar o enfrentamento às grandes empresas de tecnologia em eixo central de sua narrativa para a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2026.
Em três eventos recentes, Lula discursou contra o que chamou de “podridão” das redes sociais. As falas, que viralizaram rapidamente nas redes por seu tom pitoresco e vulgar, não são casuais: fazem parte de uma estratégia mais ampla, explicitada na própria resolução partidária aprovada em dezembro de 2025, com foco direto nas eleições de 2026.
Na terça-feira (20), por exemplo, Lula afirmou em tom debochado que não tem relação cotidiana com celulares. “Eu não tenho celular, eu só uso celular para as minhas coisas de serviço, que eu peço para os meus companheiros. Eu não carrego celular. Em vez de ficar carregando celular na mão, eu prefiro coçar outras coisas”, disse o presidente.
Poucos dias antes, Lula fez duas declarações que viralizaram. Ao comentar o avanço da inteligência artificial, afirmou: “Se preparem, porque a podridão não está nem começando na inteligência artificial. E todos nós gostamos de coisas fáceis”. Em outro evento, ao falar sobre hábitos da cultural digital, disse: “Nós estamos vivendo um mundo da mentira, nós estamos vivendo uma situação muito delicada. Vocês vivem no celular. Levanta de manhã, nem beija o marido e já pega o celular, vai deitar, ao invés de dar um beijinho, vai pegar o celular, vai ver notícia, meia-noite: ‘morreu um ganso’, ‘morreu um pato’, ‘morreu um cachorro’, sabe? Ao invés de ficar olhando para a cara da mulher e conversando com ela e fazendo carinho, fica no celular”.
A linha discursiva associando as tecnologias a risco político e social é calculada. O enquadramento tem sido reiterado por outros membros do governo e do partido, especialmente pelo secretário nacional de Comunicação do PT, Éden Valadares, que vem usando com frequência o conceito de “colonialismo digital” para caracterizar a atuação das grandes plataformas globais no Brasil.
O próprio Lula já havia empregado a mesma expressão. Em novembro de 2025, durante reunião do G20, o presidente afirmou que a inteligência artificial aprofunda desigualdades globais. “Quando poucos controlam algoritmos, dados e infraestruturas, a inovação passa a gerar exclusão. É fundamental evitar uma nova forma de colonialismo: o digital”.
Antes disso, em março de 2025, Lula já havia usado o termo ao discursar na cerimônia de posse do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil. Na ocasião, afirmou que as redes sociais concentram um “poder absolutista” nas mãos das “oligarquias digitais”. Segundo o presidente, seria necessário um “arcabouço jurídico robusto” para enfrentar o que classificou como risco de colonialismo digital.
A retórica contra Big Techs foi acompanhada, nas últimas semanas, por iniciativas práticas no campo judicial por parlamentares petistas, como o pedido de banimento do Grok e um processo contra Nikolas Ferreira.
Resolução publicada em dezembro revela plano do PT contra Big Techs para 2026
A motivação dessas declarações e ações aparece de forma sistematizada na resolução política aprovada pelo PT em dezembro de 2025, com vistas às eleições de 2026. O documento trata a atuação das grandes plataformas digitais como um dos principais fatores de risco ao processo eleitoral e à soberania nacional.
Em um dos trechos, o partido afirma: “Não haverá eleição sem interferência externa, como já ocorreu com o tarifaço e com a pressão norte-americana pela não regulação das Big Techs, incluindo ameaças inaceitáveis contra ministros da Suprema Corte e membros do governo. A disputa geopolítica condiciona a disputa interna, e o PT deve estar preparado para enfrentar tentativas de desestabilização e manipulação digital de larga escala”.
A resolução insere o debate sobre comunicação digital no centro da estratégia política do partido. “Na disputa política e cultural, a comunicação e a soberania digital assumem papel estratégico. A regulação das Big Techs, o empoderamento das redes progressistas, o fortalecimento da comunicação pública e a construção de uma presença massiva e coordenada nas plataformas digitais são condições decisivas para disputar corações e mentes, bloquear a desinformação e proteger o processo eleitoral”, afirma outro trecho.
