
Crédito, Reuters
- Author, Jeremy Bowen
- Role, Editor Internacional da BBC News
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A determinação dos EUA e do Irã em manter a pressão mútua colocou a trégua em sério risco e este se tornou um momento perigoso.
O cessar-fogo abriu uma oportunidade para a diplomacia que, por um breve período, pareceu que poderia trazer progresso.
Americanos e iranianos se encontraram para o diálogo na capital do Paquistão, Islamabad, mas saíram de mãos vazias.
Os paquistaneses estão tentando reavivar o processo, sem muito sucesso até agora.
Até que um ou outro, ou de preferência ambos, decidam oferecer concessões, a retomada das hostilidades em grande escala permanece bloqueada.
Mais do que nunca, existe um forte risco de percepção equivocada e cálculo incorreto de intenções e consequências. Ambos são maneiras clássicas pelas quais as crises saem do controle e as guerras se intensificam.
O controle do Estreito de Ormuz tornou-se a questão central da crise. Ele estava aberto à navegação, sem restrições ou pagamento de pedágios, até 28 de fevereiro, quando os EUA e Israel atacaram o Irã.
Agora, o Irã demonstrou como o fechamento do estreito pode significar tudo, desde uma arma ofensiva até uma fonte de receita e uma apólice de seguro. Esta semana, o ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Araghchi, disse aos parlamentares que não haverá retorno ao antigo status quo.
Os EUA não podem permitir que o Irã transforme o Estreito de Ormuz em águas territoriais que o regime de Teerã possa controlar e usar para cobrar milhões em pedágios dos transportadores, sem aceitar que a vitória tática sobre as forças armadas iranianas se tornou uma derrota estratégica.
O fechamento do estreito tem consequências econômicas globais. O tempo que a fronteira permanecer fechada determinará a gravidade das consequências da guerra para pessoas em todo o mundo.
A escassez de petróleo e gás, bem como de hélio para indústrias de alta tecnologia e de matérias-primas para fertilizantes, está tendo um impacto cada vez mais severo em milhões de pessoas muito distantes da zona de guerra. A crise de fertilizantes ameaça causar fome em países que não possuem segurança alimentar.

Os motivos do presidente Donald Trump, declarados e não declarados, são sempre complexos e mutáveis. Ele usou as redes sociais para tentar persuadir os comerciantes de petróleo a não aumentarem o preço da gasolina para os motoristas americanos.
Ele também deve estar frustrado com a resiliência e a determinação do regime iraniano em resistir a toda a dor que os Estados Unidos e Israel infligem ao país. Um regime preparado para atirar em seus próprios cidadãos nas ruas por protestarem, como as forças de segurança da República Islâmica fizeram mais uma vez em janeiro, não vai se preocupar muito com o bem-estar deles – pelo menos não até que isso afete sua permanência no poder.
A frustração de Trump é resultado de sua própria decisão precipitada de ir à guerra presumindo uma vitória fácil, sem pensar nas consequências do que aconteceria e no que fazer se não fosse fácil. Os EUA demonstraram o poder de suas forças armadas altamente eficientes, mas a tomada de decisões instáveis do presidente deixou o país em um impasse estratégico.
A decisão de Trump de ordenar que a Marinha dos EUA escoltasse alguns navios pelo estreito não restaura a liberdade de navegação. Entre 40 e 60 embarcações transitavam pelo estreito diariamente até que os EUA e Israel entraram em guerra.
O Irã demonstrou estar preparado para retornar à guerra e pode até mesmo estar disposto a ditar o ritmo da escalada. É uma estratégia repleta de riscos, mas para os homens que substituíram o antigo líder supremo e todos os altos líderes mortos pelos EUA e Israel, é um risco que vale a pena correr.
Os Emirados Árabes Unidos (EAU) parecem ser o principal alvo do Irã entre seus vizinhos árabes do Golfo. Em resposta, os EAU intensificaram suas alianças com os EUA e Israel. Os israelenses enviaram um sistema antimíssil Domo de Ferro para os EAU e soldados das Forças de Defesa de Israel para operá-lo – um gesto significativo que se recusaram a oferecer à Ucrânia.

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A decisão do Irã de atacar o porto emiradense de Fujairah é significativa. Ele está localizado na pequena faixa litorânea dos Emirados Árabes Unidos que fica além do Estreito de Ormuz, de frente para o Golfo de Omã.
Fujairah é o terminal de um oleoduto que permite aos Emirados Árabes Unidos exportar petróleo sem passar por Ormuz e possui grandes instalações de armazenamento de petróleo. Isso o torna estrategicamente e economicamente vital para os Emirados. Eles estão profundamente preocupados com os próximos passos do Irã.
Apesar dos fortes alertas públicos a Teerã e das forças armadas capazes, os Emirados ainda preferem evitar ataques diretos ao Irã. Essa política pode não sobreviver a um colapso do cessar-fogo. A longo prazo, isso significa gastar bilhões em armas americanas.
Trump ainda parece acreditar que o regime iraniano cederá diante da pressão e da força militar dos EUA. Ele gostaria de poder firmar um acordo, mas não aceitará um que seus críticos considerem inferior ao acordo nuclear que se tornou a principal conquista da política externa do presidente Barack Obama.
Durante seu primeiro mandato, Trump abandonou esse acordo, conhecido como JCPOA, com forte incentivo do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu.
Ele o substituiu por uma política que chamou de “pressão máxima”, a qual não conseguiu impedir o Irã de enriquecer urânio e agora parece ter iniciado a trajetória dos Estados Unidos e do Irã rumo a uma guerra sem solução fácil.
Fonte.:BBC NEWS BRASIL


