Sento na cadeira do barbeiro. É o mesmo barbeiro desde os meus 12 anos. É a mesma rotina também. Ele se aproxima e pergunta “como vai ser?” A resposta foi variando nesses 30 e tantos anos —corte americano, colegial, degradê suave etc. Hoje, com a alopecia avançada, digo apenas “um milagre, por favor”.
Ele faz milagres, tratando cada fio de cabelo como cientistas tratam o vírus do ebola em laboratório: com calma e delicadeza, sabendo que um gesto em falso pode ter resultados devastadores.
Mas o melhor do barbeiro não é o talento com a tesoura. São as conversas. Mulheres, futebol, alguma política, memórias de juventude —não necessariamente nessa ordem. E são as expressões também, as expressões populares da cidade do Porto, poéticas e rudes, com um sotaque impossível de reproduzir por escrito.
Na última visita, depois de me contar infelicidades várias, arrematou tudo com essa pérola teológico-linguística. “É tudo a ajudar ao pau da cruz”. Desafio qualquer escritor profissional a criar uma expressão que conjugue de forma tão perfeita o peso da cruz que carregamos e o peso que os outros nos acrescentam.
Mas voltemos às infelicidades. São domésticas e profissionais. Fico nas profissionais. Há uma máquina chinesa, disse ele, que promete roubar o trabalho dos barbeiros nos próximos anos.
Funciona assim: primeiro, a máquina tira as medidas da cabeça do sujeito —altura, largura, topografia, imperfeições; depois do reconhecimento, adapta a lâmina à caixa craniana —pente 1 aqui, pente 1,5 ali, pente 0,5 do outro lado. É o corte perfeito, concluiu ele, já se imaginando na fila da sopa dos pobres.
Comigo, não. Jamais entregaria a cabeça a uma máquina chinesa. As máquinas não têm vida, nem histórias, nem conversa. De que me serve a perfeição se eu vou à cadeira do barbeiro para conversar? Uma máquina chinesa só serviria para ajudar ao pau da cruz.
Aliás, o que vale para o exterior do crânio vale também para o que existe dentro dele. Esses dias acompanhei com fascínio o caso da colunista Natalia Beauty, que assumiu nesta Folha usar inteligência artificial na escrita dos seus textos.
Gostei da honestidade da confissão. Pensei nos argumentos. A IA é uma “ferramenta”, escreveu a colunista, que serve para “otimizar” o tempo. Beauty fornece os “pensamentos”, por comando de voz. A IA faz o trabalho “braçal” da escrita, digamos assim, exatamente como a indústria automóvel usa braços mecânicos para “soldar, montar, pintar e acelerar processos”. Qual é o mal?
Nenhum, se tivermos da escrita uma visão puramente industrial. Se tudo que interessa é “acelerar processos”, podemos aplicar aos textos da IA o mesmo critério que aplicamos à masturbação: satisfaz, sem dúvida. Mas convence?
Falo por mim: não convence. Nem como escritor, nem como leitor. Pensar e escrever não são universos distintos. Escrever também é um modo de pensar —e os pensamentos, que podem existir antes do ato, são transformados pelo processo criativo.
É isso que explica que, para muitos escritores, a escrita continuaria sendo uma necessidade vital mesmo que não publicassem uma única linha. Muitos não publicaram, ou só o fizeram modestamente, como Fernando Pessoa. Outros ordenaram a destruição dos seus inéditos em caso de morte, como Kafka ao amigo Max Brod —que, felizmente, não cumpriu esse desejo.
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Um escritor não quer otimizar o tempo; ele quer habitar o tempo por meio da escrita, da mesma forma que um pintor quer pintar ou um compositor quer compor. É uma forma de respiração.
Como diria o meu barbeiro, a principal diferença entre a masturbação e o sexo é que, no sexo, há mais convivência. Sábio homem. Escrever é conviver conosco mesmos.
Na leitura, a mesma coisa: ler é conversar com o autor. É imaginar um rosto humano por trás de cada página; imaginar a vida, a angústia, a alegria, os impasses, os delírios de quem juntou aquelas palavras com arte e engenho.
Como dizia C.S. Lewis, lemos para saber que não estamos sós. Para um leitor genuíno, não basta o texto; é preciso o pretexto que o tornou possível. Se não existe ninguém do outro lado, é como olhar para um espelho que não nos devolve o reflexo.
A inteligência artificial, como ferramenta, pode ter a sua importância editorial —corrigindo, sugerindo, lapidando, sobretudo quando são raros os editores que ainda fazem esse serviço. Mas um texto literário gerado por IA é diferente de um texto escrito por alguém de verdade, mesmo que ambos usem palavras. É como beijar: podemos beijar uma estátua. Mas eu ainda prefiro os lábios quentes de um ser humano.
Fonte.:Folha de S.Paulo


