Sabe quando você tem uma paixão nova e inesperada, já pressente que todos vão te censurar e, ainda assim, tem vontade de dividir sua nova alegria com o mundo?
Sofro disso há um mês. Mais exatamente, desde que li o livro “Na Ponta da Língua – O Nosso Português da Cabeça aos Pés”, de Caetano Galindo. De tanto escutar, com meu leitor de tela, o autor explicar com graça como surgiu o nome de cada partezinha do nosso corpo, um bocado deles derivado da língua dos poetas romanos, saí com o meu corpo todo arrepiado de curiosidade e decidido a descobrir afinal o que são as tais declinações e os casos nominativo, genitivo e acusativo sobre os quais ele falava aqui e ali.
Este foi só o primeiro flerte. Acontece que caí na cantada e resolvi procurar conteúdo no YouTube e encontrei um jovem professor de filosofia que ia lendo frases simples em latim seguidas de suas respectivas traduções e explicação uma a uma. Hipnotizado, assisti a todo o conteúdo disponível, de cerca de dez horas.
Foi o suficiente para treinar o algoritmo para que me abastecesse com conteúdo sine fine gravado por acadêmicos, tradutores, padres e diletantes. E tive de admitir, estava em um relacionamento sério.
Passei a escutar o Requiem de Mozart repetidamente, com ainda mais prazer do que nunca conforme ia traduzindo fragmentos do texto. Em seguida vieram os ebooks de gramática, as conversas infinitas com o ChatGPT para descobrir palavras novas na língua antiga ou a raiz daquelas que são usadas hoje no português, italiano, espanhol, francês e até inglês.
Minha única frustração era quando o professor, em vez de ditar as conjugações de um verbo ou uma lista de pronomes, apenas escrevia o conteúdo na lousa, o que tornava o aprendizado inacessível para um autodidata cego.
E voltamos ao dilema de esconder ou não meu novo hobby. Na padaria, com um amigo em um dia de calor, me vejo tentado a contar que o nome do sorvete Magnum tem origem em um adjetivo de primeiro grau do latim em seu gênero neutro e significa grande. Ainda mais porque iniciei o ano sem nem saber que existia em latim este gênero neutro.
Mas fico encabulado. A pergunta que virá a seguir é inevitável: “Mas para quê”? Vou ser obrigado a admitir que, até agora, não achei um jeito de o latim agregar valor ao meu curriculum vitae. Deixo para lá a conversa sobre línguas e digo apenas que ando passando muito tempo assistindo vídeos no celular, o que é verdade e também um papo bem contemporâneo e inofensivo. Afinal, quem não?
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Ao que ele prontamente concorda. Na verdade, luta para se livrar do vício. É um segundo de distração e tropeça no feed infinito de vídeos curtos. Passa uma hora e ele nem lembra o que viu e ainda luta com uma insônia na sequência. A solução foi procurar terapia e deletar as redes sociais.
Não resisto e deixo escapar. Conto que achava ruim o uso discriminado desse anglicismo deletar na língua portuguesa, até descobrir que a palavra vem do latim delere, que significa destruir. E inevitável, começo, ali na mesa, a louvar, do latim laudare, as delícias de viver meu novo amor.
Post Scriptum: Acho que vou me matricular em um curso de línguas clássicas online, buscar um grupo de conversação, ler poemas antigos no original etc. E, como se pode notar, minha relação com o celular nunca esteve tão boa.
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Fonte.:Folha de S.Paulo


