
O ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), tornou-se o centro de uma disputa de poder que envolve diretamente a Corte e o Palácio do Planalto. Uma eventual saída de Toffoli abriria espaço para que Lula nomeasse um substituto potencialmente mais alinhado aos interesses do governo, ao mesmo tempo que fragilizaria o Supremo e estimularia novas investidas contra a Corte.
O Senado desponta como um terceiro ator importante nesse tabuleiro de interesses políticos. O presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP), vem retardando a sabatina de Jorge Messias, indicado por Lula para a vaga deixada por Luís Roberto Barroso, em meio ao interesse de emplacar seu aliado e amigo pessoal, Rodrigo Pacheco (PSD‑MG), no STF. A abertura de uma nova cadeira, caso Toffoli deixasse o tribunal, permitiria que Lula acomodasse simultaneamente Messias e Pacheco, atendendo a todos os interessados.
A pressão sobre Toffoli intensificou-se após a Polícia Federal produzir um relatório de cerca de 200 páginas mencionando possíveis conexões entre o ministro e o empresário Daniel Vorcaro, principal figura do Banco Master. O documento foi entregue pessoalmente ao presidente do STF Edson Fachin pelo diretor‑geral da PF, Andrei Rodrigues, nome escolhido por Lula, o que ampliou a dimensão política do episódio dentro e fora da Corte.
A hipótese de que o Planalto poderia se beneficiar de uma possível saída de Toffoli ganhou ainda mais força após reportagem do Poder360 revelar bastidores da reunião que resultou no afastamento do ministro da relatoria no processo que investiga o Banco Master. Segundo o jornal, o ministro Cristiano Zanin teria afirmado que votaria a favor de Toffoli e estaria “contra os interesses do Palácio do Planalto”, reforçando leituras políticas sobre eventuais tensões entre governo e Corte.
Bastidores do STF revelam “interesse do Planalto” pela saída de relatoria de Toffoli
Se por um lado Lula poderia garantir aliados mais fiéis na composição do STF, por outro a ciência política mostra que a proximidade entre presidentes e seus indicados costuma diminuir com o tempo. Os ministros, uma vez no STF, tendem a desenvolver trajetória própria, independentemente de afinidades políticas iniciais. Tanto o suposto desconforto de Zanin com pressões do Planalto quanto o histórico de Toffoli ilustram esse padrão.
Embora tenha sido indicado por Lula em 2009, Toffoli tomou decisões que contrariaram interesses do governo e do próprio ex-presidente anos depois. Um dos episódios mais marcantes ocorreu em 2019, quando Toffoli demorou para autorizar a saída de Lula, então preso em Curitiba, para comparecer ao velório de seu irmão Genival Inácio da Silva, conhecido como Vavá.
Para Ricardo de João Braga, doutor em Ciência Política pela UnB, o cálculo político em torno de uma eventual saída de Toffoli é complexo. “Não me parece que Lula tenha carinho por Toffoli. O ministro não está alinhado aos interesses do PT hoje e se posiciona muito mais de acordo com as forças internas do próprio Supremo. Olhando o valor de face, Lula aparentemente ganharia ao poder indicar mais um membro ao Supremo, caso Toffoli saísse”, afirma.
Katia Magalhães, advogada especialista em responsabilidade civil, acrescenta que a movimentação demonstraria um possível trabalho de Lula em prol da transparência na Corte e render alguns dividendos eleitorais. “A remoção de Toffoli e a retirada de apoio de Lula e da esquerda ao ministro poderia favorecê-los na corrida eleitoral de 2026. Lembrando que tivemos deputados psolistas e do partido Rede, há pouco tempo, pedindo suspensão de Toffoli no caso Master”, esclarece.
Especialistas apontam erosão institucional e disputa sem freios
Braga avalia que um possível impeachment de Toffoli quebraria o cenário de blindagem estabelecido pelo Judiciário. “Até hoje, ministros do STF são intocáveis. Não se investiga, não se pune, não se toca. Quem pode fazer isso é o Senado Federal através de um impeachment de ministro. Teoricamente, seria o sistema funcionando [caso o Senado agisse]”, aponta. Ele pondera, porém, que o comportamento político atual não oferece garantias de racionalidade institucional.
Sobre uma possível barganha envolvendo Alcolumbre, Braga é cético. “Não acredito que uma possível indicação de Rodrigo Pacheco acalmaria o Alcolumbre. Isso por uma razão simples: políticos têm apetite insaciável. Se o Alcolumbre não engoliu a indicação do Messias, eu não sei se outra vaga seria suficiente para apaziguar os ânimos”, complementa.
Ambos os especialistas concordam que o Brasil vive um processo contínuo de degradação institucional, no qual atores públicos — dos Três Poderes — priorizam disputas de poder em detrimento da autocontenção e do interesse coletivo. Nessa dinâmica, regimentos internos, normas fiscais e limites constitucionais tornam-se frequentemente objetos de flexibilização estratégica.
“Um possível impeachment abriria a porta para uma rotatividade de ministros que pode se transformar em algo perigoso, independente da qualidade que eles tenham ou não”, acrescenta Braga. Para Magalhães, apesar do risco, haveria um lado positivo no exercício do controle institucional pelo Senado. “Depois de tantos anos, começa-se a abrir, eu diria, uma janela de oportunidade para retomar a nossa liberdade, a democracia e o verdadeiro Estado de Direito”, conclui.
Fonte. Gazeta do Povo


