Medicamentos como semaglutida e tirzepatida representam um dos maiores avanços no tratamento da obesidade nas últimas décadas. No entanto, seu uso indiscriminado pode trazer riscos e frustrações quando não há indicação clínica adequada nem acompanhamento médico criterioso.
As chamadas “canetas emagrecedoras” ganharam popularidade, impulsionadas por resultados expressivos na perda de peso e pela ampla divulgação nas redes sociais. Originalmente desenvolvidos para o tratamento do diabetes tipo 2, esses fármacos passaram a ser indicados também para obesidade, doença crônica reconhecida pela Organização Mundial da Saúde e associada ao aumento do risco cardiovascular, inflamação sistêmica e redução da expectativa de vida.
No Brasil, dados recentes mostram que mais da metade da população adulta apresenta excesso de peso, e cerca de um quarto já vive com obesidade. Isso reforça que estamos diante de um problema de saúde pública, e não apenas de uma questão estética.
Estudos robustos demonstram que essas medicações promovem perda significativa de peso, melhora do controle glicêmico e redução de eventos cardiovasculares em grupos selecionados. Mas isso não significa que sejam apropriadas para qualquer pessoa.
Uso apenas estético não é indicação médica
Esses medicamentos são indicados para indivíduos com índice de massa corporal igual ou superior a 30 kg/m2 ou para aqueles com sobrepeso associado a comorbidades, como diabetes, hipertensão, dislipidemia ou apneia do sono.
Utilizá-los apenas para perder dois ou três quilos por motivo estético não é recomendação médica. Toda medicação possui potenciais efeitos adversos, e o risco-benefício deve sempre ser avaliado.
Náuseas, vômitos, diarreia e desconforto gastrointestinal são comuns nas primeiras semanas. Em alguns casos, pode haver desidratação, perda excessiva de massa magra, piora da fragilidade em idosos e necessidade de ajustes terapêuticos.
Na prática clínica, observo que parte dos pacientes que procuram essas medicações não apresenta indicação formal, mas sim pressão estética ou comparação social – o que aumenta o risco de frustração e uso inadequado.
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Situações que exigem cautela
Existem condições em que o uso é contraindicado ou requer avaliação rigorosa. Pessoas com histórico pessoal ou familiar de câncer medular de tireoide ou síndrome de neoplasia endócrina múltipla tipo 2 não devem utilizar essas medicações.
Pacientes com pancreatite prévia exigem prudência, assim como indivíduos com doença biliar, dado o maior risco de formação de cálculos associado à rápida perda de peso.
Gestantes, mulheres que planejam engravidar e pessoas com transtornos alimentares ativos também não são candidatas adequadas. Em casos de depressão grave ou compulsão alimentar não tratada, a abordagem deve ser multidisciplinar.
Outro ponto pouco discutido é a qualidade da perda de peso. Quando não há orientação nutricional e estímulo à atividade física, parte significativa da redução pode ocorrer à custa de massa muscular, fator essencial para o metabolismo, a autonomia e o envelhecimento saudável.
Além disso, a interrupção abrupta do tratamento, sem estratégia de manutenção, pode levar ao chamado efeito rebote, com recuperação parcial ou total do peso perdido.
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Emagrecer é estratégia de saúde, não tendência
As canetas emagrecedoras são ferramentas valiosas no tratamento da obesidade, mas não substituem mudanças estruturais de estilo de vida. Alimentação equilibrada, exercício físico, sono adequado e manejo do estresse continuam sendo pilares fundamentais.
O tratamento da obesidade deve ser encarado como estratégia de saúde a longo prazo, com foco não apenas na estética, mas na redução do risco cardiometabólico e no aumento da expectativa de vida com qualidade.
Medicamento não é atalho cosmético. É intervenção terapêutica que exige critério, responsabilidade e acompanhamento médico. O verdadeiro objetivo não deve ser apenas emagrecer, mas tratar a saúde metabólica de forma segura, sustentável e baseada em ciência.
* Filippo Pedrinola é endocrinologista e head nacional de Endocrinologia da Brazil Health
(Este texto foi produzido em uma parceria exclusiva entre VEJA SAÚDE e Brazil Health)

Fonte.:Saúde Abril


