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13 de fevereiro de 2026

Laísa Lima é 1ª mestre solo de bateria na Sapucaí – 13/02/2026 – Cotidiano

Laísa Lima é 1ª mestre solo de bateria na Sapucaí – 13/02/2026 – Cotidiano

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O posto de mestre de bateria é um dos mais simbólicos e tradicionalmente masculinos do Carnaval carioca. Cabe a ele conduzir centenas de integrantes, definir andamento, afinação e bossas, garantir a leitura do samba e liderar uma engrenagem que sustenta o desfile inteiro. Em mais de um século de desfiles competitivos, essa função nunca havia sido ocupada por uma mulher sozinha na Marquês de Sapucaí. Isso muda em 2026.

Aos 26 anos, Laísa Lima marca a história do Carnaval do Rio de Janeiro a estrear como mestre da Bateria Sensação, do Arranco do Engenho de Dentro, escola que vai disputar o título da Série Ouro.

Filha do sambista Laíla, um dos nomes mais influentes da história do carnaval carioca, e da ex-musa Elaine Lima, Laísa cresceu no ambiente do samba, mas atribui o feito menos à herança familiar e mais a uma trajetória construída “do chão da quadra para cima”.

Criada em Nilópolis, berço da Beija-Flor, entrou na bateria da escola ainda adolescente, em 2011, tocando tamborim. Tornou-se diretora de bateria em diferentes agremiações e passou por desfiles como mestra na Intendente Magalhães antes de chegar à Sapucaí. “Ser mestre aqui é muito diferente. É outro nível de pressão, de exposição e de responsabilidade”, diz.

Historicamente tratado como um dos cargos mais masculinos do samba, o posto de mestre de bateria só foi ocupado por uma mulher na Sapucaí de forma compartilhada. Em 2015, a ritmista Thalita Santos participou de uma comissão de mestres, sem assumir sozinha o comando. Referência nos tamborins, a quem Laísa faz questão de reconhecer como pioneira. “Ela pisou na Sapucaí como mestre antes de mim. Só que não pôde exercer a função sozinha”, afirma.

Mais do que um feito individual, Laísa insiste em tratar a estreia como parte de um movimento coletivo. “O importante é a história que a gente está escrevendo juntas.”

Ao assumir a bateria do Arranco, a mestre decidiu que a mudança não seria apenas simbólica. Formou uma diretoria majoritariamente feminina, ampliou a presença de mulheres em instrumentos tradicionalmente considerados masculinos e criou uma escolinha de percussão aberta a crianças e adultos. “Inventaram essa asneira de que mulher só pode tocar instrumento leve. Hoje eu tenho mulheres na cuíca, no surdo, no microfone. Metade das marcações são mulheres.”

Neste Carnaval, a bateria também vai incorporar pratos em momentos específicos do desfile, como parte do enredo circense da escola — novamente executados apenas por mulheres. “Não é uma característica fixa da escola, é algo pensado para esse enredo. E eu quis que fossem mulheres abriram caminho para que eu chegasse aqui. Mulheres com muito mais tempo de carreira do que eu, com muito mais bagagem, que nunca tiveram oportunidade.”

Além do Arranco, Laísa integra a direção de bateria da Beija-Flor, atual campeã do Carnaval do Rio, no Grupo Especial. A dupla atuação reforça sua presença no topo do Carnaval, mas também amplia a pressão. “É muita cobrança. Questionam por que eu entrei, dizem que foi por causa do meu pai.”

Laíla, morto em 2021 aos 78 anos por complicações da Covid, foi um dos maiores vencedores do Carnaval carioca, com 17 títulos no Grupo Especial. Teve passagens marcantes como diretor de carnaval, produtor musical e carnavalesco, especialmente na Beija-Flor, onde virou enredo que levou ao título em 2025.

A herança pesa, diz a filha, mas não define seu trabalho. “Não pensam que eu posso ser simplesmente competente. Meu pai nem era muito de incentivar para que eu levasse isso a sério, porque sabia que eu passaria por isso”.

Formada em administração, Laísa usa desses conhecimentos para gerir cerca de 200 ritmistas. A mestre diz que encontrou na gestão coletiva sua principal ferramenta de liderança. “Ser mestre não é mandar. É ouvir, explicar, construir junto. Eu tenho uma família na bateria.” Segundo ela, o maior desafio técnico está menos na música e mais na didática. “Nem todo mundo ali tem formação musical. O trabalho é fazer com que todo mundo entenda o que está tocando e por quê.”

Um vídeo do momento em que Laísa se emociona durante um ensaio, chorando enquanto rege a bateria, viralizou nas redes sociais, com mais de 100 mil curtidas. As imagens mostram a mestra emocionada diante dos ritmistas. “Eu chorei de alívio”, lembra.

O respaldo de nomes históricos do Carnaval, como mestres Ciça (Viradouro), Fafá (Grande Rio) e Casagrande (Unidos da Tijuca) também marcou o processo. Rodney, seu mestre na Beija-Flor, acompanhou um dos ensaios e, segundo ela, se emocionou. “Ele chorou e disse que não tinha que mudar nada”.

O Arranco do Engenho de Dentro desfila no sábado (14) na segunda noite da Série Ouro, na Marquês de Sapucaí. A escola levará para a avenida o enredo “A Gargalhada é o Xamego da Vida”, que transforma o terreiro de Zé Espinguela em picadeiro para celebrar Maria Eliza Alves dos Reis, apontada como a primeira palhaça negra do Brasil.

Ao contar a trajetória de uma mulher pioneira e pouco conhecida, o Arranco aposta na irreverência como afirmação de representatividade, uma narrativa que encontra eco também na bateria sob comando de Laísa.

Questionada sobre o recado que gostaria de deixar, Laísa evita discursos direcionados às mulheres. Para ela, a mensagem precisa chegar a quem decide. “As mulheres já sabem que são capazes. O recado é para os gestores: nos deem oportunidade.”



Fonte.:Folha de S.Paulo

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