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11 de março de 2026

A teoria da evolução e a involução das guerras – 11/03/2026 – Jorge Abrahão

A teoria da evolução e a involução das guerras – 11/03/2026 – Jorge Abrahão

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Assustado, li a manchete que anunciava mais uma guerra e, no subtítulo, o bombardeio a uma escola de crianças com a morte de 168 meninas. 168 crianças! Nada justifica tal atrocidade. Foi quando me veio à mente o pensamento: “o que eu faria se uma delas fosse minha filha?” O que você faria? O que só fez crescer o sentimento de indignação. Não bastassem as 20 mil crianças recentemente mortas em Gaza, assistimos, numa trágica repetição da história, ao início de uma nova guerra, sem motivos previstos no direito internacional e promovida por líderes autoritários e violentos.

Onde buscar explicações para aplacar a angústia? Nos livros, nas teorias políticas, na história de poder? Nas análises da geopolítica mundial? Buscava explicação maior, que transcendia a razão e desconfiava de nossa estrutura de formação.

Foi então que desliguei a tela e rumei para o zoológico, na busca de encontrar naquele ambiente supostamente selvagem alguma justificativa para tamanha violência dos sapiens. Como se a selvageria presente na árvore da vida pudesse ajudar a entender o comportamento dos humanos. De onde viria ele? Qual sua origem?

Para os que creem na ciência e acreditam na teoria da evolução, viemos dos animais, somos animais. Diante da barbárie do mundo atual, com líderes políticos psicopatas, desumanos e mentirosos, fui ao zoo para observar e, quem sabe, entender os nossos comportamentos.

Fui direto encontrar nossos irmãos chimpanzés, com quem ainda compartilhamos 98% do DNA. Talvez ali tivesse pistas importantes. Estavam lá pulando de galho em galho, as fêmeas amamentando os filhotes, os machos brincando e carregando as crianças na cacunda. Um idoso, com a vista inebriada pela catarata, sentado num canto, observando o grupo, coçando o pé e comendo uma banana, no merecido ócio de seu tempo.

Na falta de explicações por ali, fui ao encontro do rei, supostamente destemido e arrogante, mas me deparei com o leão lambendo o pescoço da leoa, em gesto de carinho. Não foi diferente o que observei com o poderoso elefante ou com o resistente camelo. O certo é que não conseguia achar a explicação que buscava, e o som da pergunta só fazia aumentar.

Depois de algumas horas saí um tanto frustrado. Não enxerguei ali o ambiente violento nem a selvageria que buscava para não me sentir só e aplacar a sensação de insanidade dos humanos.

Um dos motivos que nos fez chegar ao topo da cadeia alimentar foi a capacidade de atuarmos em grupo e nos organizarmos socialmente, em estabelecer vínculos de confiança. Passados 200 mil anos, estamos fazendo o oposto disso. Estamos fazendo tudo errado. A ganância, o individualismo, a violência e o desrespeito tomaram conta de nossas lideranças. A defesa do interesse imediato pela força virou padrão. As desigualdades só aumentam e geram tensões. Perde-se a confiança. E a ideia selvagem de zoo não pertence àquele espaço. A selvageria está instalada na nossa sociedade.

E eu, que fui ao zoo buscar explicações para a insanidade que alimenta os promotores das guerras, saí com a sensação de que há uma inversão de valores. O sapiens, que ganhou o presente de combinar emoção e razão, não entendeu a potência que lhe deram e tornou-se um animal violento, ganancioso e predador da natureza. Talvez um de nossos maiores desafios seja entender que, antes de tudo, temos que resolver as relações entre nós, humanos. Sem isso nossas chances diminuirão cada vez mais.

2,5 milhões de anos de evolução do gênero homo e 200 mil de sapiens para dar nisso? Guerras, disputas de poder, ganância, violência, mentiras e manipulações. Algo está errado. Talvez não dê tempo para mudar a humanidade, mas seguramente dá para mudar nossa vida e, quem sabe, contribuir para evitar que essa mentalidade violenta por aqui se instale.


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Fonte.:Folha de S.Paulo

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