Já são quase 20 anos desde que a Bodega Garzón levou a produção de vinho à costa do Uruguai. Um projeto robusto, com assinatura célebre (a assessoria enológica é do italiano Alberto Antonini, que vinifica para produtores como Antinori) e orçamento astronômico (o proprietário é o magnata do petróleo argentino Alejandro Bulgheroni), mexeu no mapa do vinho uruguaio. Antes, quando o país era assunto no mundo do vinho, falava-se nos tintos concentrados de tannat. Hoje, é a albariño uruguaia que figura em rankings de melhores do mundo.
Quando foram plantadas as primeiras vinhas da Garzón, nos anos 2000, a albariño era só uma aposta na região mais litorânea. Estava presente no Uruguai graças à vinícola Bouza, em Canelones, próximo a Montevidéu, fundada por uma família da Galícia, onde a casta nasceu. Hoje, a variedade branca reina absoluta na costa: é o vinho que a Garzón mais vende, que esgota antes da próxima safra estar no mercado. Há também outras 35 vinícolas que produzem albariño na região de Maldonado, departamento contíguo a Punta del Este, onde fica a Garzón.
No início da história da vinícola foram plantados 20 hectares com a casta. Quando os enólogos notaram que o vinho era bom, alguns anos depois, plantaram mais 20. Agora, com o frisson mundial pela casta, planeja-se plantar outros 20.
“Há muita gente, especialmente a geração mais jovem, que não quer beber a mesma uva por toda a vida. Os albariños são não convencionais”, afirma Antonini.
A casta é uma boa alternativa para as onipresentes chardonnay (pesada e alcoólica em clima mais quente) e sauvignon blanc (estridente nesse tipo de terroir). É versátil, tem acidez brilhante, untuosidade e, na versão sul-americana, bom corpo (na Galícia, onde o clima é mais frio e úmido, é mais austera e tem acidez mais marcada). As notas olfativas e gustativas são elegantes, de fruta branca ou de caroço, cítricas e até florais. Os vinhos da Garzón, com influência atlântica, trazem ainda uma deliciosa nota salgada.
São três os rótulos feitos por Germán Bruzzone, uruguaio que se dedica tanto aos vinhedos quanto à cantina e é o funcionário mais antigo da vinícola, com a consultoria de Antonini, todos trazidos ao Brasil pela World Wine. O primeiro deles, o Reserva, é cremoso e traz notas de pêssego e floral. O segundo, da linha Single Vineyard, é um pouco mais tropical, alcoólico e salino. O terceiro, o Albariño Petit Clos, é um vinho de parcela (como os crus franceses) e o único que tem passagem por madeira (tonéis grandes, de 600 litros e sem tosta).
Na última semana, quando a Garzón comemorava sua festa da colheita com um público de 400 comensais (a maioria de brasileiros) e um banquete assinado por Francis Mallmann, foi o Garzón Albariño Single Vineyard 2023 Magnum que encheu a maior parte das taças. É também esse tipo de vinho que desejo na minha mesa de Páscoa, especialmente se tiver a sorte de um bacalhau de forno.
Vai uma taça?
Prove os pioneiros do Uruguai na casta, a vinícola Bouza, importados pela Decanter. É delicioso e muito refrescante o Pisano Cisplatino Albariño (R$ 141 na Mistral), com notas de ervas e toque mineral. E o melhor preço deles é do Don Pascual Coastal Albariño (R$ 85 na Bacco’s), leve, fresco e que traz melão com raspa de limão à taça.
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Fonte.:Folha de São Paulo


