Um amigo e paciente teve o azar de adquirir um câncer agressivo, dos que concedem poucas chances de revidar. O percurso foi longo, afligindo amargamente o coração dos que acompanharam o sofrimento de um pai, despedindo-se a prazo daqueles que cresceriam sem a sua presença.
No processo de esvaecimento do corpo, de tudo foi tentado. Cirurgias, drogas, suplementos e dietas. Algumas ações retardaram a doença. Outras passaram desapercebidas pelo tumor inescrupuloso. E quando o fim já era inevitável, de tudo continuou sendo tentado. É surpreendentemente difícil jogar a toalha, admito. Mas isso não justifica tratamentos exagerados e indevidos, que nem prolongam a existência nem aliviam o sofrimento.
Enquanto a família padecia, um grupo de médicos com motivação questionável se gabava pelos corredores do hospital sobre o desafio clínico que enfrentavam. No final, o que restou foi uma família melancólica e endividada.
A história nem sempre é tão trágica, mas expõe um fenômeno crescente: a prática médica tem se transformado num mercado de commodities, cuja mercadoria é o paciente. Movidos por incentivos financeiros ou ambição profissional, médicos e instituições induzem a demanda por intervenções excessivas, muitas vezes sem benefícios clínicos proporcionais. Paralelamente, vem aumentando a supermedicalização, que trata aspectos normais da vida como se fossem doenças. O saldo são mais diagnósticos e prescrições. As cifras sobem. O resultado é uma inversão ética: o bem do paciente se tornou secundário ao interesse do médico.
Um dos motivos para tal situação é a competição, que exacerbou o aspecto mercantilista dos médicos. Em 2025, foi autorizada a abertura de 77 novos cursos de medicina no Brasil, somando um total de 494 escolas. Em 2015, eram 274. A cada ano, serão cerca de 50 mil egressos nesses cursos.
Seria ótima a notícia, porém, longe da utopia, os habitantes dos rincões mais ermos do nosso país continuam aguardando aparecer alguém de avental branco. A Organização Mundial da Saúde recomenda que uma nação tenha acima de 2,5 médicos para cada mil habitantes. Segundo o Conselho Federal de Medicina (CFM) e Cremesp (conselho paulista), a média nacional é de 2,8, no estado de São Paulo é de 3,7 e na cidade de São Paulo é de 6,7.
Com a concorrência acirrada, as instituições e os médicos disputam o mercado dente a dente e, eventualmente, surgem ações imoderadas. Alguns exames excedentes, dias de internação a mais e tratamentos “café com leite” giram a engrenagem das companhias de saúde e somam pontos para o médico. Sorte também dos gestores e acionistas. Azar do paciente.
Não me levem a mal. Não sou contra o marketing e competição saudáveis, que, aliás, estimula empenho e aprimoramento. No final do dia, os médicos também têm que pagar suas contas, assim como vendedores, empresários ou outros profissionais. Mas um médico que busca, acima de tudo, satisfazer suas vaidades ou engordar a conta bancária, esqueceu-se do principal. Devem se lembrar que do outro lado da mesa há um ser humano buscando usufruir da vida com dignidade ou mesmo lutando pela vida.
Outra razão talvez seja o imediatismo de uma geração regida pelo smartphone. A sociedade contemporânea tornou-se intolerante ao tempo, ao processo, à espera. Não surpreende que busque também na medicina respostas instantâneas para desconfortos e frustrações inevitáveis da condição humana. Em um mundo que rejeita a demora, a temperança cede lugar a pílulas, injeções e procedimentos que prometem resultados rápidos.
O ser humano aceita mal a implacável decadência do corpo. Muitos culpam algum número insignificante nos exames pelas mazelas do envelhecimento. Indivíduos saudáveis se submetem a tratamentos mirabolantes para resultados pífios e controversos. Temos demanda e mercado. O cenário é perfeito para vender soluções.
O horizonte é desanimador. Mais de 30% dos cursos de medicina tiveram nota abaixo do exigido pelo MEC em 2025. O que esperar dos futuros médicos? O humanismo é difícil de ensinar e mesmo as faculdades mais conceituadas são incompetentes nessa missão. Desanimado, tenho esperança de que os valores e virtudes que formarão um bom médico, que trate um ser humano como tal, sejam transmitidos em casa.
Parafraseando Geraldo Vandré e plagiando meu pai, o urologista Miguel Srougi, que escreveu nesta Folha e inspirou milhares com humanismo: “Gado a gente marca, tange, fere, engorda e mata. Mas com gente é diferente”.
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Fonte.:Folha de S.Paulo


