
Crédito, Hindustan Times via Getty Images
- Author, Kayleen Devlin, Tom Edgington e Yi Ma
- Role, BBC Verify
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Quase 100 navios passaram pelo Estreito de Ormuz desde o início de março, apesar dos ataques periódicos das forças iranianas contra embarcações na região, segundo análise da BBC Verify, o serviço de verificação de dados e imagens da BBC.
Alguns produtos energéticos e de primeira necessidade continuam sendo transportados através daquela que é uma das vias marítimas mais movimentadas do mundo. Mas o tráfego diário foi reduzido em cerca de 95% desde o início da guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã, no dia 28 de fevereiro.
O Centro Conjunto de Informações Marítimas indica que, antes da guerra, cerca de 138 navios transitavam diariamente pelo estreito, transportando 20% do abastecimento mundial de petróleo.
Já os dados fornecidos pela consultoria marítima Kpler demonstram que 99 navios cruzaram o estreito até aqui no mês de março, o que representa uma média de apenas cinco ou seis embarcações por dia.
A BBC Verify analisou quais são os navios que conseguiram cruzar o estreito e os riscos que eles correram.

A análise da BBC indica que cerca de um terço desses cruzamentos recentes foram realizados por navios com vínculos com o Irã. Eles incluem 14 embarcações que navegavam sob bandeira iraniana e outras sujeitas a sanções por supostos vínculos com o comércio petroleiro de Teerã.
Outros nove navios pertenciam a empresas com endereços vinculados à China e seis tinham como destino a Índia.
A análise também revela que diversas embarcações sem vínculos com o Irã atracaram em portos do país, incluindo navios de propriedade de empresas gregas. E alguns dos que conseguiram cruzar o estreito parecem seguir uma rota mais longa que o habitual.
Os dados de acompanhamento de um petroleiro com bandeira paquistanesa indicam que ele navegou perto do litoral iraniano durante sua passagem pelo estreito, no dia 15 de março, em vez de seguir a rota central, mais utilizada.

O pesquisador Bradley Martin, do centro de estudos de defesa americano RAND Corporation, declarou à BBC que, provavelmente, o navio estava “respondendo a instruções do Irã”. Ele destacou que sua trajetória poderá indicar a presença de minas ou uma tentativa das autoridades iranianas de facilitar sua identificação.
Ao obrigar os navios a mudar de rota, eles entram em águas territoriais iranianas e se submetem às normas marítimas de Teerã, segundo Michelle Wiese Bockmann, da empresa Windward Maritime Analytics.
“Minha conclusão é que o Irã está fechando e controlando o estreito, com medo de um ataque e também devido às minas. Por isso, todos precisam rodeá-lo e seguir ao lado do seu litoral, em vez de passar pelo canal de navegação internacional”, declarou ela à BBC Verify.
Michael Connell, do Centro de Análises Navais, com sede nos Estados Unidos, concorda que os navios estão tomando uma rota alternativa.
Para ele, “provavelmente, eles têm algum acordo com as autoridades iranianas, que garante sua segurança, se mantiverem uma rota definida”.
Quatro ameaças para a navegação
Desde o início do conflito, a BBC verificou 20 ataques a navios mercantes em frente ao litoral iraniano, mas nem todos nas imediações do Estreito de Ormuz.
No dia 11 de março, o navio graneleiro Mayuree Naree, de bandeira tailandesa, foi atingido por dois projéteis ao tentar cruzar o estreito.

Crédito, EPA
Três dos 23 tripulantes do graneleiro seguem desaparecidos. Acredita-se que eles tenham ficado presos na sala de máquinas quando o navio foi atingido.
Os donos do navio declararam à BBC Verify que os tripulantes sobreviventes ficaram “traumatizados no mar, ao serem atingidos por duas explosões”.
Outros dois navios — o Star Gwyneth, de propriedade grega, e o MT Safesea Vishnu, de propriedade americana — também foram atacados naquele mesmo dia.
“As rotas marítimas comerciais não podem se transformar em campos de batalha”, declarou à BBC o proprietário do MT Safesea Vishnu, S. V. Anchan.
Uma pessoa morreu no ataque, enquanto a embarcação estava ancorada em frente ao litoral do Iraque. Os 28 tripulantes foram obrigados a pular na água, para escapar das chamas, segundo Anchan.
“Estes homens e mulheres não são soldados… são profissionais que mantêm o andamento do comércio mundial.”

A combinação de ameaças — drones, mísseis, lanchas rápidas de ataque e possivelmente minas — representa um sério desafio, segundo Arun Dawson, do Instituto Freeman de Ar e Espaço do King’s College de Londres.
“Um navio caça-minas tradicional, que realiza um trabalho lento e minucioso, enfrentará dificuldades para localizar e desativar minas, se também estiver sendo atacado pelo ar e pelo mar”, explica ele.
O Irã também pode aproveitar a geografia do estreito.
Além da sua largura restrita e pouca profundidade, o litoral do estreito é montanhoso. Isso permite que o Irã lance ataques do alto em direção aos navios, que têm menos tempo para reagir.
Para tentar evitar serem detectadas, muitas embarcações aparentemente estão desligando deliberadamente seu sistema de rastreamento, conhecido como AIS (Sistema de Identificação Automática, na sigla em inglês).
“A grande maioria destes navios vem cruzando o estreito com o sistema de rastreamento desativado”, afirma Dimitris Ampatzidis, da Kpler.
Ao apagar os rastreadores na entrada do Golfo de Omã, os navios desaparecem dos mapas, reaparecendo horas ou dias depois, em uma localização diferente. Isso ajuda as embarcações a ocultar sua posição, mas também representa um desafio para empresas como a Kpler, que rastreiam a movimentação no Estreito de Ormuz.
“Tudo foi validado pelos nossos analistas por verificações manuais… e também usando imagens de satélite”, contou Ampatzidis à BBC.
Com colaboração de Daniele Palumbo e Joshua Cheetham. Gráficos de Tom Shiel.
Fonte.:BBC NEWS BRASIL


