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Introdução
A Anvisa alerta para os riscos de danos hepáticos associados ao uso de suplementos de cúrcuma. Enquanto o tempero culinário é seguro, as formulações concentradas podem aumentar drasticamente a absorção da curcumina, levando a problemas graves no fígado. Entenda a diferença e os perigos, segundo um hepatologista.
- Anvisa emite alerta sobre danos hepáticos relacionados a suplementos de cúrcuma.
- A cúrcuma culinária é segura; o risco está nos extratos concentrados e cápsulas.
- Aditivos como a piperina potencializam a absorção da curcumina, aumentando os perigos ao fígado.
- Danos podem variar de inflamações leves a casos graves que exigem transplante de fígado.
- É crucial buscar orientação médica e realizar exames se usar suplementos de cúrcuma, devido a riscos e interações.
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Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.
A cúrcuma, também conhecida como açafrão, é um corante natural famoso em receitas. Nos últimos anos, porém, graças aos efeitos anti-inflamatórios e antioxidantes de sua composição, passou a ganhar cada vez mais espaço em cápsulas e promessas de saúde. Quando enquadrada nesta categoria, porém, ela pode deixar de ser apenas um tempero e se transformar em um risco para o fígado.
Diante disso, na última semana, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) emitiu um alerta sobre a possibilidade de casos de inflamação e danos hepáticos associados ao uso de suplementos e medicamentos que contêm o composto na sua formulação.
A decisão veio depois de investigações internacionais identificarem episódios graves — embora raros — ligados principalmente ao consumo de extratos concentrados ou cápsulas da substância.
O aviso, portanto, não se aplica ao uso culinário da cúrcuma.
Mas os riscos, diz a Anvisa, existem e estão associados ao aumento na absorção da curcumina — princípio ativo do açafrão —, que costuma ter seus efeitos potencializado em fórmulas com objetivos medicinais.
Mas, por que isso pode ser prejudicial? E quando o consumo deve ser realmente evitado? Entenda a seguir.
Das feiras aos laboratórios
A cúrcuma vem das raízes da planta Curcuma longa, que pertence à mesma família do gengibre. Dentro dela está, então, a curcumina, o princípio ativo que dá ao curry a cor de amarelo intenso.
Nos últimos anos, a substância ganhou fama. Por ser um composto da categoria dos chamados polifenóis, a curcumina é estudada por seu potencial anti-inflamatório e antioxidante — ou seja, o poder de proteger contra a ação dos radicais livres, moléculas que aceleram o envelhecimento e facilitam doenças.
Por isso, o açafrão saiu das feiras e tomou alguns laboratórios. Para além de dar um sabor único aos alimentos, ele passou a ser indicado para uma lista enorme de condições: artrite, infecções respiratórias, doenças do fígado, envelhecimento e até prevenção da Covid-19.
O detalhe é que muitos desses benefícios ainda não têm comprovação científica robusta.
Mesmo assim, a curcumina costuma ser considerada segura em estudos clínicos, em especial quando ingerida por via oral em doses de até 6 gramas por dia por períodos curtos (4 a 7 semanas).
Mas, evitar esse limite não é lá tão difícil. Isso porque, quando consumida na comida, a curcumina é muito pouco consumida pelo corpo.
“A curcumina é absorvida pelo intestino, mas apenas uma pequena fração chega de fato à circulação sanguínea. Chamamos isso de baixa biodisponibilidade”, explica o hepatologista Luis Edmundo Pinto da Fonseca, do Hospital Alemão Oswaldo Cruz.
Isso significa que, na alimentação normal, é difícil atingir níveis altos da substância no organismo. Por isso, o uso culinário da cúrcuma sempre foi considerado seguro.
Por que os suplementos são arriscados?
É justamente para contornar essa baixa absorção que os fabricantes de suplementos passaram a adotar estratégias para aumentar drasticamente a biodisponibilidade da curcumina. E é aí que mora o perigo.
Uma das saídas mais comuns é adicionar piperina, composto presente na pimenta-do-reino. Alguns estudos sugerem que 20 miligramas de piperina podem aumentar a absorção da curcumina em até 20 vezes no sangue. Mas há também a inclusão de diversas composições farmacológicas.
Isso faz com que muito mais substância chegue ao organismo e, potencialmente, ao fígado.
“Com o advento dos meios de aumentar sua biodisponibilidade, passou-se a identificar vários casos de lesão hepática, sendo responsabilizada como provável causa de surtos de hepatite aguda, principalmente na Europa”, explica Fonseca.
Na França, por exemplo, a agência sanitária federal registrou dezenas de relatos de efeitos adversos ligados ao consumo de suplementos com cúrcuma ou curcumina, incluindo casos de inflamação do fígado.
A gravidade da inflamação no fígado (hepatite) ligada ao consumo desses suplementos é variável. “Vai desde quadros leves e que se resolvem com a suspensão da substância, até episódios de hepatite aguda grave, necessitando de transplante de fígado ou até levando à morte”, diz o hepatologista.
O especialista explica, ainda, que nem todo mundo reage da mesma forma à curcumina. Por isso, o adoecimento pode estar ligados a fatores como predisposição genética e interações com medicamentos ou outros suplementos, que podem interferir na forma como o fígado metaboliza a curcumina. Esse conjunto de fatores pode aumentar o risco de inflamação hepática.
Então devemos evitar os suplementos de cúrcuma?
Para Fonseca, não necessariamente. “Não significa que nunca deva ser consumida. Porém, como sempre na medicina, deve-se avaliar os potenciais riscos, perante o possível benefício do uso de qualquer fármaco”, diz.
Para fazer essa conta, é preciso considerar que, no caso da curcumina, há um paradoxo: sabe-se que podem haver benefícios, no entanto, quando pouca curcumina é absorvida, como no caso da alimentação, essas vantagens são incertas. Porém, nesse caso, o risco de toxicidade é baixo.
Por outro lado, quando a absorção aumenta, os possíveis efeitos terapêuticos podem crescer, mas o risco de efeitos adversos também.
Por isso, Fonseca indica que é importante aguardar comprovações científicas robustas. E, se o uso terapêutico da curcumina vier a ser comprovado no futuro, será necessário estabelecer doses seguras e eficazes. Além disso, ainda será importante identificar quem tem maior predisposição genética à toxicidade.
Enquanto isso, a recomendação é evitar esse tipo de suplemento concentrado. Para quem não abre mão, vale, ao menos, buscar orientação médica. “Todos os indivíduos expostos ao tratamento com curcumina devem realizar periodicamente exames de sangue para a detecção precoce de toxicidade hepática, permitindo a suspensão imediata do fármaco, caso ela ocorra”, orienta Fonseca.
Já na cozinha, a história é outra. Ali, a cúrcuma continua sendo apenas um tempero, usado há séculos em diversas culturas.
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Fonte.:Saúde Abril


