Apesar de a Suprema Corte dos Estados Unidos ter barrado as tarifas americanas amplas impostas pelo presidente Donald Trump, produtos como aço e alumínio não foram afetados pela decisão e continuarão sobretaxados, segundo especialistas em comércio exterior.
Isso porque as taxas adicionais cobradas sobre esses produtos específicos estão amparadas em outra legislação, a Seção 232, que permite impor tarifas por razões de segurança nacional.
Até o final do ano passado, os produtos sujeitos à Seção 232 eram responsáveis por 27% das exportações brasileiras aos EUA, o equivalente a quase US$ 11 bilhões (R$ 57,2 bilhões), segundo dados do Mdic (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços).
Entre esses produtos, estão aço, alumínio, cobre, madeira e móveis, aponta Welber Barral, fundador da consultoria BMJ, consultor em comércio internacional e ex-secretário de Comércio Exterior. “A Seção 232 não foi afetada pela decisão da Suprema Corte”, afirma.
A mais alta corte dos Estados Unidos derrubou nesta sexta-feira (20) as tarifas que tinham como base a IEEPA (sigla em inglês para Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional), que concede ao presidente poderes para regular transações econômicas em resposta a ameaças externas incomuns e extraordinárias à segurança econômica do país.
Diretora do Brazil Institute, Bruna Santos avalia que os perigos para as relações comerciais entre Brasil e EUA permanecem. Trump ainda possui outros instrumentos que, embora não possam ser utilizados na “mesma velocidade”, fazem com que ele atinja os mesmos objetivos. Entre eles, ela cita a investigação pela USTR, o escritório do representante comercial norte-americano.
“Se sai de um cenário de caos para um cenário de caos institucionalizado, mas os riscos de fragmentação regulatória e de judicialização seguem”, afirma Santos.
O Cato Institute também afirma que a legislação dos EUA oferece outras ferramentas que passaram em grande medida despercebidas, como a Seção 122 e Seção 338.
De acordo com Barral, o último cálculo do Mdic mostra que 22% das exportações brasileiras para os Estados Unidos ainda estavam afetadas pela IEEPA.
Lia Valls, pesquisadora associada do Ibre (Instituto Brasileiro de Economia) da FGV, diz que a decisão é importante para o comércio internacional. “É uma forma de dizer: há limites, não se pode ir aumentando as tarifas de qualquer forma.”
Em viagem à Ásia, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou que o Brasil “se comportou diplomaticamente da maneira mais correta”.
“Acreditou no diálogo, acreditou na disputa pelos canais competentes. Na contestação pelos canais competentes. Tanto na OMC quanto no judiciário americano. Estabeleceu uma relação diplomática, uma conversa direta para falar de temas relevantes. Então, o Brasil, do ponto de vista da sua relação bilateral, ele agiu de uma forma impecável. Essa é a verdade. Dito isso, o efeito imediato, evidentemente, é favorável aos países que foram sancionados.”
SETORES BENEFICIADOS
Segundo especialistas, a decisão da Suprema Corte favorece fabricantes de produtos industrializados.
No ano passado, quando anunciou a imposição de tarifas sobre produtos de diversos países, incluindo o Brasil, Trump chegou a rever medidas conforme os preços foram se ajustando no mercado norte-americano.
Foi o caso do fim da sobretaxa de 40% sobre os principais produtos agropecuários exportados aos EUA, como carne, café e frutas. Determinados produtos de bens industriais, como alguns químicos e peças e partes de aeronáutica, também entraram na segunda leva de revisões —a maior parte deles já não recebia os 10% de tarifa impostos a todos os países.
Um levantamento da consultoria BMJ, feito ainda no calor dos anúncios do tarifaço, projetava uma perda de US$ 3 bilhões (R$ 15,6 bilhões) por ano em exportações brasileiras. Os produtos industrializados seriam os mais penalizados, com uma perda mensal de US$ 69,8 milhões (R$ 362,9 milhões).
Fonte.:Folha de S.Paulo


