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26 de janeiro de 2026

Idoso depressivo, preso do 8/1, é condenado sem ser interrogado

Idoso depressivo, preso do 8/1, é condenado sem ser interrogado

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Todos os dias, Jair Gonçalves da Silva, 66 anos, desperta antes do sol. Os seus dias começam sempre cedo na cidade tranquila de Umuarama, interior do Paraná. Ele se levanta, escolhe uma roupa e tem pressa: a missa não espera. E, para Jair, ela é mais que um compromisso, é o fio que ainda o sustenta.

O trajeto de cinco minutos até a igreja, sempre feito a pé, costuma ser dividido com a esposa, companheira de quase quatro décadas. É nesse pequeno ritual ritual diário que ele encontra a força necessária para enfrentar a rotina marcada por uma severa depressão, que o acompanha há anos.

À tardinha, Jair mantém outro ritual em busca de refúgio. No sofá, com o terço entre os dedos, repete as orações que conhece desde pequeno. Ele também não o reza sozinho. Os dois netos, um de 6 anos e outra de apenas 7 meses, chegam enquanto os pais vão trabalhar e ficam ao redor dos avós durante a oração. “De vez em quando, meu neto mais velho, cheio de perguntas, aponta para a tornozeleira eletrônica e quer saber o que é aquilo. O vovô responde: o wi-fi do vovô”, conta Solange Aparecida da Silva, dona de casa e esposa de Jair.

Há mais de dois anos Jair vive com o equipamento preso à perna. Foi durante uma peregrinação com colegas do Terço dos Homens, grupo que frequenta há pelo menos dez anos, que o aposentado recebeu o convite para ir a Brasília apoiar, de forma pacífica, as manifestações do 8 de janeiro. Movido pelo desejo de defender seus ideais — simples, mas sinceros — e pela curiosidade de conhecer a capital do país, Jair embarcou em um ônibus rumo ao centro do país.

Defesa aponta fragilidades na tese de acusação do 8/1

Nos autos do processo, aparecem imagens retiradas de um vídeo em que Jair surge com a bandeira do Brasil enrolada na cabeça e, nas mãos, um livro com o brasão da República e as inscrições “Supremo Tribunal Federal – Diretor Geral”. “Meus irmãos, estou na guerra defendendo vosso direito também! Povo de Umuarama! Eu estou aqui representando vocês! Povo de Umuarama! Aqui o que eu peguei de troféu aqui, gente! É Bolsonaro ou num é?”, diz Jair no vídeo.

Para o advogado de defesa João Rezende, há divergências relevantes na acusação, especialmente sobre o livro exibido no vídeo. O objeto foi descrito no processo como uma réplica da Constituição Federal. No entanto, o então ministro da Justiça, Flávio Dino, chegou a afirmar nas redes sociais que o livro teria sido encontrado dias depois dos atos, em Minas Gerais. Para Rezende, a inconsistência já evidencia fragilidades na acusação.

Segundo o advogado, o episódio somente configuraria crime se houvesse comprovação de dano. “Pegar um bem de grande valor, ainda que tombado, e devolvê-lo no mesmo estado não configura crime. A única prova que existe é o vídeo dele mostrando o objeto. Não há prova de deterioração, e nem sabemos, de fato, que livro é esse, se é realmente uma réplica importante”, afirma Rezende.

Ainda assim, Jair foi condenado a 14 anos de prisão pelos crimes de abolição violenta ao Estado Democrático de Direito, tentativa de golpe de estado, deterioração de patrimônio tombado e associação criminosa armada.

Depressão se agravou e Jair não conseguiu comparecer a interrogatório

A depressão, que acompanha Jair desde 2016, agravou-se brutalemente durante os 98 dias em que permaneceu preso. Ele passou a maior parte desse período na Penitenciária Estadual de Guaíra, até que um relatório médico apontou a necessidade de transferência para o Complexo Médico Penal em Pinhais, na região metropolitana de Curitiba.

Dias depois, o ministro Alexandre de Moraes, relator da ação no Supremo Tribunal Federal (STF), concedeu a ele prisão domiciliar. A decisão veio três dias após a morte de Cleriston Pereira da Cunha, o Clezão, também preso pelos atos do 8 de janeiro e vítima de um mal súbito na Papuda, em Brasília. Quando voltou para casa, Jair havia perdido nove quilos e estava emocionalmente devastado.

As condições psicológicas e psiquiátricas de Jair o impediram de ser interrogado durante o processo. Na preparação para audiência, a defesa constatou que o aposentado não tinha condições básicas de organizar pensamentos, devido à ansiedade extrema e ao peso de um momento decisivo. Sobretudo ao ver centenas de pessoas que participaram dos atos recebendo penas consideradas elevadas e desproporcionais.

Foi baseado na complexidade do quadro clínico que o ministro Alexandre de Moraes determinou a prisão domiciliar de Jair. Mas, meses depois e mesmo com um laudo médico indicando 60 dias de inaptidão para interrogatório, o depoimento foi adiado por apenas 10 dias.

A sentença de 14 anos, então, foi proferida sem que Jair fosse ouvido – a etapa mais importante para que qualquer réu se manifeste diretamente no processo.

“O ministro Alexandre de Moraes entendeu que não precisaria ouvir esse réu, que não precisaria que ele estivesse em boas condições psicológicas e mentais diante do seu quadro de saúde gravíssimo, para poder julgar o caso de forma devida. Tivemos, mais uma vez, um julgamento a toque de caixa, com base em modelos padrões, sem analisar o caso específico”, critica Rezende.



Fonte. Gazeta do Povo

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