A boa notícia é jurídica. A má notícia continua sendo artística.
Leo Lins foi absolvido. A Justiça Federal de São Paulo reformou a decisão da primeira instância que condenou o piadista –não consigo chamá-lo de humorista– a oito anos de prisão e multa de R$ 300 mil por danos morais coletivos.
Segundo o relator, o humor, ainda que desconfortável e ofensivo, está protegido pela liberdade de expressão enquanto não incitar diretamente violência ou discriminação.
O tribunal fez o que se espera de uma democracia madura. No Brasil de hoje, isso já merece champanhe. Afinal, vivemos num país onde a liberdade de expressão, além de seletiva, anda em estado avançado de deterioração –basta lembrar o episódio recente do presidente da Unafisco Nacional, convocado a depor como investigado após criticar o STF.
Absolver Leo Lins não o transforma em bom comediante, muito menos em artista inteligente. Não o promove a Voltaire do stand-up, o mestre da sátira que usava o humor para iluminar a estupidez humana. Continua sendo só um cara que descobriu que existe público que paga para ouvir piada idiota.
Nelson Rodrigues já havia diagnosticado o fenômeno décadas atrás. Houve um tempo em que ninguém escutava um idiota e o infeliz sabia qual era o seu lugar. Um dia, porém, o idiota subiu num caixote e começou a discursar. Outros idiotas saíram do armário e seguiram o exemplo. E nunca mais faltou plateia.
Gosto de stand-up e assisto. Desconhecia a existência de Leo Lins até a polêmica do show (de horrores) “Perturbador”. Ele não poupa ninguém: negros, gays, mulheres, gordos, pessoas com deficiência, judeus, velhos, crianças, doentes terminais e até crianças com hidrocefalia. Somadas todas essas minorias, ele conseguiu ofender a maioria.
Rir de abuso sexual, escravidão, campos de concentração, pedofilia ou doença (Preta Gil foi uma dessas vítimas nos últimos dias de vida) é explorar matéria-prima barata. É esse o seu talento disfarçado de arte: usar a dor alheia para provocar riso.
Me incomodam a voz, os olhos esbugalhados, a cara de babaca, o esforço para parecer engraçado de Leo Lins. Eu não iria a um show dele nem sob escolta. Digo isso exercendo a mesma liberdade de expressão que aqui defendo, nem por isso, espero, estou cometendo um crime.
Colunas
Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha
Uma piada pode ser vulgar, burra, covarde, apelativa, imoral e artisticamente medíocre. Ainda assim, não cabe ao Estado decidir quais formas de expressões ofensivas podem existir num palco. Piada ruim não está no Código Penal.
Incitar ódio ou violência é outra conversa. Não que as piadas de Leo Lins sejam inofensivas. Piadas carregam verdades, dizem muito de quem as conta e sobre quem ri delas, nem toda piada é ficção. Freud lembrava, em “Os Chistes e sua Relação com o Inconsciente”, que numa brincadeira se diz aquilo que não ousaríamos afirmar diretamente. O humor que humilha e reforça estigmas não passa incólume, alguém sempre sai ferido.
Por mais que às vezes tenhamos vontade de calar a boca do piadista, não é papel do Estado fazê-lo. No dia em que um juiz tiver essa prerrogativa com poder de cadeia, o problema já não será mais só Leo Lins. Hoje, o humorista; amanhã, o escritor, o músico, o professor, o cineasta ou qualquer cidadão que diga algo que um grupo considera intolerável.
A estupidez da censura tem essa característica: ela nunca para no primeiro.
LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Fonte.:Folha de S.Paulo


