8:21 AM
10 de fevereiro de 2026

Bebê sobrevive 5 horas sem batimentos cardíacos; “com o coração parado, ele abriu os olhos”, conta mãe

Bebê sobrevive 5 horas sem batimentos cardíacos; “com o coração parado, ele abriu os olhos”, conta mãe

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Quando o pequeno Matias dava os seus primeiros respiros, o seu coração parou. A cena aconteceu em uma UTI neonatal de alta complexidade, em Belo Horizonte, três dias depois de seu nascimento, quando já havia enfrentado uma difícil e delicada cirurgia cardíaca.

A sobrevivência do neném dependeu da oxigenação por membrana extracorpórea (ECMO, na sigla em inglês), um circuito complexo de bombas, tubos, filtros e monitores que substitui o pulmão e o coração em casos graves.

A máquina, vale dizer, não é um tratamento, mas faz ganhar tempo. Para Matias, foram necessárias cinco horas. Neste intervalo, o aparelho manteve o funcionamento de seu corpo enquanto o pequeno coração pôde se recuperar, voltar a bater e reassumir o controle.

Os procedimentos foram necessários para uma proposta ambiciosa: fazer o lado esquerdo do coração do garoto, que era subdesenvolvido, crescer. Entenda:

Condição cardíaca rara

A série de acontecimentos foi consequência de um quadro de saúde diagnosticado ainda na gestação. Meses antes, durante uma ultrassonografia para descobrir o sexo do bebê, a sua mãe, Liliane Oliveira, recebeu duas notícias: era um menino – e ele tinha uma doença rara no coração.

“O meu mundo se abriu”. É assim que ela descreve a sensação de ouvir que seu filho teria uma síndrome chamada hipoplasia do coração esquerdo. Nessa condição, o lado esquerdo do coração – incluindo ventrículo, válvulas e aorta –, é subdesenvolvido.

Na prática, é como se o órgão fosse incompletoNeste quadro, o ventrículo esquerdo, que é o principal do coração, é muito pequeno e, por isso, o órgão não consegue bombear sangue suficiente para o resto do corpo.

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Nos primeiros dias de vida, um bebê com a síndrome consegue sobreviver graças a uma pequena passagem natural do sangue, que existe durante a gestação e funciona como um desvio temporário.

O problema é que essa passagem costuma se fechar logo após o nascimento. Se isso acontecer, o sangue deixa de circular como deveria e há risco de morte. Para evitar isso, os médicos precisam agir rápido.

Matias, portanto, começou a ser seguido por uma equipe de cardiopediatria ainda dentro do útero. Mas o futuro era incerto. “Eu não sabia como seriam os próximos passos e tinha medo de criar expectativas. Me questionava: vivo ou não a minha gestação? Faço o enxoval? Poderei ter essa criança?”, relembra Liliane.

Rompendo as incertezas, o neném nasceu no dia 2 de novembro de 2025. “Ele nasceu gordo, cabeludo, lindo e vigoroso”, lembra a cardiopediatra Marina Fantini, cofundadora da CardioWays, responsável pelo acompanhamento cardiológico do bebê.

Marina estava na sala de parto não por acaso. Situações como a de Matias exigem um hospital de alta complexidade, com equipes de cirurgia cardíaca prontas para intervir. Logo após o nascimento, o neném passou por exames e teve o seu quadro avaliado.

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Geralmente, nesse momento, o tratamento é feito com medicamentos de emergência para manter aquele “desvio” da passagem sanguínea aberto, seguido por uma série de procedimentos cirúrgicos que permitem que o ventrículo direito assuma o trabalho do ventrículo esquerdo subdesenvolvido.

Desse modo, o neném passa a viver com apenas um ventrículo, o que garante a sobrevivência, mas costuma exigir, na vida adulta, um transplante de coração.

A equipe médica, então, optou por um caminho alternativo: avaliou-se que, se fosse estimulado a receber fluxo de sangue, o ventrículo esquerdo poderia crescer e a criança teria um coração com dois ventrículos (o mais próximo do funcionamento normal).

