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3 de fevereiro de 2026

Séries de TV reanimação cardiopulmonar de forma errada – 01/02/2026 – Equilíbrio e Saúde

Séries de TV reanimação cardiopulmonar de forma errada – 01/02/2026 – Equilíbrio e Saúde

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Você já viu como uma parada cardíaca é retratada na televisão —o paciente imóvel e pálido, o socorrista alerta batendo no peito, gritando: “Fique comigo! Fique comigo!”

Embora as representações de pessoas comuns administrando a reanimação cardiopulmonar façam uma televisão fascinante, elas frequentemente não fornecem um exemplo preciso do que fazer quando a vida de alguém está em risco, de acordo com um artigo recente na revista Circulation: Population Health and Outcomes.

O artigo examinou 169 episódios de programas de televisão americanos, incluindo “Homeland”, “Yellowstone” e “NCIS: Hawaii”, focando em incidentes que ocorreram fora do hospital e envolveram pessoas comuns não-médicas tentando salvar alguém.

Os pesquisadores descobriram que menos de 30% dos episódios mostrando esses cenários retrataram os passos corretos para a reanimação cardiopulmonar apenas com as mãos —compressões torácicas, sem respiração boca a boca. O método apenas com as mãos foi endossado pela American Heart Association em 2008 como mais simples e rápido que a reanimação tradicional.

Quase metade dos episódios examinados, 48%, ilustraram práticas agora consideradas ultrapassadas, incluindo respiração boca a boca e verificação de pulso do paciente. A associação mudou suas recomendações porque pessoas leigas frequentemente têm dificuldade para encontrar o pulso sob pressão, e nos primeiros minutos de uma parada cardíaca, o paciente tem oxigênio suficiente —a prioridade é bombear o sangue.

“Então, uma coisa que vimos muito foram compressões que não são profundas o suficiente na TV”, diz Ore Fawole, uma autora do artigo e coordenadora de pesquisa em um laboratório da Escola de Saúde Pública da Universidade de Pittsburgh. “Nós realmente queremos combater esse medo que as pessoas têm, e é um medo razoável, mas a menos que você seja um fisiculturista olímpico, provavelmente não há como fazer a reanimação cardiopulmonar com força demais.”

Existe um risco de que as compressões torácicas possam resultar em costelas quebradas, uma preocupação para atores em um programa de televisão, mas não para alguém que parou de respirar devido a uma parada cardíaca.

“Uma das coisas que falamos em nosso treinamento é que médicos podem consertar costelas quebradas”, diz Beth Hoffman, uma das autoras do artigo e professora de ciências comportamentais e de saúde comunitária na Escola de Saúde Pública de Pittsburgh. “Eles podem consertar outras coisas que podem acontecer durante a reanimação cardiopulmonar, mas não podem consertar um cérebro morto.”

O estudo surgiu em um momento em que Hollywood parece estar buscando maior precisão em suas representações de medicina. “A maioria dos programas médicos com os quais trabalhamos tem pelo menos um médico em sua equipe de roteiristas, e às vezes dois ou três”, afirma Kate Folb, que dirige o programa Hollywood, Health and Society no Norman Lear Center da Escola Annenberg da Universidade do Sul da Califórnia. O centro, agora em seu 25º ano, trabalha com a indústria do entretenimento para desenvolver enredos precisos envolvendo saúde e medicina.

“Sabemos por nossa pesquisa e nosso trabalho com programas que o público realmente aprende, e aprende com o que vê na TV”, disse Folb.

Surpreendentemente, os espectadores às vezes recebem a mensagem certa mesmo de uma representação descuidada na TV.

Em janeiro de 2019, um homem de 21 anos de Tucson que trabalhava em um centro de pneus e cuidados automotivos encontrou uma mulher debruçada sobre o volante. Ele se lembrou da reanimação cardiopulmonar sendo realizada em um episódio de “The Office”.

Hoffman diz que as compressões torácicas mostradas em “The Office” foram feitas muito altas no corpo, quase no nível do pescoço. Mas o homem em Tucson lembrou como o personagem na TV havia cantado a música dos Bee Gees “Stayin’ Alive” para cronometrar as compressões corretamente; seguindo esse exemplo, ele salvou a vida da mulher.

