Os preços do chocolate em barra e do bombom acumulam alta de dois dígitos para o consumidor brasileiro. Segundo o IPCA-15 (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15), os dois produtos subiram 24,87% nos 12 meses encerrados em março.
O índice geral de preços medido pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) aumentou 3,9% no mesmo período. A carestia do chocolate ocorre antes da Páscoa de 2026, que será celebrada em 5 de abril, e reflete principalmente os impactos defasados da disparada das cotações do cacau, apontam analistas.
Eles também avaliam que a recuperação do emprego e da renda dá sustentação para a demanda no Brasil, abrindo espaço para a recomposição parcial das margens da indústria e os repasses ao consumidor no varejo.
Dos 377 subitens (bens e serviços) que compõem a cesta pesquisada no IPCA-15, apenas 4 acumularam inflação maior que a alta do chocolate em barra e do bombom nos 12 meses até março. Foram os casos de batata-doce (39,7%), pimentão (28,69%), joia (26,93%) e transporte por aplicativo (34,65%).
“Isso [inflação do chocolate] tem bastante a ver com o cacau. O cacau passou a ter alguma moderação nas cotações ao longo do segundo semestre de 2025, mas o histórico é de alta acumulada bem importante, chegando ao consumidor”, afirma o economista Fábio Romão, sócio da consultoria Logos Economia.
“Famílias estão endividadas, mas há um cenário de baixo desemprego, renda em crescimento e formalização alta. É uma confluência de fatores que faz o chocolate aumentar”, diz o especialista.
A Abicab (Associação Brasileira da Indústria de Chocolates, Amendoim e Balas) também concorda que a inflação ainda é reflexo do déficit de 700 mil toneladas de cacau causado pelo fenômeno El Niño de 2024, que devastou plantações nos principais produtores do mundo (Gana e Costa do Marfim, responsáveis por 60% da produção mundial).
Segundo a associação, o preço da tonelada saltou do patamar de US$ 2.500 em 2022 para US$ 12 mil no auge da crise. Mais recentemente, o indicador passou a oscilar na faixa de US$ 5.000 a US$ 5.500 (em torno de R$ 25,9 mil a R$ 28,5 mil). O nível ainda é considerado elevado pelo setor.
A Abicab afirma que a cadeia produtiva mantém acompanhamento diário sobre as oscilações do mercado e dispõe de estoques reguladores para enfrentar os solavancos. Também diz que cada empresa tem sua política de preços.
“A expectativa para esta Páscoa é positiva porque vivemos estabilidade econômica, com a menor taxa histórica de desemprego”, diz. A entidade cita aumento da produção —de 806 mil toneladas em 2024 para 814 mil em 2025— e nas contratações temporárias —de 9.946 para 14.559, cerca de 50% a mais.
Folha Mercado
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A inflação acumulada pelo chocolate em barra e pelo bombom já foi maior no período recente do IPCA-15. Chegou a 27,84% nos 12 meses até dezembro de 2025, antes de marcar 26,11% até fevereiro de 2026.
O economista Leandro Gilio, pesquisador do Insper Agro Global, diz que o mercado de cacau ainda não se normalizou, apesar do recuo das cotações desde o ano passado.
O quadro, segundo ele, forçou a indústria a buscar alternativas e uma delas foi a aposta em produtos “sabor chocolate”, com menos cacau.
“Foi uma tendência para compensar a evolução muito forte dos preços.”
A partir do recuo das cotações da matéria-prima, pode haver um movimento de queda dos preços do chocolate, mas não de maneira imediata para o consumidor, aponta Gilio.
Ele ressalta que a cadeia produtiva é globalizada e envolve diferentes etapas, incluindo o processamento do cacau nas fábricas. Assim, a transmissão do alívio dos custos tende a ser mais lenta do que em outros mercados ligados ao agronegócio.
“Se a gente pensar em um produto como hortifrúti, [a mercadoria] vai da produção para a mesa do consumidor”, afirma.
Nos 12 meses até março, o chocolate em barra e o bombom acumularam altas de preços de dois dígitos nas 16 capitais e regiões metropolitanas pesquisadas no IPCA-15. A inflação dos produtos variou de 18,42% em Belo Horizonte a 27,81% na Grande Porto Alegre.
Fonte.:Folha de S.Paulo