“Eu falei: talvez, se fizermos uma intervenção diferente e não levá-lo imediatamente para uma primeira cirurgia enorme, a gente consiga dar uma outra perspectiva de vida para essa criança”, contou Marina.

A partir daí, teve início a saga da médica, que levou imagens do bebê para grupos internacionais a fim de discutir o caso.

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“A gente queria saber se o que estávamos fazendo era uma grande loucura ou não”, comenta. “Entendemos que, sim, fazia sentido. Com a retaguarda de um hospital com grandes terapias de intervenção, poderíamos segurar a vida do neném em seus primeiros momentos”.

E lá se foram horas de operações. A primeira cirurgia teve como objetivo desobstruir a aorta, a principal artéria que sai do ventrículo esquerdo. A meta era facilitar o fluxo sanguíneo, o que estimularia o crescimento da estrutura.

Nos primeiros dias, Matias respondeu bem, mas ainda sustentado por medicamentos. No entanto, no terceiro dia, a aorta voltou a se fechar. O bebê entrou em choque cardiogênico

Esse quadro se caracteriza por uma falência grave da circulação, em que o coração não consegue manter o fluxo de sangue necessário. Então, ele voltou para o centro cirúrgico, agora para um procedimento ainda maior.

“A nova abordagem foi enorme. Mas nós insistimos para que o menino pudesse ter os dois ventrículos”, comenta Marina.

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A segunda cirurgia começou às dez da manhã e terminou às duas da madrugada. Ao final, veio o momento mais crítico, que envolvia retirá-lo da circulação extracorpórea (CEC), um sistema usado em operações cardíacas que substitui temporariamente a função de oxigenar o sangue enquanto o cirurgião trabalha.

O coração de Matias não conseguia retomar as funções necessárias para a retirada da CEC e, assim, foi preciso seguir para uma última alternativa, a terapia ECMO.

“Ela é como uma circulação extracorpórea, mas de longa duração. Com ela, eu iria conseguir manejar o menino para tentá-lo fazer ‘pegar um pezinho’ e o seu coração engrenar”, conta a médica. O aparelho ficou muito conhecido durante a pandemia de Covid-19, principalmente após ser usado por figuras como o ator Paulo Gustavo.

Matias foi colocado em ECMO ainda no centro cirúrgico, com o tórax aberto. A máquina assumiu a circulação e ele foi levado à UTI. Horas depois, o coração parou completamente.

Apesar da parada cardíaca, o sangue continuava circulando pelo seu corpo, graças à ECMO, e Matias até mesmo abriu os olhos.

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“Ele estava com o coração para fora e o coração parou de bater. Mas, [mesmo assim] ele abriu os olhos — e me olhou, mesmo com o coração parado. Foi a primeira vez que vi isso na vida. Eu disse: não posso desistir dessa criança”, fala a médica, emocionada.

Após medicações e diversos ajustes, o órgão do neném voltou a bater em cinco horas. Mas ele permaneceu mais cinco dias em ECMO, como suporte enquanto o órgão ainda não estava completamente capacitado. 

Durante esse período, o coração desinflamou, se recuperou do trauma cirúrgico e, sobretudo, cresceu. O ventrículo esquerdo passou a assumir gradualmente sua função e a máquina foi retirada aos poucos.

Mas vale dizer que o caminho não foi linear. Matias ainda passou por disfunção renal, necessidade de diálise e infecção. “Nós fomos vivendo por dia, sem muitas expectativas. Cada dia era uma pequena vitória”, relembra a mãe, Liliane.

Aos poucos, o pequeno atravessou cada etapa. “E ele virou um bebê com dois ventrículos!“, comemora Marina.

O coração do neném ainda não tem o tamanho padrão, mas é funcional e segue melhorando, com expectativa de que, ao longo dos próximos meses, o ventrículo possa crescer ainda mais.

Matias, agora com quase três meses, teve alta na última semana. “Hoje ele está assim: muito fofo, gordo, de topete e mamando no peito”, brinca a médica.

