10:33 AM
11 de fevereiro de 2026

Pancreatite: como saber se a caneta emagrecedora está afetando o pâncreas?

Pancreatite: como saber se a caneta emagrecedora está afetando o pâncreas?

PUBLICIDADE



Ler Resumo

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) emitiu esta semana um alerta sobre o risco de pancreatite associado ao uso indevido dos medicamentos análogos ao GLP-1, conhecidos como “canetas emagrecedoras”. De acordo com dados da entidade, desde 2020 foram notificadas as suspeitas de seis mortes e 225 casos supostamente ligados à pancreatite em usuários dessas medicações no Brasil.

Os relatos constam no VigiMed, sistema oficial de notificação de eventos adversos da Anvisa, e em registros de pesquisa clínica sobre os medicamentos no país. Embora o risco já conste nas bulas aprovadas no Brasil, a agência afirma que as notificações têm aumentado nacionalmente e no mundo.

Recentemente, a autoridade sanitária do Reino Unido alertou que, entre 2007 e outubro de 2025, recebeu 1.296 notificações de pancreatite relacionadas aos usuários desses medicamentos, incluindo 19 óbitos.

Os agonistas do receptor GLP‑1 são uma classe de remédios usada para o tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2, incluindo a semaglutida, substância do Ozempic e do Wegovy e a tirzepatida, do Mounjaro, além dos princípios ativos dulaglutida e a liraglutida.

Em nota, a Anvisa diz que a preocupação com os eventos adversos ligados às medicações foi um dos motivos para determinar, em junho de 2025, que farmácias e drogarias passassem a reter a receita desses medicamentos. Desde então, a prescrição médica passou a ser feita em duas vias, e a venda só pode ocorrer com a retenção da receita na farmácia ou drogaria, assim como acontece com os antibióticos.

O presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem), Neuton Dornelas, alerta, porém, que os casos ainda não podem, necessariamente, ser associados ao uso dos medicamentos. “As análises precisam excluir outras possibilidades”, diz.

Isso porque a pancreatite é uma inflamação no pâncreas que pode ser causada por diferentes fatores, como alcoolismo ou a presença de cálculos (“pedras”) na vesícula biliar, além de outras condições decorrentes da própria obesidade, alvo dos tratamentos.

Continua após a publicidade

Por que o uso das canetas pode causar pancreatite?

As canetas antiobesidade e diabetes funcionam “imitando” a ação do hormônio incretina GLP-1, liberado pelo intestino após as refeições, gerando saciedade. Eles se ligam aos mesmos receptores desse hormônio e, assim, basicamente, mimetizam as suas funções.

Com isso, elas aumentam a saciedade, reduzem o apetite e retardam o esvaziamento gástrico. Além disso, as medicações atuam estimulando a produção de insulina no pâncreas e regulando os níveis de glicose (açúcar) no sangue.

Para isso, os medicamentos se ligam às células pancreáticas. A preocupação quanto à pancreatite surgiu, especialmente, devido à essa ação no órgão.

Além disso, o risco também pode estar relacionado à vesícula, órgão que armazena a bile, líquido produzido pelo fígado que atua na digestão de gorduras.Essas ações do medicamento promovem alterações na motilidade da vesícula biliar podendo aumentar a possibilidade, inclusive, de formação de cálculos”, explica Dornelas. Vale lembrar que os cálculos na vesícula biliar são fatores de risco para a pancreatite.

O médico também ressalta que a própria perda de peso rápida que os medicamentos promovem pode aumentar a incidência dos cálculos, além de outros possíveis mecanismos. “Ou seja, não é só o emagrecimento, mas um efeito na dinâmica da vesícula biliar”, diz o médico.

Continua após a publicidade

Estudos têm controvérsias

Apesar do efeito adverso constar em bula, uma pesquisa conduzida por cientistas da Universidade da Virgínia Ocidental, nos Estados Unidos, publicada no ano passado, avaliou o risco de pancreatite ligado aos análogos do GLP-1 como baixo.

De acordo com os achados, na população dos Estados Unidos, o uso dos remédios em pacientes com diabetes tipo 2 não demonstrou aumento das chances de adoecimento.

Na verdade, os remédios foram associados a uma menor incidência de pancreatite nesses pacientes em comparação com pacientes que convivem com a doença sem tratamento.

Ainda assim, os pesquisadores atestam a existência de um risco, ainda que, segundo eles, mínimo. A avaliação final do estudo, assim, é de que os benefícios cardiovasculares e renais que o uso das medicações apresenta para pessoas com diabetes supera os riscos.

“O perfil de segurança dos agonistas do receptor de GLP-1 está sendo amplamente estudado, com evidências que sugerem um perfil risco-benefício geralmente favorável, embora seja aconselhável monitoramento rigoroso, particularmente para pacientes com comorbidades específicas”, conclui o estudo.

Continua após a publicidade

Por isso, o fato é que o uso dos medicamentos deve ser feito sob orientação médica e entre as pessoas que possuem indicação clínica.

Também por isso, a Anvisa destaca, em seu alerta, que o uso indiscriminado e fora das indicações autorizadas, especialmente para emagrecimento sem necessidade clínica, “eleva significativamente o risco de efeitos adversos e dificulta o diagnóstico precoce de complicações graves”.

Como saber se o pâncreas está sendo afetado e que cuidados tomar

A Agência recomenda que os usuários desses medicamentos procurem atendimento médico imediato, em caso do seguinte sintoma: dor abdominal intensa e persistente, que pode irradiar para as costas e vir acompanhada de náuseas e vômitos.

Dornelas também indica que a associação das dores abdominais com febre ou calafrios são sinais de alerta. “Podem indicar possibilidade de pancreatite e, portanto, ser uma doença severa, de potencial risco e que necessita de avaliação médica de imediato”, diz.

Além disso, a Anvisa apresenta as seguintes orientações:

Continua após a publicidade

  • Não usar agonistas de GLP-1 sem prescrição e acompanhamento médico;
  • Nunca reiniciar o medicamento caso tenha tido pancreatite confirmada;
  • Não adquirir medicamentos por fontes não confiáveis (internet, comércio informal);
  • Notificar qualquer suspeita de reação adversa no VigiMed.

Dornelas acrescenta, ainda, que pessoas que sabidamente têm cálculos de vesícula ou com histórico de consumo considerável de álcool precisam de uma avaliação médica criteriosa.

Cuidados com a medicação

“A Anvisa reforça as recomendações feitas inúmeras vezes pelas sociedades médicas de que esses medicamentos devem ser utilizados por pessoas que vivem com obesidade ou com diabetes mellitus ou com ambas as doenças”, destaca Dornelas.

Por isso, entre os cuidados, é necessário lembrar que o uso precisa de acompanhamento médico para o diagnóstico, avaliação das reais indicações e das eventuais contraindicações.

O presidente da Sbem também orienta a adquirir a medicação em fontes confiáveis, tanto quanto à sua produção, quanto à dispensa. Ele alerta que é preciso pensar questões como: quem está produzindo tem registro no Brasil e autorização da Anvisa? E a farmácia que está vendendo? Tem estrutura adequada?

Continua após a publicidade

“Portanto, para evitar riscos é preciso saber o que compra, onde compra e seguir as doses preconizadas inclusive quanto ao escalonamento progressivo sob supervisão do médico prescritor”, conclui.

Clique aqui para entrar em nosso canal no WhatsApp



Fonte.:Saúde Abril

Leia mais

Rolar para cima