10:52 AM
3 de fevereiro de 2026

10 coisas que você (ainda) não sabia sobre anabolizantes e precisa conhecer já

10 coisas que você (ainda) não sabia sobre anabolizantes e precisa conhecer já

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Dados do Google Trends, fornecidos com exclusividade a VEJA SAÚDE no ano passado, mostraram que buscas sobre a reposição de testosterona aumentaram 110% no Brasil em cinco anos. Em outubro de 2025, elas bateram o recorde de interesse em duas décadas.

Essencial ao organismo, esse hormônio virou vítima de um uso estético desenfreado, que elevou suas taxas a níveis estratosféricos no corpo de muita gente.

Preocupada com esse cenário, a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem) acaba de lançar um e-book que destrincha por que o uso indevido de esteroides anabolizantes faz mal à saúde.

Entre os malefícios citados, estão desde reações mais conhecidas, como os riscos ao coração, até problemas que muitos nem imaginam.

Para quem ainda não acredita nos prejuízos das “bombas” ou quer aprender mais sobre elas, a seguir, apresentamos os principais pontos trazidos pelos especialistas no livro gratuito #BombaTôFora: entenda por que o uso indevido de esteroides anabolizantes faz mal à saúde.

Como as “bombas” realmente funcionam

Primeiro, o termo “bomba” é uma gíria popular usada para os esteroides anabolizantes, que são uma classe de drogas geralmente derivadas da testosterona.

Para explicar do começo, o termo “esteroides” se refere ao grupo de hormônios produzidos em glândulas como as suprarrenais e gônadas (testículos e ovários). 

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Eles podem exercer diversas funções. Por exemplo, fazem parte desse grupo os hormônios sexuais, como testosterona e estradiol; o cortisol, conhecido como “hormônio do estresse”, mas também envolvido no controle da glicose; e a aldosterona, que participa da regulação da pressão arterial.

Esse hormônios são muito importantes e, alguns, por sua vez, possuem uma ação anabolizante. Como o nome dá pista, isso significa que eles promovem o anabolismo, um processo de construção e reparação de tecidos, especialmente, nesse caso, do tecido muscular.

Para esse objetivo, os protagonistas são os derivados da testosterona, o hormônio sexual masculino (embora ele também exista no organismo das mulheres). São as versões sintéticas desse anabolizante natural, usadas para “melhorar” a performance de atletas, que recebem a alcunha de “bomba“.

“A partir da testosterona foram criados diversos derivados sintéticos, muitas vezes só trocando uma ínfima parte da molécula desse hormônio masculino de posição”, explica a Sbem. É o caso de esteroides como oxandrolona e gestrinona.

As versões sintéticas funcionam como verdadeiras bombas hormonais, indo além da ação natural e provocando um aumento rápido dos tecidos. O problema é que esse boom também pode “explodir” o equilíbrio natural do organismo.

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Por isso, a entidade médica especializada em metabologia avisa: “se o efeito fosse apenas ganho muscular, a história até que poderia acabar bem. Mas não é tão simples assim“, diz no ebook. A seguir, entenda o que pode acontecer:

1. Anabolizantes “escapam” para além dos músculos

Você já ouviu falar em efeito transbordamento? Esta é uma maneira de traduzir um conceito, em inglês, usado por alguns cientistas: o spill over. O termo diz respeito ao fenômeno no qual os efeitos de uma ação se espalham para fora do seu local de atividade esperado.

No caso dos anabolizantes sintéticos, o objetivo é que essas substâncias, por serem estruturalmente semelhantes à testosterona, consigam se ligar aos seus receptores no organismo. Chamados de receptores androgênicos, eles são proteínas especialmente abundantes nos músculos que, quando ativadas, estimulam o crescimento das fibras musculares.

O problema é que, quando a quantidade de hormônios é maior do que aquilo que o corpo consegue lidar, a substância sintética pode passar a ativar receptores de outros hormônios, que não têm relação com o ganho de massa muscular. Ou seja, acontece um transbordamento — ou spill over.

Isso pode interferir, por exemplo, na ação da aldosterona, alterando a pressão arterial, ou do cortisol, prejudicando o controle da glicose no sangue.

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“Da cabeça aos pés, o funcionamento do corpo sai do seu equilíbrio“, resumem os autores do livro da Sbem.

2. Uso de GH pode te fazer espichar onde não deveria

GH é a sigla para Growth Hormone, que em português significa Hormônio do Crescimento ou, se preferir um título mais difícil, “somatotropina”.

Ele é produzido pela glândula hipófise, situada no crânio, e está presente em todas as pessoas saudáveis. Como seu nome sugere, é necessário durante o período de crescimento e, em sua falta, a estatura adulta normal não pode ser alcançada.

Muitas vezes usadas por atletas, essa molécula também tem potencial para, além de fazer os músculos crescerem, queimar gordura. Parece um sonho para muitos, mas isso tem um preço.