Em 2023, um menino de 12 anos da Flórida salvou a vida de seu terapeuta comportamental depois que o homem perdeu a consciência em uma piscina e ficou sem resposta. O menino havia assistido a reanimação cardiopulmonar sendo realizada em um episódio de “Stranger Things”.

O menino salvou a vida do homem. Ainda assim, a representação em “Stranger Things” não era perfeita, de acordo com Mikhail Varshavski, um médico de família de 36 anos que trabalha no Atlantic Health Systems Overlook Medical Center em Summit, Nova Jersey. Ele é mais conhecido por seus 30 milhões de seguidores nas redes sociais como Doctor Mike.

O personagem em “Stranger Things” usou uma técnica de golpe precordial (um golpe forte no peito com o punho fechado), que às vezes consegue tirar o coração de um ritmo que ameaça a vida de volta a um ritmo regular. Mas o golpe, embora dramático, não é rotineiramente recomendado, diz Varshavski. Em seus populares vídeos do YouTube, o médico frequentemente reproduz clipes de cenários médicos da TV, “onde o tema consistente sou eu gritando com os atores dizendo que eles precisam fazer compressões torácicas.”

Kevin M. Hazzard, autor do livro de 2016 “A Thousand Naked Strangers” (mil estranhos nus, emn tradução livre), uma memória de seus nove anos trabalhando como paramédico em Atlanta, diz: “Já cheguei a várias cenas em que as pessoas estão fazendo reanimação e posso dizer do outro lado da rua enquanto estou saindo da ambulância que não está sendo feito corretamente.”

Frequentemente o problema é o ritmo e a postura. “Se você já viu uma torre de petróleo, esse é o movimento”, diz Hazzard. “O movimento ideal é com os braços retos, cotovelos retos, e a flexão vem da parte inferior das costas subindo e descendo.”

Hazzard afirma que a maioria das pessoas não percebe até realizar uma reanimação que é um trabalho exaustivo. Ele e outros técnicos de emergência médica disseram que, embora os pacientes na televisão tipicamente se recuperem após alguns minutos recebendo a reanimação, na vida real o processo frequentemente requer realizar compressões torácicas por 15 minutos ou mais. Mesmo assim, as compressões torácicas falham com mais frequência do que se poderia supor pelas representações na TV.

Quando profissionais de serviços médicos de emergência administram a reanição cardiopulmonar apenas cerca de 9,1% dos pacientes sobrevivem até o ponto de receberem alta do hospital, de acordo com a American Heart Association.

Embora médicos e profissionais de serviços médicos de emergência geralmente sejam críticos da forma como os programas de televisão retratam a reanimação, vários destacaram a série “The Pitt” da HBO Max por seu realismo.

O estudo da revista descobriu que na tela, quase metade daqueles recebendo reanimação têm entre 21 e 40 anos. Isso também é irrealista. Na vida real, a idade média de uma pessoa recebendo reanimação cardiopulmonar é 62 anos. Cerca de 80% dos episódios de TV que os pesquisadores estudaram mostraram o método realizado em público; na verdade, cerca de 80% das paradas cardíacas fora do hospital ocorrem em casa.

Outros erros?

Na televisão, uma pessoa entra em linha reta no monitor cardíaco, e o médico sai correndo para buscar o desfibrilador. Os não-médicos entre nós tendem a pensar que o processo é como dar partida em um carro. Não é.

“É como reiniciar o coração. Mas se não há atividade elétrica no coração, então reiniciar será como ligar e desligar um computador que não está conectado”, explica Daniel Sundahl, que trabalhou por 20 anos como paramédico de cuidados avançados em uma comunidade a oeste de Edmonton, Alberta.

Na vida real, os especialistas médicos também dizem que a pessoa realizando reanimação raramente fica emocional a ponto de gritar: “Vamos, Charlie. Vamos!” como um dos personagens faz em um episódio de “Lost”.

Eles foram treinados para permanecer o mais calmos possível nessas situações. A única possível exceção: casos raros em que estão administrando reanimação em uma criança pequena.

Na Escola de Saúde Pública de Pittsburgh, Fawole diz que é importante reconhecer “que há algo de bom que estamos vendo nesses episódios”, mas também que há uma razão convincente para melhorar.

“As pessoas vão ao médico por uma hora por ano”, disse ela, “mas as pessoas assistem a milhares e milhares e milhares de horas de televisão.”

Este texto foi originalmente publicado no The Washington Post.



Fonte.:Folha de S.Paulo

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