Para que fosse possível ter uma ferrovia atendendo a pacata Delfim Moreira, município de 8.000 habitantes no lado mineiro da Serra da Mantiqueira, cinco pontilhões foram construídos num trecho de pouco mais de 30 quilômetros.
Enquanto o trem existiu no município, contribuiu para o desenvolvimento de sua economia com o transporte de marmelo para fábricas em São Paulo e no Rio de Janeiro, além de levar seus passageiros para centros urbanos maiores, como Itajubá.
A aventura da ferrovia em Delfim Moreira, porém, durou apenas 34 anos, e o que resta hoje é a sua estação central, mantida como espaço cultural.
Delfim Moreira é cercada pela densa vegetação da Mantiqueira e abriga uma ampla fauna, com a presença inclusive de onças, principalmente pardas.
Do total de moradores, somente 3.000 habitam o núcleo urbano e o restante vive em cerca de 50 bairros rurais. É um raro exemplo no Brasil atual de forte presença humana na zona rural.
Localizado a médios 1.200 m de altitude, possui picos com mais de 1.800 m, num povoado iniciado em 1703, quando o bandeirante Miguel Garcia Velho chegou à região e encontrou ouro, primeiro motor da economia local.
Depois surgiram a agricultura de subsistência, o fumo e o feijão e, no final do império, o Barão de Bocaina trouxe da Suíça mudas de marmelo, que mudaram a economia local por cerca de 50 anos.
Entre as décadas de 1920 e 1970, a base da economia local foi a fruticultura e a indústria de polpas de frutas, especialmente o marmelo.
Inicialmente transportado das plantações até as fábricas por meio de tropas de burros, o marmelo passou a ser levado com a chegada da ferrovia, cuja estação central foi inaugurada em outubro de 1927, o que impulsionou a economia local.
Muitas fábricas se instalaram na região, como Colombo, Peixe e Cica –além de outras criadas por moradores–, e, para indústrias de processamento em São Paulo e no Rio de Janeiro, a forma usada passou a ser o trem.
O auge da produção de marmelo coincidiu com as duas melhores décadas da ferrovia na região (anos 1940 e 1950), quando 12 mil toneladas ao ano movimentavam a economia.
Situada a 1.206 m de altitude, a estação de Delfim Moreira fez parte inicialmente da Rede Sul-Mineira, até 1931, quando passou a integrar a malha ferroviária da Rede Mineira de Viação, onde permaneceu por 30 anos, até o ramal ser extinto.
Entre Itajubá, mais populoso município da região (96.855 habitantes, segundo o IBGE), e Delfim Moreira existiam 35,7 quilômetros de trilhos, distância que hoje por rodovia é de 29,1 quilômetros. Neles, existiam cinco pontilhões –Biguá, Barreirinho, Sengó, Vila Santa Terezinha e Vargem.
Com o fim do ramal, sobrou o transporte rodoviário para o marmelo, que já estava em sua fase de declínio na cidade. Hoje ele é lembrado na Festa do Marmelo, que ocorre anualmente.
O ramal de Delfim Moreira pretendia seguir até Piquete, no lado paulista da Serra da Mantiqueira, mas o plano nunca foi colocado em prática.
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Sua estação virou museu a partir de um projeto desenvolvido por estudantes das escolas públicas em 2010. Chamado Enfim, Delfim, o projeto consistiu na identificação e inventário do acervo cultural de bens móveis do município.
Pinos e alicates recolhidos no leito da estrada de ferro, fotos históricas e placas sinalizadoras da ferrovia estão entre os itens expostos no espaço, inaugurado no ano seguinte.
Além da estação central, Delfim Moreira tinha também a estação Biguá, inaugurada no mesmo dia, em 1927.
O jornalista viajou a convite do Sebrae-MG
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Fonte.:Folha de S.Paulo


