Comer é um ato político. Mais do que alimento, a comida é também meio de comunicação. Ela fala sobre valores, pertencimentos e desigualdades —seja na esfera privada, seja na pública.
A composição de um prato revela os sistemas sociais nos quais ele foi gerido. Condicionamentos e condições falam mais alto do que gostos e paladares, afinal, toda refeição é produto da cultura colhida em seu território e criada por sua gente.
Quem explica isso é Joana Monteleone, autora de “Toda Comida É Política” (Alameda Editorial). A coletânea de crônicas e textos é resultado da dedicação de mais de dez anos da autora ao tema da alimentação.
Formada em história, ela transformou o interesse precoce pela cozinha, herdado da avó e da mãe, em eixo de pesquisa. Mergulhou no tema para sua dissertação de mestrado sobre a alimentação na São Paulo do século 19 e, depois, em seus livros “Sabores Urbanos” (Alameda Editorial) e “Toda Comida Tem uma História” (Oficina).
A política a que a historiadora se refere no novo livro é a compreensão das ações e decisões que interferem no cotidiano e, consequentemente, no prato que chega –ou não– à mesa das pessoas. “As sociedades são políticas, e as comidas dentro das sociedades também são”, diz em entrevista à Folha.
Monteleone trata a comida como uma cadeia complexa de poder: produção, circulação, acesso. Dentro e fora da cozinha, a comida organiza essas dinâmicas que muitas vezes passam despercebidas. Segundo a historiadora, “quem cozinha controla, mas também é controlado pelo sistema alimentar”.
Para ilustrar essa ideia, ela cita o filme “Estômago”, do diretor Marcos Jorge. Nele, o cozinheiro Nonato, interpretado por João Miguel, tem como único capital o poder de alimentar, com todas as suas implicações. “Saber comer —e fazer comer— é saber ocupar o espaço social”, escreve Monteleone.
Esse poder pequeno e cotidiano, porém, convive com forças muito maiores, como a indústria alimentícia, o sistema agrícola e as grandes corporações que determinam o que é produzido, vendido e consumido.
Mas foi este pequeno poder o relegado às mulheres, prendendo-as à cozinha ao longo dos séculos. Desde mulheres escravizadas até empregadas domésticas e donas de casa, tarefas ligadas ao preparo da comida foram atribuídas às mulheres: “Se ela não fizer a comida, ninguém come. Mas o homem continua sendo o rei da casa”, explica Monteleone.
A sopa de pedra, mencionada no livro, ilustra o poder de quem organiza os ingredientes. Na história, transmitida oralmente em diferentes regiões da Europa, um viajante recém-chegado a uma cidade afirma que fará uma sopa de pedra. Ele começa o preparo apenas com esse ingrediente, mas logo afirma que a comida ficaria ainda melhor com um pouco de cenoura. Daí, um morador local lhe dá cenouras.
Em seguida, ele sugere que batatas também cairiam bem, e elas lhe são trazidas. A mesma coisa acontece mais algumas vezes. A cada nova sugestão, os habitantes contribuem com mais ingredientes. Ao final, a sopa de pedra se transforma em uma refeição satisfatória, construída coletivamente e partilhada por todos.
Monteleone vê nessa história a resposta para os problemas que atravessam as questões ligadas a comida e alimentação. O senso comunitário presente no conto é, para ela, a solução para a fome que assola o Brasil e o mundo.
Tudo a Ler
Receba no seu email uma seleção com lançamentos, clássicos e curiosidades literárias
“A comida divide mais do que une, porque a desigualdade social se traduz também em uma desigualdade alimentar. É só observar o que cada classe social come”, aponta.
A utopia gastronômica, então, seria comida boa, limpa e acessível para todos. E que, nas palavras de Monteleone, “respeitasse as escolhas e os frutos do território”.
Fonte.:Folha de São Paulo


