Uma das grandes inimigas da felicidade é a contingência ou a fortuna, que, na filosofia, são sinônimos. O filósofo húngaro-americano John Kekes, sem tradução no Brasil, por incrível que pareça, sendo ele um dos principais filósofos em atividade na atualidade, descreve esse nosso embate estrutural com a contingência como sendo a condição humana por excelência —”condição humana” é o título de uma das suas principais obras.
Dizer que somos condicionados por algo implica dizer que nossa vida, em todas as suas dimensões, internas e externas, é limitada ou determinada, em grande medida, por esse algo —no caso, a fortuna.
Determinar essa condição humana como estrutural não implica dizer que nossa vida se esgota sob essa condição, mas, sim, que somos obrigados a levar em conta esse variável contingente o tempo todo, desde a nossa concepção no ato sexual que nos funda como seres vivos potenciais na barriga da nossa mãe.
O material genético que carregamos e nos define em grande medida é dependente do fato de que somos filhos de um homem específico e de uma mulher específica, e não de outro homem e outra mulher. Só existimos por causa desse encontro contingente entre os dois. Se essa mulher e esse homem fizessem um filho com outro parceiro ou outra parceira naquele exato momento, nós não existiríamos.
O fato de um espermatozoide “A” ter se encontrado com um óvulo “B” no corpo de uma mulher naquele exato momento é condição necessária para ter sido você a ser concebido, e não outra pessoa. Bastava não ser aquele espermatozoide “A” ou aquele óvulo “B” para que você nunca viesse a existir.
Trocando em miúdos: se sua mãe Maria não tivesse transado naquele exato momento com o seu pai José, você não existiria. Agora, imagine todas as variáveis contingentes que tiveram de acontecer para você existir.
Por exemplo, se o carro de um deles quebrasse e eles não se encontrassem? Se não vivessem no mesmo país, se não tivessem nascido na mesma época, se naquele dia a sua mãe tivesse enxaqueca, se tivessem brigado no supermercado e nada de sexo por uma semana, enfim: você vê quantas variáveis contingentes foram necessárias para você existir?
Agora, pense que a mesma linha de raciocínio se aplica a todos os homens e mulheres que tiverem de se encontrar num dado momento, com milhares de espermatozoides e milhares de óvulos em jogo, para seus pais existirem. Faça a árvore genealógica da sua família e contemple toda a gama de variáveis contingentes que trouxeram você ao mundo e fique em silêncio diante de tamanho “mistério”.
Resumindo a ópera: você vê quantas variáveis contingentes tiveram de acontecer num dado momento, num dado lugar, numa dada ocasião, para você existir? Imagine se em meio a essa teia de ancestralidade, algumas das suas ancestrais foram estupradas em meio a guerras para que você viesse a nascer 400 anos depois. Você seria capaz de dizer frases horrorosas como “graças a esses estupros eu nasci um dia”?
Agora, acrescente a essas variáveis “genéticas”, outras variáveis, históricas, geográficas, políticas, sociais, econômicas, ambientais, e você contemplará a teia de contingências que condiciona todos nós para termos nascido um dia. E não esqueça as forças cósmicas que fizeram a Terra existir.
A questão não para por aí. Uma vez tendo nascido, começam outras variáveis. Os irmãos ou não com quem você teve de conviver, o impacto que a vida do casal teve sobre você —se se separaram ou não, padrastos ou madrastas no pedaço—, se você teve uma família mesmo ou se você foi filho de mãe solteira, pobre ou rica, se havia violência doméstica em casa ou não, se você passou necessidades ou foi uma criança rica, se seu pai ou sua mãe enlouqueceu e lhe abandonou, se um dos dois, ou os dois, morreram jovens e deixaram você órfão, que tipo de temperamento você tem —lembre: temperamento é destino.
Se você viveu sob líderes políticos violentos ou não, atravessou guerras ou viveu em paraísos terrestres como a Escandinávia ou a Nova Zelândia, ou, pelo contrário, se viveu em infernos terrestres como Somália ou Gaza. Se seu país fez de você um descrente no mundo, como o Brasil, ou um crente no mundo, como a Dinamarca. Enfim, uma teia infinita de variáveis que se entrelaçaram ao longo de eras para que você viesse a nascer. O mesmo raciocínio se aplica a todos os seres humanos que já andaram na Terra.
Agora, se você for um crente, poderá dizer que Deus calculou todas essas variáveis para fazer você, e cada um de nós, existir um dia. Ou você existir ou não é mero fruto da deusa da fortuna.
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Fonte.:Folha de S.Paulo


