Se eu pudesse descrever a morte, certamente seria algo parecido com o que vivi na última semana. Por isso não teve coluna. Apresentei mais um quadro dissociativo. Não falava coisa com coisa, não conseguia ficar perto do meu cachorro, aliás, esqueci dele por um bom tempo.
Viver uma doença mental é estar suscetível a muita coisa. Aos remédios, por exemplo. Existem zilhões deles, que ajudam, mas que também podem atrapalhar. Cada pessoa responde de um jeito. Por isso o tratamento da bipolaridade, e de outros quadros, demora tanto a ter uma melhora significativa. Não é culpa do médico, não é culpa do paciente. É o que é.
Sou alcoólatra, bipolar e uma mulher à beira da menopausa, o que só agrava. Os hormônios interagem com a medicação. Recentemente, acreditem, eu estava produzindo leite como uma mãe recém-parida. Também já falei do aumento do meu peso. NENHUMA roupa me serve e isso me incomoda. Acontece tanta coisa que a aceitação é a primeira regra diária.
Nesses tantos erros e acertos, semana passada eu dei uma pifada. Não falava coisa com coisa e gritava, algo que nunca faço. Busquei refúgio com aquela que é a única que pode aguentar um rojão assim. Chegando à casa da minha mãe, pelo meu olhar ela logo viu que algo estava errado. Fico com os olhos esbugalhados, fixos no vazio, como se uma névoa encobrisse minhas córneas. Por isso ouso comparar esse estado à morte. Nada faz sentido. Nessas horas preciso de alguém que me pegue no colo e cuide de mim como se eu fosse um recém-nascido. Um bebê que olha tudo ao redor e parece não entender nada. Não ando sozinha, não me comunico. Fui para o hospital.
É preciso acreditar, confiar no médico e ter paciência para que o cérebro volte ao normal. Mas dá medo porque não sei se isso pode acontecer de novo ou nunca mais. Nos três dias que fiquei no hospital, falei com poucas pessoas. Na verdade, duas. Dois amigos queridos que torcem por mim. Com um, falei ao telefone e ele ficou bem preocupado com o tom da minha voz. Para o outro, dei um oi no Instagram dizendo que eu estava bem. Ele talvez estivesse estranhando meu silêncio, pois nos falamos todo dia.
Nessas horas, minha vontade é entrar num buraco e ficar chorando quieta. As lágrimas me acalmam. Mas eu não sou uma recém-nascida, tenho compromissos. Perdi uma reunião muito importante, e não sei como meus colegas conduziram aquele encontro, pois só eu tinha a pauta e os contatos.
Voltei para casa. Nada garante que não possa experimentar algo semelhante de novo. É por isso que é um dia de cada vez. Sou a única a entender o que está acontecendo comigo. Sou eu e meus sentimentos. São mais de quatro décadas de choros, tropeços, cenas que só eu enxerguei e senti. Não adianta encontrar os amigos, achar que alguém vai me botar no colo. Não, na verdade, adianta. Alivia saber da preocupação dos amigos. Ganhar mimos, massagens, palavras. Tudo isso age como um antídoto para o medo.
A real é que a vida é feita de etapas. No momento pode estar sendo mais difícil, mas com certeza amanhã vai ser um novo dia com outras coisas —boas ou ruins… Amo e agradeço cada curva que me aparece. Obrigada a cada um de vocês que me escreveu perguntando do meu sumiço.
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Fonte.:Folha de S.Paulo


