11:07 PM
27 de janeiro de 2026

Vírus Nipah, da Índia, pode chegar ao Brasil? Especialistas e Ministério da Saúde respondem

Vírus Nipah, da Índia, pode chegar ao Brasil? Especialistas e Ministério da Saúde respondem

PUBLICIDADE



Ler Resumo

Depois de quase vinte anos fora do radar, o vírus Nipah (NiV), um dos mais letais do mundo, voltou a preocupar autoridades sanitárias na região de Bengala Ocidental, na Índia.

Nas últimas semanas, dois profissionais de saúde testaram positivo para a infecção em Calcutá, capital do estado. Com a ocorrência, foram emitidos alertas que têm chamado a atenção em todo o globo.

A preocupação existe porque, embora a doença tenha surtos registrados na Índia desde 2001, a região de Bengala Ocidental não computava novos casos desde 2007.

Conforme relatório divulgado pela Agência de Segurança Sanitária do Reino Unido, na última década, praticamente todas as notificações no país haviam ocorrido no estado de Kerala, no sul do país, onde houve episódios quase que anuais entre 2018 e 2025.

Assim, o ressurgimento de casos fora do eixo tradicional dos últimos anos levanta algumas preocupações, já que o Nipah faz parte da lista de doenças prioritárias da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Junto com a volta dos casos, também aparecem novos questionamentos, como: o vírus está mudando o seu padrão de ocorrência? E quais as chances de se espalhar pelo mundo?

VEJA SAÚDE conversou com especialistas e com o Ministério da Saúde para responder a essas questões. Confira:

O que é o Nipah e como é transmitido

O vírus Nipah é um microrganismo transmitido de animais para humanos. O principal hospedeiro desse vírus são morcegos do gênero Pteropus, conhecidos como morcegos-da-fruta. Mas o patógeno também pode infectar outros animais, como os porcos.

Continua após a publicidade

Em pessoas, a infecção pode causar desde quadros sem sintomas a doenças respiratórias graves e encefalite fatal (um tipo de inflamação no cérebro). Por causa da alta letalidade — entre 45% e 75% —, o Nipah está na lista de vírus mais preocupantes da OMS desde 2018.

“O vírus Nipah tem alto potencial epidêmico, porque combina diferentes formas de transmissão, como a partir de reservatórios animais (especialmente morcegos e suínos), contaminação de alimentos e transmissão direta entre pessoas, inclusive em serviços de saúde”, avalia a ex-presidente da Sociedade Brasileira de Virologia Helena Lago.

Segundo a virologista, isso dificulta o controle e aumenta o risco de surtos, especialmente em contextos de estreita interação entre vida silvestre, produção animal e populações humanas.

Outra preocupação é o fato de que a doença não tem vacina nem cura. “Atualmente, o tratamento é de suporte para os pacientes que adquiriram os vírus”, explica a infectologista Kamilla Moraes, da UPA Vila Santa Catarina, unidade gerenciada pelo Einstein Hospital Israelita.

O vírus pode chegar ao Brasil?

Para começo de conversa, as chances são baixas, mas não nulas. Em segundo lugar, vale considerar que uma série de fatores pode explicar o que está acontecendo na Índia e por que o cenário é bem diferente do nosso.

Continua após a publicidade

“O fato de o vírus estar se espalhando na Índia indica que deve ter ocorrido algum evento na natureza que proporcionou o aparecimento da doença”, explica o virologista Benedito Fonseca, consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI).

Portanto, embora a mudança ligue o sinal de alerta, não há motivo para pânico, especialmente por aqui, já que pode se tratar de uma situação pontual.

Além disso, Fonseca explica que a principal razão para a maior tranquilidade é fato de que os morcegos-da-fruta, principal transmissor do vírus, são uma espécie que não existe nas Américas.

Nesse contexto, Helena explica que a via de entrada da doença no Brasil mais provável seria por meio de pessoas infectadas durante viagens internacionais. “Já que o vírus pode ser transmitido entre pessoas, inclusive em ambientes de saúde, reiterando a necessidade da vigilância contínua para o diagnóstico precoce com contenção rápida do foco”, destaca.

Por isso, ela alerta: “existe a possibilidade, embora o risco atual seja considerado baixo“.

Continua após a publicidade

Ainda assim, ela tranquiliza, já que as quase 200 pessoas que tiveram contato com infetados em Calcutá foram testadas e tiveram resultados negativos para a doença. “Isso sugere que, ao menos por enquanto, não há evidências de disseminação ampla“, avalia.

Além disso, atualmente, não há relatos de circulação do vírus ou mesmo de pessoas infectadas no território nacional.

Também há ressalvas quanto a própria ideia de que o vírus Nipah esteja, necessariamente, “se espalhando“. Para Fernando Dias e Sanches, pesquisador da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e estudioso sobre o Nipah, as evidências não sugerem isso. “[Ao menos] não no sentido de expansão geográfica contínua do vírus através de transmissão sustentada”, diz.

Em outras palavras, isso quer dizer que, até o momento, segundo o pesquisador, o microrganismo não parece estar avançando por meio de uma cadeia constante de transmissão entre pessoas ou animais, como acontece com vírus altamente contagiosos. Em vez disso, estaria sofrendo a ação de condições específicas.

Para o especialista, o sumiço da doença na região de Bengala por 19 anos pode ser, na verdade, o reflexo de três fatores: vigilância limitada; casos esporádicos não diagnosticados e ausência temporária de condições facilitadoras de spillover (termo em inglês usado quando um microrganismo consegue se adaptar e ir de um hospedeiro para outro).

