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2 de abril de 2026

Viajar para a Índia vai muito além dos estereótipos que circulam nas redes – 01/04/2026 – Turismo

Viajar para a Índia vai muito além dos estereótipos que circulam nas redes – 01/04/2026 – Turismo

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Quando você pesquisa sobre viagens para a Índia, é normal ler que o país não é para amadores. Muitas vezes, os estereótipos espalhados nas redes sociais têm até mais fama do as belezas naturais, a história e a hospitalidade do lugar. Justamente por isso, talvez, que eu decidi começar o meu ano de mochilão por lá.

Em setembro de 2024 tomei a arriscada decisão de me demitir, entregar o apartamento alugado e vender tudo o que tinha (que não era muita coisa) para sair viajando por aí. Longe de estar fazendo algo inédito, eu só estava cansado de uma série de coisas, meio entediado com a vida como ela é. Às vezes, a gente precisa de um empurrãozinho para fazer algo que sempre sonhou.

Gosto de viagens que tenham um pouco de perrengue no meio e, principalmente, que tenham potencial de romper completamente com a cultura e com as normas sociais com as quais estamos acostumados. Para mim, isso faz toda a diferença na hora de escolher um destino. E a Índia é o lugar perfeito para viver isso.

Foram três meses percorrendo mais de seis mil quilômetros por quase todas as regiões do país. Em meio aos mais de 1,4 bilhão de habitantes, os 20 milhões de turistas que passam por lá todos os anos geralmente são vistos como exóticos. Os olhares curiosos são constantes onde quer que você vá —o que no início isso pode incomodar e até assustar um pouco. Mas logo após um cumprimento, já começam os sorrisos.

A proporção entre população e número de turistas aumenta a chance de você ser o primeiro estrangeiro que um indiano está conhecendo. Por isso, é comum que muitos deles queiram conversar, saber de onde você é, e até tirar fotos. Às vezes, chega a ser cansativo.

Os indianos se sentem honrados e orgulhosos por você ter escolhido viajar para lá e demonstram isso com uma simpatia extrema. É como se a principal função de todo mundo fosse te fazer se sentir em casa. Nesse sentido, mesmo viajando sozinho, é impossível se sentir sozinho na Índia.

A sensação é que todo mundo vive como uma grande família. Amizades se formam em segundos, grupos de desconhecidos param o que estão fazendo na rua para te ajudar a encontrar o caminho. Você é cumprimentado a todo momento, estranhos te convidam para casamentos e você recebe inúmeros convites para beber chai —uma mistura deliciosa de chá preto, gengibre, especiarias e leite que é vendido em praticamente todas as esquinas.

Toda essa hospitalidade forma uma mistura interessante com o caos indiano. Assim como o Brasil, as diferentes regiões do país são bastante diferentes entre si. As normais sociais mudam, o espaço pessoal é mínimo, todo mundo anda junto, colado, e não há respiro nem nas filas.

O famoso trânsito é um organismo vivo, que demanda um pouco de coragem para ser parte —mas depois que você pega o jeito de cruzar se desviando de carros e motos, tudo parece funcionar. É um pouco como a vida, a gente só precisa de um tempo para pegar o jeito das coisas.

Sem planejar, fui a Allahabad e participei do Khumb Mela, a maior peregrinação religiosa do mundo, em uma edição que reuniu 420 milhões de pessoas durante 45 dias. A missão é uma só: mergulhar no rio Ganges em busca da purificação espiritual.

Passei por Varanasi, conhecida como a cidade sagrada, onde acontecem cremações a céu aberto durante as 24 horas do dia. É uma cidade que parece parada no tempo, em transe. Foi lá que procurei pelos Aghori, uma seita hindu conhecida por serem canibais, andarem nus e passarem os dias fumando maconha e em rituais tântricos. Eles buscam quebrar tabus e transcender a pureza. Além de tudo, eles são simpáticos e quase sempre sorridentes.

Em Jaisalmer, perto da fronteira com o Paquistão, passei uma noite no deserto de Thar, ouvindo histórias sobre como as tensões entre os dois países interferem no dia a dia das pessoas. Histórias de famílias vivendo separadas, seja por identificação com uma ou outra nação, eram bastante comuns.

Foi lá também que experimentei bhang lassi pela primeira vez. Conhecida como a bebida dos deuses e muito usada em rituais religiosos, ela mistura iogurte e um preparo feito a partir das folhas da cannabis. É a única forma legal de se consumir cannabis na Índia, já que a lei local proíbe o consumo das flores da planta, mas não o das folhas.

A religião, aliás, é bastante presente na rotina dos indianos, com predomínio do hinduísmo (que por vezes é usado também como arma política), mas com uma forte presença histórica da filosofia budista. É em Bodhgaya, onde fica o templo de Mahabodhi que, segundo a tradição, Buda alcançou a iluminação.

O lugar é aberto à visitação, e é onde você encontrará a maior parte dos estrangeiros durante sua viagem, já que os roteiros turísticos são bastante consolidados. Mas basta um pequeno desvio para uma cidade fora da rota, e você provavelmente será um dos únicos estrangeiros do lugar.

Para quem busca viver uma realidade completamente diferente da que já conhece, a Índia é o melhor destino possível. Lá, tudo muda. Lógicas se invertem, alguns perigos deixam de existir e outros surgem. Como quando o recepcionista de um hotel em uma dessas cidadezinhas me alertou, com um inglês truncado, para que eu não saísse do quarto à noite. É que um tigre e seu filhote estavam circulando pela região.



Fonte.:Folha de S.Paulo

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