Se você chegou a este oitavo e último capítulo da série De Milha em Milha ainda receoso com o universo das milhas, fique tranquilo. Você certamente não é o único. Até mesmo os próprios programas de fidelidade admitem que são complicados e que é preciso planejamento e antecedência para conseguir boas ofertas. Mesmo assim, é um mercado em franco crescimento.
Embora nos Estados Unidos parte clientela do setor já dê sinais de desgate, optando por preservar o seu poder de escolha a ficar preso a um determinado ecossistema, por aqui o faturamento do setor cresceu 13,3% só no segundo trimestre de 2025, encostando nos R$ 6 bi, segundo a Abemf (Associação Brasileira das Empresas do Mercado de Fidelização.
Na esteira desse crescimento, se multiplicam também as ofertas de produtos e serviços digitais que prometem explicar esse universo e encurtar o caminho até a tão sonhada viagem grátis –ou pelo menos muito barata.
Há opções para todos os bolsos e, digamos, níveis de dedicação. Os grupos de alerta de promoções e oportunidades são bons para quem já pesquisou bastante e conseguiu montar sua estratégia de milhas, mas não quer perder tempo buscando por promoções e disponibilidades. No site Pontos para Voar, por exemplo, a assinatura desses grupos custa a partir de R$ 17 por mês.
Os cursos, daqueles com videoaulas gravadas e às vezes ao vivo e materiais de apoio, são para quem ainda não entende muito sobre milhas e não se importa de dedicar algum tempo a aprender mais.
Na Universidade das Milhas, braço educacional do site Passageiro de Primeira, os cursos
variam entre R$ 350 e R$ 2.000, em valores promocionais. Os cursos e aulas são nichados, com foco em acúmulos, outros em resgates, e também em programas de fidelidade e ferramentas específicas, como o buscador seats.aero –este último curso, desenvolvido em parceria com o serviço.
Já nas consultorias personalizadas, os especialistas ajudam seus clientes do planejamento à viagem. É o produto de tíquete alto do setor –cada hora do advogado e mentor de milhas Matheus Ferro, por exemplo, sai por R$ 320, enquanto seus cursos custam a partir de R$ 28. O investimento, segundo ele, vale principalmente para quem tem objetivos mais difíceis, como emitir passagens para a família toda nos mesmos voos e em datas disputadas, ou não quer ou não pode se dedicar aos cursos.
No entanto, nenhum desses produtos ou serviços é imprescindível para navegar no mundo das milhas –os próprios professores afirmam que todo o conteúdo dos grupos, cursos e consultorias estão disponíveis gratuitamente nos seus respectivos sites e redes sociais. A diferença, dizem eles, é a conveniência dos trupos, e organização e a didática dos cursos, que aceleram o aprendizado. E no caso das consultorias, a paz de ter o endosso de um especialista ao manejar as milhas.
“Se você diz ‘eu tenho todo o tempo do mundo, vou bater cabeça nesse negócio até eu entender’, na internet, você entende. Mas ninguém tem esse tempo”, afirma Matheus. “Você paga para não cometer os erros que alguém já cometeu. E ter o suporte de um mentor na tomada de decisão.”
Mas assim como os programas de fidelidade têm pegadinhas, o mercado de cursos também tem as suas. Se algum dia você já pesquisou algo sobre milhas, também já deve ter visto um anúncio em que uma blogueira que promete, por exemplo, ensinar como ter acesso a “lotes de passagens aéreas a preço de custo, que as compahias não querem que você descubra”.
Ofertas como estas, que parecem muito fáceis ou que vêm acompanhadas de um quê de mistério ou urgência, são falsas. É o que afirmam, em uníssono, todas as fontes consultadas para a produção desta série –dentre eles, os próprios gestores dos programas de fidelidade.
“Isso [lotes de passagens a preço de custo] não existe”, afirma Martin Holdschmidt, diretor do Latam Pass no Brasil. “O que existe são as tais tarifas award, mas a disponibilidade é muito limitada. Dentro do Latam Pass, elas são menos do que 1% das emissões.”
Para Estela Brandão, da Smiles, com o crescimento expressivo do mercado, é natural que as pessoas que entendem dele queiram vender o seu conhecimento.
“Mas às vezes existe uma certa espetacularização”, afirma a executiva. “A aviação é uma indústria complexa, e o programa de fidelidade acaba bebendo um pouco dessa complexidade. Mas nosso interesse é sempre facilitar e deixar tudo o mais claro possível.”
Fonte.:Folha de S.Paulo


