Montevidéu é uma cidade que dá a sensação de viver em outros tempos, ainda que no presente.
É verdade que o cenário parece estar mudando, com obras por toda a parte e discussões urbanísticas acaloradas. Ao menos é o que noticia o diário El Observador. Em uma incursão na cidade, na semana passada, deparei-me com a provocação do escritor e jornalista Emanuel Bremermann no referido jornal: “Entre túneis futuros e guindastes que crescem como mato, onde podemos encontrar a Montevidéu que já não existe?”.
Repórter de cultura, ele logo responde: “Montevidéu se transforma e suas versões se sobrepõem; o cinema, a música, a fotografia e outras plataformas acabam sendo um reservatório da memória.”
A tudo isso, que o colega elenca com razão, eu acrescentaria outro bastião de memória: os cafés históricos, que guardam em suas mesas o processo de construção da identidade cultural do país de Eduardo Galeano (1940-2015) e Mario Benedetti (1920-2009).
Em especial, o Café Brasilero, onde intelectuais sentavam para conversar e escrever, incluindo os dois já mencionados. O local mantém sua história impregnada nas paredes amadeiradas, cheias de fotos de Benedetti e Galeano. Ambos gostavam da mesma mesa: uma que fica imediatamente à esquerda de quem entra, rente à vidraça que dá para a rua e de onde é possível ver o movimento na esquina das ruas 25 de Mayo e Ituzaingó. O cruzamento fica no coração da Ciudad Vieja, a três quadras da Plaza Independencia, aquela que tem ao centro o monumento/mausoléu do general José Gervasio Artigas, herói máximo do Uruguai.
Fundada em 1877, a cafeteria justifica a visita pela chance de testemunhar o passado saboreando medialunas quentes e um café espresso tão clássico quanto a casa.
Ocupar uma mesa no canto é ser transportado à Montevidéu das décadas de 1950 e 1960, como no café onde Martí Santomé, protagonista de “A Trégua”, de Benedetti, leva Avellaneda em seu primeiro encontro.
Enquanto vivia esse ritual, na semana passada, li na edição impressa do diário El País uma entrevista com Jorge Drexler, que acaba de lançar “Taracá”, álbum imerso no candombe, gênero afro-uruguaio. Nela, o cantor diz que “o Uruguai tem uma relação com o tempo raríssima e maravilhosa, que continua se movendo em circuitos afetivos parecidos”.
Como escreveu meu colega Luiz Horta em sua coluna na revista Gula, “Montevidéu é como estar em 1950, só que hoje”.
Em suma, a capital se transforma sem apagar seus rastros. Suas diferentes épocas se sobrepõem e suas versões se entrelaçam com surpreendente harmonia.
LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Fonte.:Folha de São Paulo


