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Introdução
Pesquisa revela que 7 em cada 10 professores veem alunas agredidas por colegas em escolas. Meninas “fora do padrão” são as principais vítimas de bullying e assédio. Docentes se sentem despreparados, e especialistas defendem políticas de salvaguarda e educação sexual para combater a violência de gênero em sala de aula.
- 7 em cada 10 professores testemunham agressões contra alunas em escolas no semestre.
- Garotas negras, gordas e com deficiência são as principais vítimas de bullying e assédio sexual.
- A maioria dos docentes se sente despreparada para lidar com a violência de gênero em sala de aula.
- Especialistas defendem políticas de salvaguarda, tolerância zero e encaminhamento de denúncias nas escolas.
- Educação sexual é apontada como uma das ações mais efetivas para a prevenção da violência de gênero.
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Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.
Sete em cada dez professores afirmam ter visto, pelo menos uma vez no semestre, situações em que alunas foram agredidas por colegas. Garotas fora do padrão — negras, gordas e com deficiência — são as principais vítimas de bullying e assédio sexual nas instituições de ensino.
É o que revela o levantamento “Livres para Sonhar?”, liderado pela ONG Serenas, que luta contra a violência de gênero no Brasil.
“Toda escola precisa ter uma política de salvaguarda dessas estudantes, definindo como os casos serão recebidos, investigados, punidos e encaminhados para fora da esfera pedagógica, quando preciso”, afirma Amanda Sadalla, CEO da organização.
A pesquisa ouviu mais de 1,3 mil docentes, que, em sua maioria, se consideram despreparados para lidar com esse tipo de problema em sala de aula.
Como combater a violência na escola
Sem estereótipos
Não reproduza ideias como “Meninas não são boas em exatas” ou “Meninos não choram”.
Tolerância zero
Ignorar a opressão é normalizá-la. Repreenda todo tipo de discriminação. Posicione-se.
Encaminhamento
É preciso saber dar cabo às denúncias, fornecendo apoio psicológico e jurídico quando necessário.

Leia também: Como as escolas podem combater a epidemia de violência contra as mulheres?
Palavra de Especialista
VEJA SAÚDE: No relatório, vocês destacam que, entre as meninas que mais sofrem violências na escola estão aquelas que são “fora do padrão” ou são mais “pra frente”. Como esses dados se relacionam com o que vemos fora das escolas? Elas são também as que têm maior risco de conviver com agressões de diferentes tipos ao longo da vida?
Amanda Sadalla: A pesquisa “Livres para Sonhar?” foi realizada a partir da experiência da ONG no apoio a secretarias de educação na criação de políticas públicas voltadas para combater violências contra meninas e mulheres.
As violências acontecem tanto dentro quanto fora da escola, que é um ambiente que pode reforçar ataques que acontecem em sociedade, mas também tem o potencial de mudar normas e padrões.
O levantamento foi feito para que tenhamos dados que possam embasar caminhos que ajudem a diminuir agressões físicas e psicológicas em sala de aula e, mais tarde, nos lares e no mercado de trabalho.
Para as jovens que estão sendo vítimas de violência na escola, que tipos de apoio elas precisam ter a disposição?
Todas as escolas precisam ter uma política de salvaguarda, que institua zero tolerância para qualquer tipo de discriminação, opressão ou violência baseada no gênero — com definições claras sobre o que isso significa.
É preciso estabelecer como este caso será investigado, onde a vítima pode denunciar, com quem ela pode conversar, quais são os fluxos de encaminhamento e de investigação e como ela vai ser protegida durante a investigação do caso.
As escolas no Brasil não possuem políticas de salvaguarda e de prevenção de violência baseada no gênero e o que acontece é o que a pesquisa mostra: as meninas buscam ajuda na direção e são muitas vezes culpabilizadas — elas não são levadas a sério, escutam que elas estão usando roupas provocativas ou se comportando mal.
Além disso, elas precisam ter o direito ao acolhimento e aos primeiros cuidados psicológicos, quando revelam o que aconteceu. Além disso, se for o caso de uma denúncia, é preciso ter acompanhamento jurídico.
Segundo o estudo, a maioria dos professores se sente despreparada para lidar com a violência baseada em gênero — ao mesmo tempo que praticamente todos concordam que as escolas devem combater esse tipo de violência. Como os profissionais da educação podem ser orientados sobre como agir ao flagrar diferentes manifestações de violência de gênero no ambiente escolar?
Todos os profissionais precisam estar treinados sobre a prevenção de violência de gênero no ambiente escolar.
O que isso significa? Primeiro, não reproduzir os estereótipos de gênero em sala de aula, porque essa é a base da violência. Por exemplo, reforçar que as meninas não merecem estar no ramo das ciências, da matemática e da tecnologia; reforçar as meninas no cuidado do lar; reforçar que os meninos não podem expressar as suas emoções.
É preciso ensinar aos professores como agir diante de uma violência praticada tanto por outros docentes quanto pelos estudantes. É muito importante, enquanto profissional, atuar, dizer porque que aquilo é errado, acolher vítimas e encaminhar denúncias.
Quando um professor não faz nada, isso reforça que a violência é natural, normal. Mas quando ele se posiciona, a gente começa a descontruir essa violência.
A pesquisa mostra que falta conscientização sobre a gravidade dos casos – ainda se acredita muito que somente estupro ou violência física são situações severas e criminosas. Mas a divulgação de fotos íntimas sem consentimento também são e causam um dano enorme para saúde mental das vítimas, por exemplo.
O toque sem consentimento também causa medo, angústia, vergonha, humilhação, ansiedade… e não se dá importância suficiente para isso.
Outro problema é que as meninas denunciam e, muitas vezes, não são levadas a sério como deveriam e são culpabilizadas, como se a responsabilidade das violências que elas sofrem fossem delas e não dos meninos agressores.
Além disso, faltam fluxos bem estabelecidos do que se deve fazer e como. Como eu disse, não há políticas estabelecidas pelas Secretarias de Educação, e, consequentemente, as escolas não seguem um padrão de encaminhamento dos casos — para a própria secretaria ou para outras instâncias.
Faltam políticas, com responsáveis e orçamento definidos, para a prevenção e o combate à violência de gênero nas escolas.
Cerca de um quinto dos professores disse ter visto casos de violência sexual ao longo de um semestre. A educação sexual nas escolas poderia prevenir esse tipo de crime entre os jovens?
A educação sexual é, comprovadamente, uma das ações mais efetivas para a prevenção da violência de gênero, sexual e tantas outras formas de violação. Porque a educação sexual ensina como eu me relaciono comigo mesma e com os outros de uma forma respeitosa, baseada no consentimento e no respeito.
O que a gente precisa entender é que os jovens reproduzem padrões observados especialmente nas famílias, nas mídias, na pornografia, nos conteúdos que eles consomem.
Em casa, o menino vê o pai sendo agressivo com a mãe e aprende que é assim que se trata uma mulher, que é assim que se deve ser um homem na sociedade.
Quando esse menino consomem conteúdos pornográficos violentos, ele também reproduz relações sexuais baseadas na violência, podendo inclusive vir a se tornar um agressor sexual.
Quando a menina é criada numa casa em que ela vê a mãe sendo violentada, ela aprende que é assim que uma mulher é tratada na sociedade. Ela pode vir a normalizar esse tipo de situação.
Portanto, a educação sexual (ou “educação integral e sexualidade”, como gostamos de chamar) não diz respeito apenas ao ato sexual, mas também a como se relacionar — tanto amorosamente quanto consigo mesma, com as amizades e a família.
Fonte.:Saúde Abril