Continua após a publicidade

O que diz o Ministério da Saúde

Em nota encaminhada para VEJA SAÚDE, o Ministério da Saúde explicou que o risco de haver uma pandemia, por exemplo, com o vírus Nipah (NiV) é considerado baixo, mesmo que ele esteja classificado pela OMS como de alta patogenicidade.

A pasta reforça que o vírus circula em países do sudeste asiático e afirma que as nações “possuem protocolos de emergência para rápida detecção e controle de surtos, com acompanhamento de especialistas coordenado pela OMS”.

Sobre medidas no país, a pasta acrescentou, em nota, que: “O Ministério da Saúde do Brasil mantém protocolos de vigilância e resposta de emergência para agentes altamente patogênicos, em parceria com instituições como o Instituto Evandro Chagas e a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), com participação da OPAS”.

Mas o que poderia desencadear um surto?

Os especialistas destacam que o risco de espalhamento da doença deve ser analisado a partir de múltiplas vias potenciais.

Em linhas gerais, três caminhos são avaliados: a importação de casos humanos, a existência de reservatórios animais capazes de sustentar o vírus e as rotas de comércio animal. Os pesquisadores destacam cada um dos cenários:

Continua após a publicidade

Importação de casos humanos por viagens internacionais
Risco atual: baixo, porém crescente

A forma mais plausível de o Nipah cruzar fronteiras seria por meio de pessoas infectadas durante viagens. Esse risco é considerado crescente, já que as conexões aéreas entre o Brasil e países do sul e sudeste asiático — regiões onde o vírus é endêmico — vêm se ampliando nos últimos anos.

Ainda assim, até janeiro de 2026, não há registro de casos de Nipah exportados para fora dessas áreas. Todos os surtos documentados permaneceram geograficamente contidos.

Presença de reservatórios animais competentes no Brasil
Risco atual: incerto

Este é o cenário mais complexo e menos explorado do ponto de vista científico. Embora os principais reservatórios conhecidos do vírus Nipah sejam morcegos do gênero Pteropus — inexistentes nas Américas — o Brasil abriga a maior diversidade de morcegos do mundo, com mais de 180 espécies documentadas. Isso pode colocar alguma pulga atrás das orelhas dos cientistas.

O vírus está extremamente vinculado ao seu hospedeiro natural e, segundo a OMS, por isso mesmo, há indícios de que o patógeno pode circular em regiões ainda pouco estudadas, ampliando o mapa global de risco para eventuais infecções humanas.

Segundo a organização, já foram encontrados sinais de infecção em morcegos-da-fruta em países como Austrália, Bangladesh, Camboja, China, Índia, Indonésia, Madagascar, Malásia, Papua-Nova Guiné, Tailândia e Timor-Leste.

Mas o alerta não se restringe à Ásia e à Oceania. Na África, estudos identificaram anticorpos contra os vírus Nipah e Hendra (que pertence ao mesmo grupo, o dos henipavírus) em morcegos frugívoros do gênero Eidolon, que são diferentes, mas da mesma família dos Pteropus.

A boa notícia é que, até o momento, não há evidências de que morcegos americanos sejam capazes de manter ou transmitir o Nipah, mas essa hipótese ainda não foi investigada de forma aprofundada. Por isso, Dias e Sanches aponta essa lacuna como um ponto que exige “investigação urgente” da vigilância sanitária.

Introdução por meio do comércio animal
Risco atual: muito baixo

Além dos morcegos, o vírus Nipah também pode ser transmitido por outros animais, como os suínos. No entanto, dados do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) indicam que o Brasil não importa porcos vivos, morcegos ou outros mamíferos da Ásia, que poderiam atuar como hospedeiros intermediários do vírus.

Com isso, o risco cai bastante. “Além disso, regulações sanitárias rigorosas tornam esta via extremamente improvável”, diz Dias e Sanches.

Uma pandemia pode acontecer?

“Não acredito que, em um futuro próximo, esse vírus possa causar uma pandemia“, afirma Fonseca.

Nas condições atuais, o Nipah não apresenta características que o tornem capaz disso. A transmissão entre humanos é limitada, os surtos são esporádicos e tendem a se extinguir com medidas básicas de controle.

Mas o risco poderia mudar caso o vírus adquirisse mutações que aumentassem sua transmissibilidade entre humanos, mantendo — ou não — sua alta virulência. Porém, não há indícios de que isso esteja acontecendo no momento.

Um outro cenário envolve a adaptação do Nipah a uma espécie animal amplamente distribuída e com contato frequente com humanos, como animais domésticos ou de produção. Se isso ocorresse, o vírus poderia estabelecer um novo hospedeiro, aumentando as oportunidades de exposição humana repetida e, consequentemente, de evolução viral.

Mas, por sorte, tudo isso segue apenas na teoria. Ainda assim, “a possibilidade teórica exige monitoramento constante”, diz Dias e Sanches. Por isso, o importante é ter atenção, mas sem desespero.

Em resumo, segundo Helena: “do ponto de vista da saúde pública, a preocupação neste momento deve ser moderada e vigilante. Não é uma ameaça imediata, mas é um vírus que exige preparo contínuo, justamente para evitar respostas tardias caso um evento raro venha a ocorrer”.

Compartilhe essa matéria via:



Fonte.:Saúde Abril

Leia mais

Rolar para cima