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- Author, Alicia Hernández
- Role, BBC News Mundo
Tempo de leitura: 9 min
Uma visão luminosa de Nicolás Maduro e sua esposa Cilia Flores brilhou sobre Caracas no céu noturno, em janeiro.
A luz firme de centenas de drones em um show organizado pelo governo da Venezuela ergueu a imagem do casal em frente às nuvens. Em seguida, os drones se redispuseram para pedir seu retorno:
El pueblo los reclama, dizia a mensagem, em espanhol. “O povo os quer de volta.”
Desde a operação relâmpago dos Estados Unidos, que levou o presidente deposto e sua esposa para fora do país no dia 3 de janeiro, a Venezuela se encontra em um limbo.
A vice de Maduro e, agora, presidente em exercício Delcy Rodríguez vem pedindo o retorno de Maduro e Flores ao país. Mas não há sinais de que isso vá acontecer.
O ex-primeiro-casal da Venezuela segue no Centro de Detenção Metropolitano do Brooklyn em Nova York, nos Estados Unidos. Eles aguardam julgamento por supostos crimes, incluindo tráfico de drogas. O casal nega todas as acusações.

Crédito, Prefeitura de Caracas
Rodríguez é leal a Maduro, mas precisa manter um delicado equilíbrio.
Ao mesmo tempo em que apela à sua base socialista, mantendo seu apoio a Maduro com sua retórica anti-imperialista, ela vem alterando políticas do país devido às pressões do presidente americano, Donald Trump, que a ameaçou de ter o mesmo destino de Maduro, “se não fizer o certo”.
“Trump indicou que a Venezuela, agora, é um protetorado dos Estados Unidos e, por isso, ela atende à vontade do presidente americano”, segundo o pesquisador sobre América Latina Christopher Sabatini, do centro de estudos britânico Chatham House.
“Ela também é investigada pela DEA [a Agência de Combate às Drogas dos EUA]”, prossegue ele.
“Não há condenação, nem um prêmio pela sua cabeça, nem indiciamento, mas a ameaça está presente. A ameaça é ‘temos provas contra você’.”
A BBC entrou em contato com a DEA em busca de comentários, mas não recebeu resposta.
Rodríguez caminha no momento por uma corda bamba diplomática.
“O presidente Maduro já havia alertado sobre um ataque desta natureza, devido ao desespero dos Estados Unidos e sua voracidade por energia”, afirmou Rodríguez na sua primeira declaração após a operação.

Crédito, Reuters
No seu primeiro discurso como presidente na Assembleia Nacional venezuelana, em 16 de janeiro, Rodríguez criticou o que chamou de “expansão imperialista dos Estados Unidos”. E, no mesmo dia, a presidente se reuniu com o diretor da CIA (a agência de inteligência americana) John Ratcliffe em Caracas.
Também entramos em contato com Delcy Rodríguez com um pedido de comentários.
“A legitimidade de Rodríguez depende do poderio militar dos Estados Unidos. E ela irá durar enquanto Trump assim quiser. Ela não pode fazer frente a ele”, explica a analista política venezuelana Carmen Beatriz Fernández, CEO (diretora-executiva) da empresa de consultoria política DataStrategia.
Por quanto tempo Rodríguez poderá manter essa ação dupla, mantendo a esquerda venezuelana e o governo dos Estados Unidos ao seu lado? E, se ela precisar escolher, será uma escolha difícil ou um dos lados obviamente detém o poder?
‘Ianques, voltem para casa!’
A capital da Venezuela, Caracas, tem cerca de três milhões de habitantes. Ela está repleta de faixas pedindo a volta de Maduro e denunciando o intervencionismo dos Estados Unidos.
“Ela está mantendo a comunicação da melhor forma possível e estabelecendo orientações para que o país continue a funcionar, apesar do sequestro”, explica à BBC o servidor civil Leonardo Arca, de 39 anos, durante uma pequena marcha a favor do governo em Caracas, no mês de janeiro.
Estas exibições públicas pedindo o retorno de Maduro normalmente são organizadas pelo governo. E é comum que os patrões digam aos seus funcionários que compareçam.
Ele carrega uma faixa que diz “Cilia Livre”. Outras pessoas trazem cartazes com os dizeres “ianques, voltem para casa” ou “traga-os de volta”, em inglês.

