
Segundo autoridades do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE, na sigla em inglês) dos Estados Unidos, pessoas presas no maior centro de detenção de famílias imigrantes do país estão em quarentena após a confirmação de dois casos de sarampo nas instalações. A informação foi divulgada nesta segunda-feira (2).
Os casos ocorreram no Centro de Processamento de Imigração de Dilley, estado do Texas, que é o epicentro da eclosão do sarampo no país nos últimos anos. Segundo as instituições estatais, todos que tiveram contato com as duas pessoas infectadas foram colocadas em isolamento e a circulação dentro da instalação foi limitada.
Os dois registros — no centro apontado pela imprensa local como “superlotado” — surgem em um cenário de alta nas notificações de sarampo no país. Segundo os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos EUA, até 29 de janeiro de 2026 já haviam sido registrados oito surtos na região. Ao todo, já somam-se cerca de 171 casos este ano. Em 2025, foram 2.242.
Alerta para explosão de casos nas Américas
Este, porém, é um problema que não se restringe ao território estadunidense. Nesta terça-feira (3), a Organização Pan-americana da Saúde (OPAS/OMS) emitiu um alerta sobre o sarampo em todas as américas. Mesmo com o foco do surto no Norte, a América do Sul também tem dados preocupantes.
Segundo a entidade, até o final 2025, em todo o continente, foram confirmados 14.891 casos de sarampo, um aumento de 32 vezes em relação às 466 notificações de 2024.
Em 2026, somente nas três primeiras semanas epidemiológicas do ano, foram confirmados 1.031 quadros. Já são 45 vezes mais do que o mesmo período no ano passado (que havia registrado 23 casos).
Vale destacar que, de acordo com a OPAS, o número de casos confirmados no ano de 2025 foi o mais alto desde 2019 — que ainda lidera como o maior registro dos últimos 22 anos, quando houve 23.269 infecções na região.
Dentre os casos, 78% foram entre pessoas não vacinadas, segundo as informações do Sistema Integrado de Informação de Vigilância (ISIS) para a poliomielite, o sarampo, a rubéola e a síndrome da rubéola congênita.
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Segurança do Brasil dependerá da vacinação
Este ano, quadros de sarampo já foram reportados por sete países do nosso continente, com destaque para o México (740 casos) e os Estados Unidos (171), seguidos por Canadá (67), Guatemala (41), Bolívia (10), Uruguai (2) e Chile (1).
Atualmente, o Brasil se configura como um país livre do sarampo, isto é, não há transmissão da doença entre pessoas dentro do nosso próprio território desde 2022. Ainda assim, pessoas adoecidas vindas de outros países ainda podem ser notificadas.
Em 2025, por exemplo, foram confirmados 38 casos de sarampo assim no Distrito Federal e em seis estados. A preocupação é que esses casos importados se disseminem a ponto de perdermos o controle das infecções internamente.
“O risco é constante. Com tantos casos de sarampo ao nosso redor, pessoas com sarampo, sem dúvidas, entrarão no nosso país semanalmente ou diariamente“, explica o vice-presidente de Sociedade Brasileira de Imunizações (Sbim) Renato Kfouri.
Para se preparar para isso, a “lição de casa” do Brasil, diz o médico, é manter a vigilância constante dos casos que chegam e a alta cobertura vacinal, evitando, assim, a circulação interna do vírus.
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Cobertura vacinal em alta no continente
Kfouri reforça que a alta de casos nas Américas é um reflexo da baixa adesão às vacinas, principalmente nos Estados Unidos, México e Canadá.
“A cobertura vacinal não está ruim só para essa doença, mas, como o sarampo é a infecção viral de mais fácil transmissão, ela é a primeira a dar as caras e se manifestar em cenários de queda da cobertura“, explica.
Em relação à aplicação da primeira dose, apenas 33% dos países americanos atingiram a meta mínima: vacinar 95% da população. Para a segunda dose, somente 20% dos países têm um nível satisfatório, enquanto 48,9% relataram um nível de cobertura inferior a 80%, indicando um esquema vacinal incompleto.
