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17 de março de 2026

Seu fundo de renda fixa tem Raízen? – 17/03/2026 – De Grão em Grão

Seu fundo de renda fixa tem Raízen? – 17/03/2026 – De Grão em Grão

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Meu fundo de renda fixa tem Raízen, devo resgatar agora? Essa foi, provavelmente, a pergunta mais repetida nos últimos dias. Após a notícia de recuperação extrajudicial envolvendo empresas como a Raízen e o Grupo Pão de Açúcar, iniciou-se uma verdadeira caça aos fundos expostos a esses nomes.

Listas circularam rapidamente: “Veja se seu fundo tem”, “confira quem está exposto”, “veja os fundos que mais tinham”. Investidores passaram a procurar o nome de seus fundos com a mesma ansiedade de um vestibulando diante do mural de aprovados.

Quando encontravam, muitos nem hesitavam. O impulso era imediato: resgatar. Mas decisões tomadas nesse tipo de contexto raramente são boas.

Fundos de renda fixa não são apenas uma coleção de nomes e não carregam eles como se fosse um CDB. Diferente de CDBs que investidores costumam aplicar e que são marcados na taxa de aquisição, os títulos em fundos são precificados diariamente e a mercado.

Em momentos de estresse, investidores que carregam esses títulos diretamente —e que não podem ou não querem mantê-los após um evento de crédito— acabam vendendo a qualquer preço.

Isso pressiona as cotações muito para baixo. E, não raro, leva os preços para níveis piores do que o pior cenário justificaria.

Imagine um título que pagava CDI + 1% ao ano. No estresse, ele passa a ser negociado como se pagasse CDI + 25%. O preço chega a cai cerca de 70% ou mais. Isso faz com que a cota do fundo possa ficar pior do que deveria.

Pois, com uma recuperação extrajudicial, a queda real do título depois de todo o acordo ser costurado pode ficar próxima de 40%. Ou seja, quem comprou do investidor desesperado a 30% do valor de face, ou seja, com 70% de desconto, pode ganhar mais de 100% de valorização.

Esse é o ponto que muitos ignoram.

Quando o investidor olha para a cota do fundo depois da notícia, a maior parte do dano já foi refletida —e, em alguns casos, até exagerada. Resgatar nesse momento é transformar uma perda potencial em perda definitiva e maior que a adequada.

Há ainda um segundo efeito, menos visível. Em períodos de estresse, os spreads de crédito sobem. Mesmo de emissores saudáveis. Isso faz com que diversos fundos de renda fixa apresentem quedas pela marcação a mercado, mesmo sem deterioração relevante dos fundamentos de longo prazo. E que muitas vezes é confundida como se fosse devido àquela empresa que anunciou o processo de recuperação. E muitas vezes o fundo nem tem essa empresa em sua carteira.

É justamente aí que ocorre um dos maiores erros.

Investidores tendem a entrar em fundos que tiveram bom desempenho recente e sair depois de um período ruim. Fazem exatamente o oposto do que a lógica da renda fixa sugere.

Diferentemente de uma ação, na renda fixa o retorno de um título até o vencimento já está, em grande medida, definido. Quando um fundo apresenta desempenho acima do esperado, muitas vezes está apenas antecipando ganhos que viriam no futuro. Quando cai, pode estar abrindo espaço para retornos mais elevados adiante.

O investidor atento entende essa dinâmica. Ele reduz exposição quando tudo parece confortável demais e aumenta quando o desconforto aparece —desde que os fundamentos permaneçam razoáveis.

Não por acaso, é comum que os meses seguintes a episódios de estresse em renda fixa tragam retornos acima da média para fundos de crédito privado.

O problema é que, nesses momentos, o desconforto parece um sinal de perigo —quando, muitas vezes, é justamente o contrário. Pode ser o alerta de ganhos maiores a frente.

Por isso, a pergunta correta não é se o seu fundo tem determinado ativo. É se você está tomando uma decisão baseada em análise… ou em ansiedade. Porque, no fim, as piores decisões de investimento raramente nascem de falta de informação. Elas nascem da urgência de agir.

Michael Viriato é assessor de investimentos e sócio fundador da Casa do Investidor.


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Fonte.:Folha de S.Paulo

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