Após a pandemia de 2020, aquele evento trágico que ainda nos deixa amargas memórias, vimos um aumento súbito nas viagens de forma geral e, em especial, nas viagens internacionais (já que, durante a Covid, as fronteiras ficaram fechadas, restando às pessoas explorar os próprios países de domicílio).
Este movimento foi intenso e associado à expressão fomo (“fear of missing out”, ou seja, o medo de estar perdendo algo), uma verdadeira fuga para todos os lugares, enchendo hotéis, restaurantes e todo tipo de serviço nos principais destinos turísticos.
Nós, do setor de turismo, imaginávamos que esse período seria curto, um ou dois anos talvez, e que passada a demanda pós-privação pandêmica, voltaríamos a um período menos atribulado. Ledo engano. As pessoas incorporaram o turismo como parte incondicional da vida. Independentemente do motivo, viajar se tornou uma necessidade.
O turismo não estava, e ainda não está, preparado para isso. As cidades turísticas estão em superlotação, os voos ficaram caros e, muitas vezes, são vendidos em overbooking. Os serviços turísticos não apenas aumentaram drasticamente os preços como a qualidade do serviço caiu. O que era cheio ficou entupido, o que era caro ficou quase inalcançável.
Corre-se atrás agora: novos hotéis sendo lançados de uma forma nunca vista, mais aeronaves sendo incorporadas nas companhias aéreas e uma mão de obra adicional sendo treinada, tentando suprir esta demanda insaciável. Mas há uma mudança grande em curso. Os viajantes estão deixando de viajar a qualquer custo e agora buscam viagens com finalidades mais específicas.
Valorizar o tempo da viagem passou a ser uma condição. A necessidade (de viajar) continua, mas há uma elaboração maior, saber exatamente para onde, quando e de que forma viajar.
Observamos que a busca por lugares mais exclusivos, que conectem culturas ainda bastante preservadas e natureza exuberante, tem tido um aumento expressivo.
Os viajantes querem estar em destinos que preservam a autenticidade, o que muitas vezes significa escapar dos lugares mais conhecidos e seguir para regiões mais isoladas, fora da rota tradicional —ver o mundo como ele é (ou como era).
Vemos que os períodos de férias deixaram de ser períodos de descanso apenas, mas se tornaram períodos de aprendizado como conhecer novas civilizações, entender a história, os costumes de povos antigos ou mesmo a diferença em relação aos tempos atuais.
Há uma busca genuína por conhecimento: ir além do que vemos no Instagram para mergulhar com mais profundidade nas experiências. Vemos destinos como a Ásia Central e países como Uzbequistão ou Quirguistão emergirem com força, assim como Arábia Saudita, Armênia e Geórgia.
Os países dos Bálcãs, como a Bulgária ou a Bósnia, a pequena Eslovênia, no leste europeu, ou ainda regiões específicas, como o sul da Índia e o oeste da África, serem cada vez mais procurados.
Alguns viajantes, inclusive, buscam os ensinamentos de professores e especialistas para ter uma camada a mais de informação destes locais, destas épocas, destas culturas, poderem se aventurar já iniciados com mais informação ou compartilhando estes conhecimentos durante a viagem.
Não é à toa também que as viagens de grupos vêm se ressignificando e deixando de ser o estereótipo de excursão (grupos grandes, sem tempo livre, hotéis e restaurantes ruins) para serem viagens extremamente bem elaboradas em grupos pequenos, seguindo roteiros únicos e mais calmos, com curadoria de hotéis, restaurantes e acompanhamento de professores, mas que principalmente reúnem pessoas com perfis muito próximos, o que facilita a interação e novas amizades.
Ao mesmo tempo, há a busca por vivenciar algo único, de preferência em locais de difícil acesso, mas com a possibilidade de presenciar eventos fora do comum, diante da natureza e das paisagens cuja grandiosidade torna impossível permanecer indiferente.
Bons exemplos são maravilhar-se com as auroras boreais não na cidade de Tromso (conhecida como a capital das auroras), mas em pequenas ilhas do arquipélago de Lofoten, também na Noruega; ou encantar-se com a época da florada das cerejeiras não no Japão (hoje apinhado de visitantes), mas na Coreia do Sul; ou deslumbrar-se com os desajeitados pinguins e a dança das caldas das baleias na Antártica.
Essa combinação entre a busca pelo incomum destinos de natureza ainda preservada, com poucos visitantes, tem sido um dos principais motores do desejo contemporâneo de viajar.
Não é à toa que é tão bom viajar. Sentimo-nos vivos novamente, com nossa curiosidade pela vida pulsando e os sentidos abertos ao desconhecido. Viajar é resgatar a inquietação humana dos horizontes que, muitas vezes, estavam escondidos de nossos próprios olhos.
O que vemos agora é que o turismo está se transformando: há uma intenção mais clara. Em vez da simples fuga do cotidiano, surgem viajantes que desejam, mais do que tudo, voltar a aprender e a se maravilhar com o mundo, não como vemos pelas telas, mas de fato como ele é.
Fonte.:Folha de S.Paulo