Desde que Maduro e Flores foram detidos, a impressão é que anos de mudanças foram concentrados em algumas semanas.
O superpoder do chavismo — a ideologia política de esquerda que sustentou os governos de Hugo Chávez (1954-2013) e de Maduro como seu sucessor — é que ele pode mudar rapidamente de curso para manter o presidente no poder, seja ele quem for.
Ao assumir seu mandato “temporário”, Delcy Rodríguez — chavista por toda a vida — nomeou basicamente tecnocratas, não ideólogos. É uma indicação da necessidade de pragmatismo nesta entrada do país em uma nova era.
Além de aprovar uma lei que abre o caminho para que as empresas petrolíferas americanas comecem a trabalhar na Venezuela, Rodríguez também permitiu a libertação de diversos políticos e defensores dos direitos humanos, que estavam presos há meses ou anos.
A oposição afirma que isso só aconteceu devido à pressão dos Estados Unidos e destaca que muitos prisioneiros políticos continuam na prisão.
Trump já se referiu a Rodríguez como “uma pessoa maravilhosa” e “alguém com quem trabalhamos muito bem”.
Já Rodríguez admitiu que houve ligações telefônicas e afirmou que o tom é “cortês” e de “respeito mútuo”.
O presidente americano também reconheceu as dificuldades diplomáticas enfrentadas por Rodríguez.
Questionado por um repórter sobre sua opinião a respeito das declarações da líder venezuelana, de que Maduro ainda é o presidente legítimo do país, Trump minimizou a questão, dizendo “acho que provavelmente ela precisa dizer isso”.
A escalada das pressões
Delcy Rodríguez vem evitando comentários inflamados sobre Donald Trump.
Mas ela já usou linguagem profundamente enraizada na oposição comunista da América Latina ao expansionismo norte-americano, ao se referir aos Estados Unidos como “potência nuclear letal”, “invasor” e “imperialista”.
Para o analista Phil Gunson, do centro de estudos Grupo Internacional de Crises, “Washington precisa entender que ela precisa manter esta retórica. É uma forma de reafirmar a coesão com o projeto chavista, mesmo sabendo que ela não é real.”
Todos os especialistas consultados pela BBC concordam que as pressões e ameaças dos Estados Unidos a Delcy Rodríguez e à Venezuela são reais.
“A pressão americana pode se escalar”, afirma a cientista política venezuelana Ana Milagros Parra.
Ela afirma que as opções dos Estados Unidos podem incluir o aumento da intervenção em território venezuelano, novas sanções econômicas e mais bloqueios ao petróleo.
Rodríguez precisa continuar satisfazendo os chavistas tradicionais, mas eles representam apenas 15 a 20% da sociedade venezuelana. E existem muitas pessoas na Venezuela que nunca apoiaram Nicolás Maduro.
Durante seus 13 anos no poder, Maduro viu sua popularidade se desvanecer.
Sua vitória nas eleições presidenciais de 2024 foi questionada devido às muitas acusações internacionais de fraude.
As atas da oposição, coletadas pelos seus observadores e avaliadas de forma independente, mostraram que seu candidato, Edmundo González, conquistou 67% dos votos, contra 30% de Maduro, que assumiu o governo reivindicando a vitória com 53% dos votos.
Mais de 7,9 milhões de venezuelanos deixaram o país desde 2014. Destes, o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur) contabiliza 6,5 milhões como refugiados.
Estes números demonstram a escala da crise civil e econômica enfrentada pelo país.
“Este não foi um governo popular”, segundo Sabatini. “A maioria dos venezuelanos se sente mais otimista sobre sua destituição.”
Existe um fator importante que pode jogar em favor de Rodríguez: a promessa de uma trégua para a economia venezuelana, que enfrenta dificuldades há muito tempo.
A inflação do país é, de longe, a maior do mundo. 86% dos venezuelanos viviam na pobreza em 2024, segundo o Observatório Venezuelano das Finanças. E os alimentos são extremamente caros no país.
Pesquisas realizadas em 2025 concluíram que uma cesta básica composta de 60 produtos de uso diário custa na Venezuela o equivalente a US$ 526,83 (cerca de R$ 2.760).
Assolados por anos de hiperinflação, os venezuelanos esperam que os investimentos norte-americanos reduzam a crise.
Mas, com o firme foco na indústria petrolífera demonstrado até agora por Washington, não se sabe ao certo quais benefícios chegarão ao trabalhador médio do país — e quando.
Os ‘colectivos’
Delcy Rodríguez também precisa manter um delicado equilíbrio com os militares, que são leais a Nicolás Maduro.
O ministro do Interior da Venezuela, Diosdado Cabello, detém grande poder e Rodríguez o trata com cautela.
“Ele lidera não só uma guarda nacional ou as forças armadas profundamente corruptas, mas também um grupo desorganizado de paramilitares conhecido como los colectivos… Eles são as tropas de choque destacadas para ameaçar manifestantes”, explica Sabatini.
“Este é, por assim, dizer, o exército privado de Cabello. O prêmio pela sua captura nos Estados Unidos é de US$ 25 milhões”, cerca de R$ 131 milhões.
A BBC entrou em contato com Cabello com um pedido de comentários.