O documento sustenta ainda que o Brasil estaria ameaçado pelo novo arranjo tecnológico. “O Partido dos Trabalhadores afirma que a soberania nacional no século XXI depende, de forma decisiva, da soberania digital. O processo de transformação estrutural do capitalismo contemporâneo, marcado pela centralidade das plataformas e pela concentração inédita de dados, infraestrutura computacional e poder algorítmico, inaugurou uma nova morfologia do poder global, na qual empresas privadas controlam fluxos de informação, moldam comportamentos e influenciam diretamente a disputa política”.
Em seguida, o texto associa explicitamente esse cenário ao fortalecimento da direita. “A defesa da democracia exige enfrentar esse novo regime, no qual algoritmos opacos definem o alcance e a existência pública das narrativas, favorecendo a extrema-direita por meio de dinâmicas que privilegiam conteúdos explosivos e desinformação”, diz a resolução. O documento defende “um regime robusto de transparência e responsabilização algorítmica, com auditorias independentes, interoperabilidade entre serviços, moderação responsável e combate a práticas predatórias que sequestram o espaço público digital”.
Além da regulação, o PT propõe a construção de estruturas tecnológicas próprias do Brasil. “Ao mesmo tempo, a soberania digital requer a construção de capacidades tecnológicas próprias, com uma política nacional que articule uma rede pública de dados, padrões tecnológicos abertos, centros de computação de alta performance, incentivos à pesquisa em inteligência artificial aberta e fortalecimento de empresas, universidades e startups brasileiras”. O texto afirma ainda que o Brasil “não pode permanecer subordinado ao oligopólio global das Big Techs”.
A linha adotada na resolução é reforçada por declarações públicas de dirigentes partidários. Em dezembro de 2025, Éden Valadares afirmou que “as Big Techs não são isentas” e que operam sob uma lógica que permite “que guerras virtuais derrubem democracias, manipulando a vontade popular por meio de algoritmos que ignoram a soberania nacional”. Segundo ele, “é preciso controlar, regular e regulamentar para garantir que a nossa soberania não seja atropelada enquanto consolidamos nossa autonomia tecnológica”.
Judicialização também faz parte da estratégia contra Big Techs e a direita
Paralelamente ao discurso político e ao programa para o futuro, o PT tem recorrido com frequência ao Judiciário em episódios envolvendo plataformas digitais e adversários políticos. Em 15 de dezembro de 2025, o partido informou que acionaria o Supremo Tribunal Federal e o Tribunal Superior Eleitoral após o desaparecimento de perfis de esquerda no Instagram e no Facebook durante a votação do chamado PL da Dosimetria, em 10 de dezembro.
Segundo o partido, páginas de lideranças petistas e do PSOL não apareciam nas buscas das plataformas no mesmo dia em que a Câmara aprovou o projeto que reduz penas de condenados pela suposta tentativa de golpe de Estado. A legenda alegou que o episódio teria impacto direto no debate político e eleitoral, o que justificaria uma intervenção do STF e do TSE. A Meta alegou problemas técnicos e reativou os perfis.
No dia 16 de janeiro, o partido protocolou representações na Procuradoria da República no Distrito Federal e na Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) pedindo providências contra o assistente de inteligência artificial Grok. O partido solicitou a abertura de investigação e a adoção de medidas que poderiam chegar ao “bloqueio ou até banimento do serviço em território nacional”.
As petições alegam que o Grok teria passado a gerar imagens falsas de teor sexual envolvendo pessoas reais, inclusive crianças e adolescentes. Segundo o PT, a legislação brasileira já permitiria “a suspensão, bloqueio ou banimento do serviço em território nacional”, sem necessidade de aguardar a aprovação de novas leis.
Outro caso recente envolve a atuação de aliados do governo contra Nikolas Ferreira. O deputado federal Rogério Correia, vice-líder do governo Lula na Câmara, acionou a Advocacia-Geral da União (AGU) contra seu opositor por um vídeo publicado nas redes sociais. No post, Nikolas diz que uma instrução normativa relacionada ao Pix poderia facilitar o monitoramento de transações pelo governo e prejudicar a privacidade dos cidadãos.
No pedido, Correia solicitou a “instauração de um inquérito para apurar crime de desinformação e fake news”. Segundo a representação, teria havido “difusão pública e massiva de informações materialmente falsas e juridicamente distorcidas acerca de atos normativos da Administração Tributária Federal”.
Fonte. Gazeta do Povo