Foto do bebê Matias sorrindo.
Matias de Oliveira Resende nasceu com condição em que ventrículo esquerdo do coração não se desenvolve, mas teve quadro revertido em operações inéditas. (Acervo da família/Veja Saúde)

Para a mãe, a alta traz tranquilidade, embora não seja o fim das preocupações maternas. “Querendo ou não, não tem como apagar o que aconteceu”, comenta. Ainda assim, com Matias em casa, a expectativa agora é pela felicidade em família, junto ao marido Leonardo e a filha mais velha do casal, Lívia.

“A gente quer criar nossa rotina: sentar numa mesa, com os quatro juntos, e viver momentos em família. Daqui para a frente, vai ser cada vez mais união, menos tempo de tela e mais ar livre”, diz Liliane.

ECMO enfrenta debates sobre custo-benefício

Marina explica as circunstâncias que favoreceram o caso de Matias. “A ciência jogou ao nosso favor. Havia sinais de que o ventrículo poderia crescer”, diz. “Mas só consegui seguir esse caminho com segurança porque tínhamos a ECMO disponível”, completa.

A médica, assim, lamenta a ausência do equipamento no Sistema Único de Saúde (SUS) e aponta: “a gente precisa democratizar o acesso”. O seu grupo, CardioWays, busca ampliar a admissão de tecnologias avançadas de cuidado do coração no Brasil, por meio do que chamam de uma jornada de cuidado integrada, humana e multidisciplinar.

Em 2021, o Ministério da Saúde chegou a discutir a incorporação da terapia, no entanto, a decisão foi por não ofertar o procedimento. A recomendação veio da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias do Sistema Único de Saúde (Conitec).

Na ocasião, o debate se concentrou principalmente no uso da ECMO para casos de síndrome da angústia respiratória aguda (SARA), uma das principais causas de morte por Covid-19. O relatório não discutiu, porém, a aplicação da tecnologia em condições cardíacas complexas, como a hipoplasia do coração esquerdo.

A terapia ECMO divide opiniões entre especialistas em relação à efetividade e custo-benefício. Por exemplo, entre os principais argumentos da Conitec para a não incorporação estão o “grau de incerteza” dos resultados — que, segundo o relatório, variam amplamente entre os estudos analisados — e o custo elevado em comparação à ventilação mecânica invasiva (VMI).

De acordo com a comissão, estimava-se que apenas 1% a 1,2% dos pacientes com SARA grave em VMI necessitariam de ECMO. Em termos financeiros, a Conitec considerou que a terapia era mais cara: a diferença seria de R$ 95.951,13 para a obtenção de um ano de vida com qualidade.

Mas vale lembrar que, além de outras questões, o caso da hipoplasia do coração é bem diferente da Covid-19. E, seja como for, Marina defende incorporação do procedimento para todos os quadros em que há indicação. “Não se trata apenas de sobreviver ou da dimensão médica e emocional”, resume. “É também uma questão financeira: a ECMO é, sim, custo-efetiva”.

Ela afirma, por exemplo, que, no caso de Matias, o investimento foi de cerca de R$ 150 mil, mas evitou custos milionários no futuro. Isso inclui tratamentos prolongados e a possibilidade de um transplante cardíaco, caso a alternativa tivesse sido a cirurgia para um coração univentricular (o que, sem a ECMO, seria necessário).

“O uso da ECMO teve um custo pontual maior, mas evitou gastos muito mais altos ao longo da vida dessa criança”, avalia.

Para Liliane, mãe de Matias, a conta também fecha quando se olha para o desfecho, mesmo após uma jornada longa. “Ele se machucou muito, ficou com o peito aberto por cinco dias, mas estava pleno e abria os olhos, conversava pelo olhar. Era como se dissesse: ‘eu quero muito viver. Deem tudo de vocês daí e eu darei tudo de mim daqui’”, recorda.

Hoje, ao falar da experiência, ela reforça a importância do diagnóstico precoce e do acesso a equipes especializadas. “Busquem informação, profissionais de referência e peçam o ecocardiograma fetal ao obstetra. Sigam o pré-natal à risca”, aconselha.

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Fonte.:Saúde Abril

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