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26 de fevereiro de 2026

Em Olinda, o que me faltava em outros Carnavais – 26/02/2026 – Zeca Camargo

Em Olinda, o que me faltava em outros Carnavais – 26/02/2026 – Zeca Camargo

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Não posso dizer que brinquei o Carnaval em Olinda este ano. Na verdade, fui brincado. Ou ainda, o Carnaval brincou comigo. Ou melhor, eu não entendi muito bem o que aconteceu.

Ao contrário de anos recentes, quando vivi a maior festa popular do mundo em Salvador e Belo Horizonte, eu não tinha nada definido. Na capital baiana, e mais ainda na mineira, a programação é tão exaustiva que desfrutar da festa (e há sempre muito a desfrutar) exige um esforço logístico.

Rio e São Paulo também oferecem dezenas de blocos animadíssimos com hora marcada, e a folia geral ostenta uma certa organização, sempre bem-vinda, pelo menos no papel. Em Olinda foi um pouco diferente.

Pelas ladeiras desse patrimônio histórico, eu tinha a sensação de estar sempre andando meio solto pelas ruas quando, de repente, um bloco na minha direção me arrastava com ele.

Ficava alguns minutos naquela corrente e, quando eu via, já estava num outro ponto da cidade, música e agitação se afastando de mim como o resíduo de uma borrifada de lança-perfume do passado. Até que um outro bloco vinha me resgatar e o ciclo recomeçava.

Nesse percurso à deriva, presenciei imagens lindas. Na varanda de uma casa de repouso, uma senhora aparentemente com os olhos já fracos, acenava para a multidão que mal via passar, com um sorriso mais largo que a envergadura dos braços flácidos e elegantes; na pele frouxa e corada, lindas tatuagens invisíveis de outros carnavais.

No cortejo sempre imprevisível dos bonecões, o diretor e o ator principal de “O Agente Secreto” eram aclamados. Atrás de Kléber Mendonça Filho e Wagner Moura, destaques do Oscar vindouro, Fernanda Torres, Chico Science, Lady Gaga, Amy Winehouse e Bob Marley. Fechando a fila, uma dupla duvidosa, ou talvez nem tanto: João Gomes e Ozzy.

Ao lado, na Pousada dos Quatro Cantos, a banda rasgava hits do Nação Zumbi junto com frevos tradicionais. E na sede do bloco Pitombeiras, que também é dos quatro cantos, ganhei da diretoria um P na testa, passe livre para qualquer loucura do Carnaval, e a camiseta que, também na onda do “Agente Secreto”, coloria Olinda de amarelo.

Pernas cabeludas, perdi a conta. O sol só não castigava mais porque eu circulava com a minha garrafa geladíssima de Gintrão —melhor não perguntar o que é. A bebida inevitavelmente me levou à casa que em 2025 me colocou numa lista VIP de pessoas que poderiam usar o seu banheiro… Mas quando cheguei, um choque: meu privilégio tinha sido cancelado.

Não só o meu eu, mas também o de Paulo Vieira e Stevie Wonder, colegas do ano passado. Não tive dúvidas: reclamei meus direitos e fui novamente inserido na rigorosa seleção.

Que fique claro que tudo isso se passou em clima de galhofa, de alegria, de pura liberdade. Em Olinda, experimentei algo que meus carnavais recentes quase me privaram: a espontaneidade.

Parece que o pernambucano, ciente de que o Carnaval faz parte da sua história, não leva compromisso nenhum para a farra. E tudo vira essa festa solta, leve, escrachada e cheia de cultura, onde minha única preocupação era decidir quem eu seguiria pelas ladeiras.

Enquanto eu decidia entre Ozzy, Chico Science e João Gomes, passou o bloco da Ema. E quando vi, já estava indo atrás dela.


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Fonte.:Folha de S.Paulo

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