A reposição de GH sem necessidade terapêutica pode fazer com que não só que a fibra muscular se desenvolva, mas também as células das articulações, como as das mãos e pés. Resultado: “se pessoa já passou da fase de crescimento, as extremidades do corpo é que irão espichar”, aponta o livro.

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Surge, então, um distúrbio do crescimento chamado acromegalia (um quadro parecido com o chamado gigantismo), além de crescimento desproporcional das mãos, dos pés, da testa e do queixo. E tem mais: podem acontecer alterações dentárias, aumento da pressão arterial e do colesterol, inchaços pelo corpo, dores e deformidades articulares.

Sobre o assunto, há apenas uma ressalva: para não confundir com o uso indevido, atletas que, por razões de saúde, precisam de hormônio do crescimento devem conversar com o seu médico.

3. Uso na adolescência pode te deixar baixinho

Se utilizar esse tipo de droga na vida adulta já oferece riscos à saúde, fazê-lo na fase de crescimento é ainda mais perigoso.

E tudo começa pela saúde mental e o comportamento: “Jovens que usam esteroides anabolizantes são mais propensos a comportamentos agressivos, dentro e fora da escola”, destaca a Sbem. Isso porque essas substâncias “mexem com o cérebro, alterando os níveis de neurotransmissores envolvidos na regulação do humor”, completa a entidade.

Para o corpo, também há pelo menos dois agravantes quando adolescentes fazem uso de esteroides anabolizantes e GH para fins estéticos: centímetros a menos e problemas nos tendões.

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O primeiro problema ocorre porque os anabolizantes apressam a fusão da chamada cartilagem de crescimento. Quando isso acontece, a estatura final de um indivíduo fica definida de uma vez por todas.

Ou seja: “quando um garoto começa a usar bomba, a velocidade do crescimento até aumenta no início. Mas, com a fusão precoce da tal cartilagem, ela logo para“, explica o e-book.

4. Níveis baixos de testosterona não são resolvidos só com reposição

Diante de sintomas como cansaço, queda da libido, piora do desempenho sexual ou perda de massa muscular, muita gente conclui que a solução é “aumentar a testosterona”.

O problema é que, na imensa maioria das vezes, os sintomas não têm relação com falta desse hormônio. Embora a deficiência hormonal possa causar esse conjunto de sinais, eles aparecem com muito mais frequência em situações como estresse crônico, privação de sono, depressão, uso de medicamentos, sedentarismo e doenças metabólicas.

Por isso, testosterona baixa é rara e o exame das taxas desse hormônio nem deve ser pedido como rotina.

Além disso, quando a testosterona realmente cai, quase sempre há uma causa por trás, como alterações da hipófise ou do testículo, obesidade abdominal, tumores, cirurgias, radioterapia, doenças infecciosas ou — ironicamente — o uso prévio de esteroides anabolizantes.

É justamente por isso que somente repor testosterona, sem tratar a causa, raramente resolve.

Vale ainda destacar que a reposição orientada não oferece riscos. Um estudo publicado no New England Journal of Medicine, por exemplo, comprovou que o tratamento em pessoas com hipogonadismo (única situação em que a reposição é indicada para os homens) não eleva a probabilidade de infartos, derrames ou problemas cardíacos.

5. Quanto mais gordura na barriga, menos testosterona

Um adendo importante ao tópico anterior: existe um quadro chamado hipogonadismo da obesidade, em que o excesso de gordura corporal reduz os níveis de testosterona.

É que a gordura concentrada na barriga transforma parte da testosterona em estrogênio, hormônio que é tipicamente feminino e bloqueia os sinais do cérebro responsáveis por estimular o testículo a produzir testosterona.

Um erro comum é tentar corrigir isso com esteroides anabolizantes, afim de ganhar músculos. Na verdade, para que os níveis hormonais voltem ao normal, é preciso tratar a obesidade, que está na origem do problema. Além disso, essas substâncias tendem a aumentar a gordura visceral, que se acumula no fígado e favorece inflamações perigosas.

6. Uso de bomba pode fechar a “fábrica” da testosterona natural

Aqui vai um trecho do e-book da Sbem: “quando um homem usa testosterona sem a menor necessidade, entra em ação um mecanismo de feedback que interrompe a produção natural desse hormônio.”.

Pois é, quando o homem usa os esteroides anabolizantes, o cérebro entende que já há hormônio demais circulando. Com isso, ele reduz ou interrompe os sinais que normalmente estimulam o testículo a trabalhar.

Sem esses estímulos, o testículo entra em “modo de economia”: diminui a produção de testosterona e de espermatozoides. Se essa situação se repete ou se prolonga, o tecido testicular pode sofrer, até mesmo, atrofia.

O resultado é um paradoxo, convenhamos. Para conquistar um corpo musculoso para o verão, o homem pode acabar precisando de reposição hormonal pelo resto da vida. E vale o alerta final: não existe uso seguro sem indicação médica. Cada organismo reage de um jeito, e os riscos são imprevisíveis.