No Brasil, em 2025, a cobertura da tríplice viral (que protege contra sarampo, caxumba e rubéola) chegou a 94,02% na primeira dose, mas caiu para 78,99% na segunda, segundo o Ministério da Saúde. A outra vacina com componente contra o sarampo é tetraviral (que protege também contra a catapora), mas há poucos dados sobre o imunizante.
Desde 2015, por insuficiência no abastecimento, a proteção contra catapora, por exemplo, passou a ser garantida pela aplicação simultânea da vacina varicela durante uma segunda dose da tríplice viral.
Com o atual cenário de disparada de casos, a OPAS emitiu o alerta pedindo aos países que reforcem, com urgência, “as atividades de vigilância e vacinação de rotina”, a fim de garantirem uma resposta rápida e oportuna aos casos suspeitos.
Isso é necessário porque o sarampo é extremamente contagioso: uma pessoa infectada pode transmitir para 90% das pessoas próximas que não estejam imunes.
Também por essa razão, casos como o do centro de detenção dos Estados Unidos, em que há pessoas diversas em um ambiente fechado, são muito preocupantes.
“Um caso ou dois já exigem muita vigilância. Isso porque uma pessoa infectada é capaz de gerar outros 16 casos se ele encontrar com pessoas não vacinadas”, explica Kfouri. Por isso, a imunização é tão importante: “os vacinados funcionam como um bloqueio para a expansão da doença“, afirma.
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Como se proteger contra o sarampo
O sarampo é uma infecção viral extremamente contagiosa e, antes da vacinação em massa, figurava entre as principais causas de morte infantil no mundo.
O vírus se espalha com facilidade pelo ar, por meio de gotículas eliminadas ao tossir, espirrar, falar ou até respirar em ambientes compartilhados.
Os dados mais recentes mostram que a doença atinge diferentes faixas etárias. No ano passado, segundo a OPAS, adolescentes de 10 a 19 anos concentraram a maior parte dos casos confirmados (24%), seguidos por jovens de 20 a 29 anos (19%) e por crianças de 1 a 4 anos (18%).
Ainda assim, quando se observa o risco proporcional, os bebês são os mais vulneráveis. A taxa de incidência é mais elevada em crianças menores de um ano, com 8,8 casos por 100 mil habitantes.
Vale destacar, ainda, que essa é uma fase em que a proteção depende fortemente da vacinação em dias da população ao redor.
No Sistema Único de Saúde (SUS), a proteção contra a doença é feita com duas vacinas: a tríplice viral, que protege contra sarampo, caxumba e rubéola, e a tetraviral, que inclui também a varicela (catapora), e foi recentemente retirada das recomendações de saúde dos Estados Unidos.
A vacinação é indicada para todas as pessoas de 12 meses a 59 anos. Adolescentes e adultos que não foram vacinados ou não completaram o esquema devem regularizar as doses conforme o Calendário Nacional de Vacinação, disponível gratuitamente na rede pública.
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Orientações para viajantes
Como o Brasil é considerado um país livre de sarampo, a prevenção ganha ainda mais importância. A entrada de casos importados pode reintroduzir o vírus em áreas onde a doença já havia sido eliminada, especialmente em locais com baixa cobertura vacinal.
Por isso, vale seguir as recomendações da OPAS para viajantes:
Antes da viagem
- Pessoas a partir de 6 meses sem comprovação de vacinação ou imunidade devem receber uma dose da vacina contra sarampo e rubéola pelo menos duas semanas antes da viagem a áreas com transmissão.
- Informar-se sobre os principais sintomas: Febre; Manchas vermelhas na pele (exantema); Tosse, coriza ou conjuntivite; Dor nas articulações; Gânglios inchados
Durante a viagem
Ao apresentar sintomas suspeitos:
- Procurar atendimento médico imediato.
- Evitar contato próximo com outras pessoas.
- Permanecer no local de hospedagem, saindo apenas para atendimento de saúde.
- Usar máscara durante todo o período de transmissibilidade.
- Usar máscara também no local de hospedagem, especialmente se houver pessoas não vacinadas.
Ao retornar
Caso suspeite de infecção por sarampo ou rubéola:
- Procurar um serviço de saúde.
- Informar ao profissional sobre a viagem realizada.
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Fonte.:Saúde Abril


