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28 de fevereiro de 2026

Guia dá dicas práticas para lidar com a obesidade infantil

Guia dá dicas práticas para lidar com a obesidade infantil

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Existe uma questão urgente de saúde pública que merece não só a atenção de profissionais da área, mas, principalmente, das famílias: a obesidade entre jovens.

Segundo dados do Sistema Único de Saúde (SUS), uma em cada três pessoas de 10 a 19 anos apresenta excesso de peso no país. A condição é responsável por uma série de fatores de risco cardiovasculares, como hipertensão arterial, dislipidemias, diabetes, doenças ortopédicas, impacto no desenvolvimento físico durante o crescimento e questões emocionais, como baixa autoestima, ansiedade e depressão.

É notório que de alguns anos para cá houve uma mudança radical no estilo de vida das crianças: antigamente as brincadeiras exigiam ação corporal e aconteciam em espaços públicos. Mas a insegurança nos grandes centros urbanos nos fez deixá-las em casa. Com isso, ficaram mais sedentárias, ganharam telas e um cardápio infinito de comidas não saudáveis, tudo o que impacta diretamente na obesidade.

+Leia também: Pela primeira vez, mundo tem mais crianças obesas do que subnutridas

As múltiplas consequências do sobrepeso e obesidade nessa faixa etária requerem um programa de combate multifacetado. Para tanto, além do acompanhamento médico, o paciente e sua família deverão receber orientação de nutricionistas, educadores físicos e psicólogos.

A Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp), com o auxílio de profissionais dessas três áreas, elaborou o Guia de Hábitos Saudáveis para Crianças e Adolescentes que pode ser utilizado pela família e por educadores na promoção do movimento conhecido por MEV (mudança de estilo de vida).

Nutrição: rotina e escolhas inteligentes desde cedo

A primeira regra nutricional para crianças e adolescentes é transformar a alimentação em um momento previsível. Vale lembrar que os pequenos precisam de rotina, não de rigidez.

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Estabelecer horários regulares para refeições e lanches, evitar que comam em frente ao celular ou TV e oferecer alimentos in natura ou minimamente processados cria segurança alimentar e diminui hábitos como o beliscamento e a hiperfagia, fatores diretamente relacionados ao aumento de peso e ao risco cardiometabólico futuro.

Mas não existe mudança do comportamento infantil sem mudança familiar. A criança aprende por modelagem. Quando pais ou cuidadores passam a cozinhar, a consumir mais frutas e verduras, limitando a ingestão dos ultraprocessados e mantendo um discurso positivo sobre comida e corpo, a adesão dos menores cresce.

Outra dica é não classificar os alimentos como “do bem” e “do mal” baseado em suas calorias. A atitude tende a piorar o relacionamento com a comida, maximizando a ocorrência de transtornos alimentares.

O que vale é ensinar escolhas inteligentes, incluindo o consumo de fibras, proteínas de boa qualidade e gorduras protetoras (como as do azeite e oleaginosas) e reduzindo bebidas açucaradas, por exemplo.

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Educação física: movimento como parte da rotina

Estimular os pequenos a se movimentarem é um grande desafio nos dias atuais, mas os ganhos para a saúde compensam. Vale brincar no quintal, ir a pé para a escola, correr com o cachorro, pular corda, aproveitar o playground do prédio. Jogos que envolvam força também são bem-vindos: empurrar objetos, puxar, escalar, subir escadas… essas ações ajudam a fortalecer os músculos e liberar energia.

Novamente cabe à família dar o exemplo: pais que pedalam no parque ou praticam esportes competitivos sempre serão um estímulo para os filhos. Porém, a criança deve ter a liberdade de escolher sua prática esportiva preferida.

Mesmo quando há necessidade de permanecerem por longo tempo sentados – como na sala de aula – o ideal é que a cada uma hora, sejam incentivados a fazer de três a cinco minutos de movimento.

Psicologia: apoio emocional e autoestima no processo

A psicologia traz ferramentas fundamentais para o trabalho com crianças e adolescentes que precisam mudar a relação com a comida e com a autoimagem.

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Em primeiro lugar, recorrer a profissionais da área é positivo, pois reforça a compreensão de que pedir ajuda não é sinal de fraqueza. Ao contrário, a terapia irá oferecer um espaço de escuta, uma vez que o bullying ao qual estão sujeitos contribui para que tenham vergonha, tristeza ou raiva ao falar sobre o próprio corpo.

Validar sentimentos ao invés de minimizá-los faz com que se sintam acolhidos e seguros para se expressarem. O profissional da psicologia também irá valorizar habilidades e, quando crianças e adolescentes reconhecem suas competências, há um aumento da autoestima que as fazem compreender ser possível optar por hábitos melhores ao invés de se punirem ou subestimarem.

Vale ressaltar, que tanto pais e demais familiares devem participar integralmente desse processo. A atuação dos psicólogos não tira a responsabilidade de quem convive no dia a dia com essas crianças e adolescentes. Cabe à família ouvi-los, dar apoio emocional, contribuir com a oferta de alimentos saudáveis etc.

Diretrizes reforçam urgência da mudança de estilo de vida

A Diretriz Brasileira Baseada em Evidências de 2025 para o Manejo da Obesidade e Prevenção de Doenças Cardiovasculares e Complicações Associadas à Obesidade: Uma Declaração de Posicionamento de Cinco Sociedades Médicas endossa a mudança de estilo de vida (MEV) com dados alarmantes.

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De acordo com o documento, a prevalência global da obesidade mais do que dobrou nas últimas quatro décadas. Atualmente afeta mais de um bilhão de pessoas no mundo e é reconhecida como uma condição ligada a muitas doenças crônicas, notoriamente as cardiovasculares (DCVs).

Em 2021, 612 milhões de pessoas no mundo foram afetadas por DCVs e 26,8% deste total vieram a óbito. Dos principais fatores de risco que levaram às doenças do coração o índice de massa corporal (IMC) foi o mais recorrente.

Em termos globais, o número de crianças e adolescentes com obesidade superou, pela primeira vez, o número pessoas da mesma faixa etária abaixo do peso ideal. Levantamento do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) constatou que a prevalência do baixo peso diminuiu desde o ano 2000, de quase 13% para 9,2%. No mesmo período, a obesidade subiu de 3% para 9,4%.

No Brasil, dados de 2025 sugerem que 68% dos adultos possuem IMC (Índice de Massa Corpórea) igual ou maior que 25 kg/m² (quilogramas por metro quadrado) e que 31% dessa população esteja vivendo com obesidade. Em 2021, houve 60.913 mortes prematuras associadas ao IMC elevado.

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O trabalho com crianças e adolescentes para superar a obesidade é um dos melhores caminhos para combatermos essa epidemia que prejudica tanto a rotina quanto a saúde. Quanto mais cedo as famílias se conscientizarem e se engajarem neste processo, menos danos cardiovasculares e emocionais teremos a contabilizar.

Viviane Rocha Giraldez é cardiologista, assessora científica da SOCESP – Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo e uma das autoras da Diretriz citada. Valéria Machado é coordenadora do Departamento de Nutrição da SOCESP. Daniela Regina Agostinho é coordenadora do Departamento de Educação Física da SOCESP. Patrícia Perniciotti é coordenadora do Departamento de Psicologia da SOCESP.



Fonte.:Saúde Abril

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