7. Mulheres não têm testosterona baixa

Essa é velha, mas ainda necessária de ser dita. “Os níveis de testosterona nas mulheres são normalmente baixos e isso não causa qualquer queixa clínica“, explica a Sbem.

Aliás, nas mulheres, a testosterona só deve ser dosada quando há sinais de excesso (e não de falta). Entre eles, estão queda de cabelo no padrão masculino, aumento de pelos no corpo ou crescimento do clitóris.

Nesses casos, a elevação do hormônio costuma estar ligada a disfunções específicas, que um endocrinologista deve identificar e tratar.

O principal hormônio da mulher, cuja reposição pode ser indicada na menopausa, é o estrogênio. Além disso, a testosterona não faz emagrecer. Ao contrário, pode fazer a mulher aumentar a gordura da barriga e acumular no fígado.

E o “chip da beleza”?

Os implantes hormonais manipulados, já condenados por 35 sociedades médicas, entre elas a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), podem causar os mesmos efeitos colaterais do uso indevido de esteroides anabolizantes.

Além disso, não cumprem as promessas de aumentar a libido ou melhorar a disposição e só promoveriam ganho muscular em mulheres com doses muito altas (e perigosas!).

Nesses implantes, não há controle confiável da dose nem da liberação do hormônio no organismo. Apesar de restrições terem sido flexibilizadas no país, o alerta permanece: eles não combatem fadiga nem sintomas do envelhecimento.

Portanto, se um médico indicar esse tipo de implante, redobre a atenção.

8. Testosterona baixa não tem relação com libido feminina

O desejo sexual das mulheres tem pouca relação com a testosterona no sangue. Na maioria dos casos, a queda da libido está ligada a fatores como pós-parto e lactação, depressão e uso de antidepressivos, estresse, insônia, menopausa, problemas no relacionamento, dor durante o sexo, obesidade e sedentarismo.

Por isso, antes de pensar em testosterona, vale mais investigar e tratar essas causas. Na menopausa, por exemplo, o foco costuma ser a reposição de estrogênio, quando indicada.

A principal exceção é uma condição chamada “síndrome do desejo sexual hipoativo”. Mesmo assim, a testosterona só pode ser considerada para mulheres com essa condição na pós-menopausa, após corrigir outros fatores que afetam a libido. O diagnóstico é sempre clínico e não depende dos níveis de testosterona no exame de sangue.

9. As falsas indicações de esteroides anabolizantes na terceira idade

Após os 60 anos, os riscos do uso de esteroides anabolizantes tendem a ser ainda maiores. Isso porque, nessa fase da vida, é comum a presença de comorbidades como diabetes tipo 2 e doenças cardiovasculares. Como essas substâncias aumentam a resistência à insulina e sobrecarregam o coração e os vasos, o resultado costuma ser piora da saúde, não melhora.

A perda de massa e força muscular — chamada de sarcopenia — é frequente no envelhecimento e, sim, precisa ser tratada. Mas nunca com “bomba”.

Também não procede a ideia de “andropausa”. Diferentemente do que ocorre com o estrogênio nas mulheres, a testosterona nos homens sofre apenas uma queda leve com a idade. Manter o hormônio artificialmente alto seria como usar combustível turbinado em um motor antigo.

10. Para não esquecer dos riscos em geral

O uso de esteroides anabolizantes pode provocar danos graves da cabeça aos pés. No cérebro, aumenta o risco de atrofia, alterações de comportamento, depressão, agressividade, dependência e até demência.

Na boca, pele e cabelos, favorece perda dentária, acne severa, oleosidade, estrias e calvície

fígado e rins podem sofrer inflamações, falência aguda ou crônica, com risco de transplante ou hemodiálise. E no coração e nos vasos, os anabolizantes elevam a pressão, pioram o colesterol, favorecem tromboses, infarto e acidente vascular cerebral.

Como explicou, no PROGRAMA VEJA E CUIDE-SE, o endocrinologista Alexandre Hohl, consultor da Sbem e autor do principal tratado médico sobre o assunto no país, Testosterona: Dos Aspectos Básicos aos Clínicos, o que diferencia o uso terapêutico do uso estético é a dose.

“Para um homem com diagnóstico de hipogonadismo masculino, existe uma dose segura, dentro de uma posologia, como aplicações intramusculares a cada 15 ou 20 dias. Já em ciclos de anabolizantes, as pessoas usam até 20 vezes mais“, destacou.

O risco, ainda, passa pelo consumo de drogas de origens variadas, muitas vezes sem qualquer controle. “É assustador; é pôr drogas no corpo humano que a gente não consegue prever como irá evoluir“, destacou o médico.

Assim sendo, o recado que fica é: o ganho estético cobra um preço alto e perigoso para a saúde.

 

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Fonte.:Saúde Abril

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