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O prêmio pela captura de Cabello mostra que os Estados Unidos o mantêm na sua mira. Ainda assim, ele e Rodríguez aparecem juntos em eventos, em uma aliança desconfortável.
“Existe uma teoria que diz que eles estão brincando de ‘policial bom, policial mau'”, destaca Sabatini.
“Ela sabe que precisa dele para manter as forças de segurança ao seu lado… mas, desde que elas não interfiram com sua intenção de atrair investidores e a maior parte dos elementos do governo Trump, ele serve aos seus propósitos.”
Apesar dessa tentativa massiva de equilíbrio e de todo o poderio norte-americano, alguns defendem que Rodríguez não é tão impotente contra Trump, como pode parecer à primeira vista.

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Para Sabatini, Trump está ansioso para que o mundo veja a retirada de Maduro como um sucesso absoluto.
“Trump quer ver a Venezuela prosseguindo no caminho atual. Ele não quer que nada contradiga a narrativa de que tudo está às mil maravilhas. Trump não quer ver o ‘circo pegar fogo’, por assim dizer.”
Por isso, “ela tem algum poder sobre Trump, que a maioria das pessoas não percebe. Ela não é apenas uma parceira secundária”, segundo Sabatini.
“É uma parceria mais igualitária do que Trump gostaria que fosse.”
Uma nação dividida
Divisões existentes no próprio governo dos Estados Unidos também poderão ter fortalecido o poder de Rodríguez.
O secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, tem uma agenda explicitamente anticomunista e se acredita que ele deseje a derrubada do governo venezuelano.
“Rubio… fala regularmente com a oposição, que não está satisfeita”, explica Christopher Sabatini. “Existem focos de descontentamento.”
“Rubio e os outros irão forçar a antecipação das eleições, mas é ela quem decide quando elas irão acontecer.
E, quanto melhor estiver a situação na Venezuela, maior a probabilidade de que Rodríguez convoque eleições.
“Ela quer esperar a economia se reerguer para poder competir e, possivelmente, vencer”, destaca Sabatini.
De fato, este pragmatismo faz parte do DNA político de Delcy Rodríguez.
“O chavismo é pragmático”, segundo Phil Gunson. “Seu principal objetivo é sobreviver, manter o poder e a riqueza.”
Para Ana Milagros Parra, “eles se dobram para não quebrar”.
E, aparentemente, isso significa que, mesmo contra todo o poderio de Trump, Rodríguez não está totalmente destituída de poder.
Com colaboração de Nicole Kolster, de Caracas.
Fonte.:BBC NEWS BRASIL


