10:04 PM
3 de março de 2026

Se estivéssemos numa guerra mundial, nós saberíamos? – 03/03/2026 – Rui Tavares

Se estivéssemos numa guerra mundial, nós saberíamos? – 03/03/2026 – Rui Tavares

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Outro dia, meu filho mais velho (de 8 anos) perguntou-me se já estávamos na Terceira Guerra Mundial. A resposta é não. Mas a resposta demorou uns segundos a mais a chegar do que em qualquer outro momento da minha vida, e isso já nos diz alguma coisa.

Seguiam-se outras perguntas mais complicadas. Se já estivéssemos numa guerra mundial, saberíamos? E as pessoas que viveram guerras mundiais, tiveram logo (e tiveram sempre) consciência disso?

A resposta é que não: as pessoas que viveram guerras mundiais nem sempre, e nem logo, tiveram consciência disso. Até porque nem todas as guerras que poderemos considerar mundiais têm esse nome.

A Guerra da Crimeia, de 1853 a 1855, teve cenários em quatro mares distintos —Mediterrâneo, Negro, Báltico e até no Pacífico— e nela participaram britânicos, franceses, russos, turcos, até piemonteses. Foi, em muitos aspectos, a primeira guerra mundial moderna, teve a atenção típica de uma guerra mundial, mas não teve esse nome.

Também as guerras napoleônicas tiveram uma projeção mundial —que o diga o Brasil, que recebeu a família real portuguesa. Mas, sobretudo, a Guerra dos Sete Anos (1756 a 1763), a que Winston Churchill chamou “a primeira guerra mundial”, e na qual participaram Reino Unido, França, Espanha, Portugal, Prússia, Áustria, Rússia e Suécia, e a Guerra da Sucessão Espanhola, que se travou em quatro continentes, poderiam merecer o título.

A Primeira Guerra Mundial não foi logo chamada dessa forma. No início, como é sabido, esperava-se que a guerra acabasse “pelo Natal”. Quando se percebeu que a guerra seria longa, começou a ser chamada de Grande Guerra. Um filósofo alemão, Ernst Haeckel, previu que a guerra europeia iria extravasar do seu continente e passar a ser uma Weltkrieg (guerra mundial, em alemão).

Mas para a maior parte do mundo só houve necessidade de lhe chamar uma “Primeira” Guerra Mundial a partir do momento em que houve uma segunda. E aí aconteceu outra mudança de nomenclatura. Também eles, no seu tempo, viveram num pós-guerra, como nós. É só retrospectivamente que entendemos que esse período era na verdade um entreguerras. Talvez como o nosso, só que apenas mais longo?

E aí, regressamos à pergunta do início: e nós, saberíamos?

Um dos grandes historiadores da Primeira Guerra Mundial, Paul W. Schroeder, descreve o debate sobre a inevitabilidade (ou não) da Primeira Guerra Mundial através da metáfora de uma intersecção de linhas de trem.

Numa visão, as potências europeias antes da Primeira Guerra eram como trens lançados cada um em linhas que se cruzam, o que significa que era inevitável que mais tarde ou mais cedo colidissem.

Mas há outra forma de ver essa metáfora. Imaginemos que as linhas de trem não se dirigem a uma colisão certa, mas apenas que passam suficientemente perto para que um acidente possa acontecer a qualquer momento. Pelo hábito, pela cautela ou pelos costumes, a colisão vai sendo evitada até o momento em que um dos maquinistas decide que não deve ter um gesto de precaução.

Olhando para o que se está a passar, é aí que estamos. Não é inevitável. Mas estamos a aproximar-nos do momento em que uma colisão já é, pelo menos, plausível. Daí a minha demora na resposta.


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Fonte.:Folha de S.Paulo

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