A lenda conta que Superagui era filha de uma indígena com um pescador branco. Fruto de um relacionamento proibido, a menina nunca foi aceita no vilarejo e acabou morrendo solitária. Depois de morta, aparecia para os pescadores oferecendo fartura em peixes para quem concordasse em lhe dar a sua cria. A “rainha dos peixes” não conseguiu levar a cabo o plano nenhuma vez, e dizem que se você desenhar uma criança na areia em noites de lua cheia e repetir o nome dela três vezes, ela sai do mar e te traz fartura.
Eu levei as minhas crias pra conhecer Superagui, a ilha que visitamos há vinte anos, quando eles não existiam nem em pensamento. Fica no Paraná, município de Guaraqueçaba. Só se chega de barco, a partir de Paranaguá, que fica a 90km de Curitiba.
Agendamos a travessia com um barqueiro indicado pelo amigo de uma amiga. Saímos pela manhã, porque dizem que o mar fica mais calmo. Esqueceram de avisar o mar. Uma hora sacolejado de barco, passando pelo Porto de Paranaguá, Ilha do Mel e Ilha das Peças pra, enfim, chegar em Superagui.
Estranhamente, a ilha não tem trapiche. Os barcos se aproximam da beira da praia e você pula tomando cuidado pra não molhar as bagagens. No nosso caso, quatro mochilas pequenas, mas teve gente com mala de rodinha, cooler etc.

A Pousada Maresia fica a uma caminhadinha de 500 metros pela beira da praia. A escolha foi fácil, pois era a única no carnaval que tinha quartos com ar condicionado. Um luxo sem precedentes pra Superagui. A localização também é ótima porque fica longe de qualquer possibilidade de barulho (alguns bares e restaurantes próximos do “centro” tem música até mais tarde) e na área da praia que não tem mais tantos barcos, o que é melhor pra mergulhar. Pé na areia, com redinhas pra relaxar, e o destaque é o café da manhã preparado em cestinhas prontas pra irem pra beira do mar.
Eu estava muito curiosa pra ver se Superagui continuava a mesma depois de tanto tempo. Mudou, mas não muito. Pelo que me contaram, são 30 pousadas agora. Todas super simples e com poucos quartos. Vi mais opções de restaurantes também. Fomos direto ao Tropical, bom e barato. Prato feito de peixe por 30 reais e cerveja geladíssima. Depois caminhamos um pouco pela vila, investigando mercadinhos, sorveteria e bares, até acharmos o Akdov!

O Bar Akdov tem mais de 40 anos, e no carnaval é uma experiência muito diferente. Fiquei feliz de ver que ele ainda está ali, firme e forte, “resistindo como a cultura caiçara” – você consegue até comprar camisetas com a marca (e a frase). A banda ainda toca exclusivamente o fandango, e a mistura de públicos garante um baile muito maluco. Morremos de rir com os mascarados dançando com pessoas de todas as idades, e alguns turistas com fantasias típicas de carnaval dando mais um tempero.

A tradição em Superagui é assustar os visitantes no carnaval. Originalmente eram máscaras feitas de barro, depois sacos de arroz ou de lixo. Há vinte anos, já havia máscaras de plástico e agora é surpreendente como estão paramentados. Me admira ver uma tradição tão antiga se manter e os moradores daquele lugar não se renderem as marchinhas e odaliscas da data.
Eu, o Fábio, o marido, e as cataias (bebida típica da região, uma cachaça curtida na erva cataia: a folha que queima, em tupi-guarani) ficamos por ali e as crianças iam e vinham. Umas das maravilhas dessa viagem foi libertar meus dois adolescentes pra circular sem um tiquinho de medo. Os dois andavam sozinhos em qualquer horário. A caminhada do Akdov pra pousada é de uns 15 minutos pela praia escura, com chance de cruzar com um monstro mascarado.


No segundo dia, alugamos quatro bikes e fomos até a praia deserta. Uns seis quilômetros pedalando e você dobra a esquina da ilha (isso foi genial) pra uma imensidão de mar e areia. Há realmente uma praia deserta no carnaval! A volta foi pela trilha, um pouco mais curta (3km) e confortável do que pedalar na areia, mas parte do caminho estava alagado e deu um medinho de cobra. Leve muita água, protetor solar e repelente pra esse rolê. As bikes custam 50 reais por três horas ou 80 reais pro dia inteiro, e você aluga na igreja (sim). Há quem vá até Ararapira, a antiga cidade fantasma que não pode mais ser chamada de cidade fantasma (um morador nos alertou), mas seriam mais uns 20km à frente. Não teríamos pernas. Fica pra próxima.

Na manhã seguinte, o plano era fazer um passeio de barco até a Reserva Ecológica do Sebuí e conhecer suas três cachoeiras, depois almoçar em Barbados e seguir para a Ilha dos Pinheiros pra ver a revoada dos papagaios de cara roxa. De barco até o Sebuí leva uns 50 minutos. Você desce em um pequeno trapiche e caminha sobre uma passarela em cima do mangue até a sede da reserva. Divertido ver os mil caranguejos embaixo de você (divertido porque há uma ponte entre você e eles).

Na sede da reserva há banheiros e até possibilidade de hospedagem, o que deve ser bem interessante. É possível almoçar ali também se avisar com antecedência. Dali, a trilha é de cerca de três quilômetros até a cachoeira mais distante. Fomos à duas, Graciosa e Biguá. A Preciosa era morro acima e não nos recomendaram em função da chuvarada da véspera. Pra acessar as outras duas já foi com emoção e tombos (meus, claro). Ainda assim, valeu a pena. Paisagens lindas e banhos de cachoeira inesquecíveis.

