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17 de fevereiro de 2026

Por que as canetas emagrecedoras entraram no radar da reumatologia?

Por que as canetas emagrecedoras entraram no radar da reumatologia?

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Durante décadas, a osteoartrite foi tratada como uma doença ligada ao tempo e ao uso excessivo das articulações. Um processo de desgaste inevitável, marcado por dor progressiva e poucas alternativas além de analgésicos, fisioterapia e, nos casos mais avançados, cirurgia.

Essa narrativa, no entanto, começa a mudar à medida que a ciência reconhece que a artrose, especialmente em pessoas com obesidade, também carrega um forte componente metabólico e inflamatório.

Não é um detalhe menor. Estimativas do Instituto de Métricas e Avaliação em Saúde (IHME), da Universidade de Washington, indicam que cerca de 1 bilhão de pessoas viverão com osteoartrite até 2050.

Em paralelo, a obesidade avança em ritmo semelhante, criando um terreno fértil para a progressão da doença articular e para novas estratégias de cuidado que ultrapassem a lógica do “desgaste puro e simples”.

Como os agonistas de GLP-1 podem influenciar dor e função

É nesse cenário que entram os agonistas do receptor de GLP-1 ou como são conhecidas popularmente as “canetas emagrecedoras”.

Criadas para o tratamento do diabetes e, mais recentemente, da obesidade, essas medicações passaram a chamar a atenção da reumatologia não por regenerarem cartilagem, mas por algo mais direto: atuar sobre o peso corporal e a inflamação sistêmica, dois fatores centrais na dor e na limitação funcional da artrose associada à obesidade.

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O estudo que colocou esse debate no centro da mesa foi publicado em 2024 no New England Journal of Medicine. A pesquisa acompanhou, por mais de um ano, pacientes com obesidade e osteoartrite moderada a grave de joelho em uso de semaglutida.

O resultado foi claro: perda de 10% a 13% do peso corporal e redução da dor, superior à observada no grupo placebo. O dado ganha ainda mais peso quando se considera que um em cada três brasileiros vive com obesidade, segundo o Atlas Mundial da Obesidade.

Os limites e as evidências atuais sobre as canetas emagrecedoras

Os números são relevantes, mas não devem ser interpretados de forma simplista. A melhora da dor não transforma a semaglutida, ou qualquer outro agonista de GLP-1, em um tratamento direto da osteoartrite. O que esses medicamentos fazem, na prática, é atacar um dos principais combustíveis da doença: a sobrecarga mecânica e a inflamação crônica associadas à obesidade.

Um dado publicado esse ano na Frontiers in Pharmacology reforça que os agonistas de GLP-1 parecem melhorar dor e função em pacientes com artrose de joelho, sobretudo naqueles com obesidade. Mas os próprios autores fazem um alerta: os estudos ainda são poucos e o tempo de acompanhamento, limitado.

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Existe, sim, a hipótese de um efeito anti-inflamatório adicional. Estudos experimentais sugerem que essas drogas reduzem citocinas pró-inflamatórias, modulam adipocinas e influenciam células do sistema imune, como os macrófagos.

O problema é que, até agora, não há evidência concreta de tal efeito diretamente na articulação, independente da perda de peso, em humanos com osteoartrite. Em outras palavras: o benefício existe, mas é predominantemente metabólico.

Para quem essa estratégia faz mais sentido

Essa constatação, longe de diminuir a importância da estratégia, ajuda a colocá-la no lugar certo. A perda de peso é um dos fatores mais poderosos na prevenção e no controle da progressão da artrose, especialmente nos joelhos e quadris.

Estudos mostram que emagrecer melhora dor, função e reduz o risco de piora estrutural da doença ao longo do tempo. Ignorar esse dado é tratar apenas o sintoma, não o contexto.

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Ainda assim, essa abordagem não é para todos. Faz mais sentido considerar essas medicações em pacientes com osteoartrite de joelho (e possivelmente de quadril), obesidade e comorbidades metabólicas, como diabetes tipo 2, pré-diabetes ou alto risco cardiovascular.

As contraindicações conhecidas permanecem, e há cautela adicional em pessoas com osteoporose, risco de fraturas ou perda de massa muscular.

+Leia também: Liberte-se da artrose: a atividade física se tornou chave no tratamento

As canetas emagrecedoras substituem o tratamento convencional?

O ponto importante, porém, é deixar algo muito claro: as canetas emagrecedoras não substituem o tratamento convencional da osteoartrite. Fisioterapia, fortalecimento muscular, exercícios aeróbicos de baixo impacto, analgésicos, infiltrações e manejo das comorbidades continuam sendo pilares inegociáveis.

É provável que, nos próximos anos, as diretrizes passem a incorporar os agonistas de GLP-1 como parte desse arsenal, não como “remédio para cartilagem”, mas como ferramenta para reduzir dor, melhorar função e devolver qualidade de vida. Talvez essa seja uma virada de chave. Entender que, quando o metabolismo melhora, a articulação agradece.

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*Fábio Jennings, reumatologista e coordenador da Comissão de Mídias da Sociedade Paulista de Reumatologia (SPR).

 



Fonte.:Saúde Abril

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