De volta ao barco, seguimos até Barbados, uma vila de pescadores na outra ponta da ilha de Superagui. Eu lembrava muito da nossa primeira visita nesse lugar, porque ali eu ouvi de um morador uma frase que marcou. Surpreso por eu viver em São Paulo, ele comentou que havia tentado mudar pra Superagui, mas achou muito movimentado. Há 20 anos, havia só cinco casas, além da igreja e da quadra de futebol. Agora são 30 casas e cerca de 80 moradores. Já tem até briga, me disse o moço do restaurante. Eu quis muito saber se o morador que falou comigo naquela ocasião ainda estaria ali, ou se teria saído em busca de um lugar mais tranquilo (contém ironia). Bom, em Barbados se vai para comer, e nós cumprimos bem com o combinado. Por apenas 70 reais por pessoa, mandamos ver em camarão, ostra, siri e caranguejo até cansar.

Um detalhe: Barbados tem trapiche. O dono do restaurante disse que é por causa das festas.
A visita na ilha dos papagaios foi cancelada porque, segundo informações, os papagaios não estavam mais lá. Se mudaram e ainda não se sabe pra onde. Voltamos pra pousada e deu tempo de dar uns lindos mergulhos no pôr do sol a poucos metros dos golfinhos. Eles ficam muito próximos à beira da praia dando um show emocionante.
Sem papagaios e com golfinhos, fomos pra cama cedo porque o plano era pegar o barco de volta à Paranaguá na manhã seguinte.
Por sorte, há vinte anos ficamos do início ao fim com o mesmo barqueiro. Uma convivência que nos fez lembrar dele por muitos anos e foi uma grata surpresa reencontrar o Clodo na trilha das cachoeiras. Dessa vez, não fomos tão fiéis, o que nos rendeu algumas tensões. “Vocês vão com esse? Ele andou batendo o barco”. “Esse eu não recomendo, o barco tá quebrado”, e assim por diante. Eu me apavorava e trocava de barqueiro, às vezes de última hora arrumando umas inimizades. Por isso, minha dica é que você encontre um barqueiro pra chamar de seu, e fique com ele até o fim, como fizemos na nossa primeira visita. Se bem que com 30 anos e sem filhos você não tem medo de nada, né?

Enfim, embarcamos com segurança de volta pra casa. Na minha bolsa, vários pedacinhos de papel com chaves pix. Como não há sinal de internet e muitos lugares não aceitam cartão, é comum te entregarem um pedaço de papel com o valor e o pix, numa demonstração de confiança que impressiona. Eu saí da ilha devendo pra todo mundo. Fiz todos os pix mais tarde, sem ter sido cobrada uma única vez.

Superagui é um lugar pra viver a riqueza do simples. Tem tudo o que você precisa, mas só o que você precisa. Às vezes é difícil encontrar água com gás, por exemplo, mas não faltará água. Um cenário que parece ter sido retirado de um filme, onde o tempo anda num ritmo diferente. Falamos com muitas pessoas que contaram a mesma história. Nasceram ali, tentaram a vida lugares bem maiores e decidiram voltar. Não por necessidade, mas por amor àquele lugar e às pessoas que nasceram e vivem ali. São 200 famílias e cerca de mil pessoas. Todos se conhecem. “Não dá pra aprontar”, me disse o dono da pastelaria (10 reais o pastel de camarão, meu povo!).
As crianças voltaram refletindo sobre as futilidades da nossa vida em São Paulo, sobre os muros e as diferentes possibilidades de vida que existem. De certa forma, como diz a lenda, entreguei meus filhos pra Superagui.

Obs: Vale passar em Morretes na ida ou na volta, e experimentar o barreado, prato à base de carne cozida durante muitas horas. Só que os restaurantes mais tradicionais só abrem no almoço. Minha sugestão é sentar na sacada do Casarão, provar a cachaça de banana, comer um barreado e depois mandar ver um sorvetinho de gengibre enquanto dá uma caminhadinha em volta do coreto da praça e assistir a galera mergulhar no Rio Nhundiaquara.
Outra possibilidade é deixar o carro em Curitiba e pegar um trem para Paranaguá. Fizemos isso da primeira vez. Descer a serra da Graciosa de trem é sensacional. A estrada já é linda, de trem é uma experiência bem diferente.
Obs 2: Eu levei dois adolescentes pra uma ilha quase deserta e só lembrei que um deles estava sem celular quando já estávamos na estrada. O João quebrou o aparelho dele uns dias antes. Levou apenas um livro que acabou no segundo dia. A partir daí foi muito jogo de baralho, um pouco de frescobol, bocha, umas caminhadinhas até a sorveteria e muita conversa. Uma delícia!
Preço por pessoa no carnaval:
Pousada Maresia – R$ 450 a diária pra um casal, com ar condicionado (sem ar, é mais barato)
Barco de Paranaguá até Superagui (ida e volta) – R$ 120
Passeio barco – R$ 100
Refeições – o PF é R$ 30 e o pastel é R$ 10
Aluguel de bicicleta – R$ 50 a R$ 80, dependendo do período
Parque – R$ 45
A rainha dos peixes garante fartura gastando pouco!
+Leia também da mesma autora um relato sobre o parque Beto Carrero, em Santa Catarina, e o sobre o Sítio do Carroção, no interior de São Paulo.
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Fonte.:Viagen


